![]() |
Teoria dos Processos Oponentes e Dependência Química
Dr. Eduardo Rudge
A adaptação dos organismos vivos às diversas situações ambientais constitui um dos mais importantes capítulos da biologia, denominando-se homeostasia, (1) termo criado em 1.929 por Walter B. Cannon, que assim a definiu:
“É a faculdade que um organismo vivo tem de manter relativamente constante o seu estado de equilíbrio”.
É por esse motivo que o organismo reage à ação das drogas psicotrópicas adaptando-se ao seu uso recorrente, de tal forma que pode desequilibrar-se com a sua falta, como no seguinte esquema:
Sob o ponto de vista psicológico cabe à homeostasia interromper as emoções negativas, que são as principais causas descompensadoras do nosso sistema nervoso autônomo, responsável pelo nosso equilíbrio orgânico (2).
Segundo Edmund T. Rolls , todas as atividades, variedades e equilíbrio emocionais resultam de duas emoções básicas primordiais opostas: recompensas e punições (3)
O Professor Richard L. Solomon (1918-1995), do Dep. de Psicologia da Univ. Pensilvânia trabalhou, desde o início da década da 70, com a hipótese de que uma emoção forte, negativa ou positiva pudesse gerar automaticamente uma outra emoção que lhe fosse contrária, no sentido de abrandar a sua intensidade, para o restabelecimento do necessário equilíbrio homeostático (4)
O desenvolvimento desses trabalhos levou o Professo Solomon à formulação da Teoria dos Processos Oponentes (5), que vem despertando a atenção entre os estudiosos de Dependência Química, como veremos mais adiante.
O Professor Solomon dedicava-se ao estudo das motivações quando obteve, de um grupo de pára-quedistas, informações sobre as suas experiências emotivas relacionadas a essa atividade: ao pular sentiam medo, seguido por uma sensação prazerosa quando se abria o pára-quedas.
Esta sensação oposta ao medo corresponde à sensação de alívio o qual, dependendo da sua intensidade, poderia apresentar-se como reforço psicológico convidativo à repetição do ato. Ainda mais, com a repetição dos saltos o medo diminuía, intensificando-se o seu oposto, o prazer.
O Prof. Solomon e seus colaboradores verificaram a ocorrência dessa dualidade emotiva em inúmeras outras circunstâncias, interpretando-a como um processo onde a emoção oposta fosse provocada pelo próprio organismo, como recurso para a estabilidade emocional. À continuidade dos estudos, evidenciaram-se as diferenças entre as respostas aos estímulos submetidos a iniciantes e respostas aos estímulos submetidos a experientes, como também foram observadas propriedades diferentes entre a emoção provocada diretamente pelo estímulo, convencionada como emoção (a) e aquela emoção oposta, convencionada como emoção (b).
As emoções (a) sofrem o processo da habituação, isto é, vão perdendo o vigor com a repetição dos estímulos, ao contrário das emoções (b), que se fortalecem nessas condições pelo processo da sensibilização do mecanismo oponente.
Vemos pelo gráfico A o que se passou com o pára-quedista: um pico de medo, seguindo-se uma fase de adaptação e um nível de estado, estacionário, um platô que permanece até o término do estímulo, quando acontece o cruzamento pela linha base com passagem para a emoção de prazer, que ascende novamente em direção à linha base.
Pelo gráfico B, nós podemos verificar a influência da habituação e sensibilização após muitos saltos, quando o pára-quedista sente menos medo com a atuação do estímulo e mais prazer ao término deste.
Essa teoria encontrou grande aceitação por parte dos estudiosos em Dependência Química por explicar muito razoavelmente os fenômenos de Tolerância e Abstinência, assim definidos pelo DSM-IV: (7)
Tolerância:
a) Necessidade de quantidades nitidamente aumentadas da substância para atingir intoxicação ou o efeito desejado.
b) Efeito nitidamente diminuído com o uso contínuo da mesma quantidade de substância.
Abstinência: Manifestada por um dos seguintes critérios:
a) Síndrome de abstinência característica da substância.
b) A mesma substância (ou outra bastante parecida) é usada para aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
Lembramos que a síndrome de abstinência significa o sofrimento experimentado pelo dependente quando afastado da droga e que se manifesta por irritabilidade, transpiração excessiva, tremores principalmente nas mãos, náuseas, ansiedade etc.
O processo oponente ao efeito da droga tem a propriedade de intensificar-se com a continuidade do uso, diminuindo dessa forma o efeito pretendido pelo usuário. Este então vai aumentando a dose habitualmente usada para atingir o seu nível de satisfação, obrigando o organismo a promover as adaptações necessárias para o equilíbrio homeostático próprio da sobrevivência. Dessa forma o indivíduo torna-se capaz de suportar elevadas quantidades de droga caracterizando a tolerância, conforme descrevemos acima.
Por outro lado o processo oponente, que reproduz inversamente o efeito da droga, persiste após o término do ação da droga, provocando um mal estar (que pode ser superado com uma nova dose da droga pelo usuário) correspondente ao contrário da ação da droga. Note-se que aqui a emoção positiva gera a emoção contrária, negativa, ao contrário dos pára-quedistas, onde a emoção diretamente resultante do estímulo era negativa, gerando a emoção oposta, positiva. No caso das drogas esse fenômeno pode explicar a repetição das doses até o limite tolerado pelo usuário e também os sintomas de abstinência que ocorrem após um período sem consumo ou mesmo de apenas diminuição da quantidade de droga habitualmente usada.
Existe uma outra propriedade do processo oponente, que se refere à possibilidade deste ser despertado por estímulo apenas sugestivo ou introspectivo, no caso de usuários ativos (em fase de uso). Dessa forma, a própria preocupação constante com a droga ou com coisas relacionadas a ela, um dos sinais próprios da dependência, desperta ou mesmo, mantém o oponente, levando o indivíduo a um uso recorrente ou constante com a finalidade de aliviar-se da sintomatologia de abstinência.
Com respeito a isso existe um trabalho muito bem concebido pela Dra. Anna Rose Childress (7) , da Universidade da Pensilvânia, Filadélfia, que recrutou 14 pessoas dependentes de cocaína e 6 pessoas que nunca haviam experimentado essa droga, submetendo-as ao exame por PET (positron emission tomography, exame que revela áreas em plena atividade funcional) enquanto assistiam a duas sessões de 25 minutos de vídeo, uma apresentandocenas da natureza e a outra apresentando cenas de tráfico de drogas, preparo e uso de cocaína, aspirada ou fumada (crack). Todas as 6 pessoas não usuárias declararam não sentir nada de especial com a visão dos vídeos, enquanto que os usuários de cocaína sentirem-se afetados com a exibição das cenas relacionadas à cocaína, identificando essa ocorrência como “craving” isto é, um premente desejo de uso da substância.*
A visão de cenas da natureza não afetou de modo significativo nenhum dos grupos. As imagens obtidas pelo PET não revelaram alterações quanto aos não usuários, enquanto que, em todos os usuários foram verificadas maior atividade em áreas do sistema límbico: o giro cingulado anterior e a amigdala, que são regiões relacionadas funcionalmente ao circuito de recompensa, que é seguramente o alvo principal da ação das drogas(8).
De modo geral observamos que para muitas pessoas as situações de risco parecem oferecer um certo atrativo e mesmo para algumas delas o binômio oposto “medo-alívio” pode explicar a prática de esportes chamados “radicais”. Podemos também evocar a Teoria dos Processos Oponentes para desvendar a dinâmica das compulsões pelo trabalho, jogo, furto, etc., não sendo despropositada, ao nosso ver, a pretensão de alguns estudiosos do assunto em alterar a denominação de Teoria para Princípio dos Processos Oponentes, para tanto, apenas aguardando um número maior de evidências.
*Craving: corresponde ao termo “fissura”, gíria brasileira usada pelos usuários de drogas.
REFERÊNCIAS
01-C. Eduardo T. Rudge. Homeostasia. Teoria dos Processos Oponentes.
http://www.edumed.org.br/cursos/neurociencia/01/Monografias/Homeostasia-eduardo.doc
02-Homeostasia e Reostasia
http://www.crono.icb.usp.br/homeostasiaereostasia.htm
03-Précis of “Brain and Emotion” Edmund T. Rolls ( for BBS multiple book review )
http://bbsonline.cup.cam.ac.uk/Preprints/OldArchive/bbs.rolls.html
04-Referência biográfica
http://en.wikipedia.org/wiki/Richard_Solomon
05-Solomon, RL &Corbit, JD (1974) “An Opponent-Process Theory”
Psychological Review 51, 119-14506-DSM IV - Tolerância e Abstinência
http://www.psiqweb.med.br/dsm/dsm.html (Procure Dependência de Substâncias)
07-Cues for Cocaine and Normal Pleasures Activate Commom Brain Sites
http://www.drugabuse.gov/NIDA_Notes/NNVol16N2/Cues.html
08-C.Eduardo T. Rudge.
![]()