comenius

linha
alcooldrogas_indice

Quanto e como bebe o brasileiro adulto

O consumo de bebidas alcoólicas é um comportamento adaptado à maioria das culturas. Seu uso é associado com celebrações, situações de negócios e sociais, cerimônias religiosas e eventos culturais. Por outro lado, o consumo nocivo de álcool é responsável por cerca de 3% de todas as mortes que ocorre no planeta, incluindo desde cirrose e câncer hepáticos, até acidentes, quedas, intoxicações e homicídios (Meloni e Laranjeira, 2004). Nos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, as bebidas alcoólicas são um dos principais fatores de doença e mortalidade, com seu impacto deletério total sendo considerado entre 8 a 14,9% do total de problemas de saúde dessas nações (Meloni e Laranjeira, 2004 e World Health Report, 2002).
Tradicionalmente, os países onde o consumo de álcool é permitido eram divididos em países “molhados” (culturas onde os índices de abstinência são baixos e onde o vinho é a principal bebida de escolha) e “secos”(abstinência é mais comum, mas aqueles que bebem costumam consumir em grandes quantidades). Essa tipologia vem perdendo força e sendo substituída por uma crescente homogeneização dos padrões do beber e das preferências por tipo de bebidas alcoólicas (Bloomfield e cols., 2003). Atualmente, os pesquisadores direcionam sua atenção sobre outros comportamentos relacionados ao beber, como, por exemplo, a regularidade (freqüência) com que se bebe, a quantidade do beber, a freqüência do beber em “binge” (acima de 5 doses para os homens e 4 doses para as mulheres).
Os dados apresentados nesse capítulo dizem respeito aos aspectos dos padrões de consumo de bebidas alcoólicas na população brasileira adulta, ou seja, com 18 anos ou mais. Por questões de espaço e prioridade, apresentaremos aqui as variáveis mais importantes e até o momento, desconhecidas, no que diz respeito ao consumo de álcool nessa população. Essas variáveis dizem respeito à freqüência e quantidade do consumo e os tipos de bebida mais comumente ingeridos. 

De acordo com o presente estudo, 52% dos brasileiros acima de 18 anos bebem (pelo menos uma vez ao ano). Entre os homens são 65%, e entre as mulheres, 41%. Do conjunto dos homens adultos, 11%  bebem todos os dias e 28% consomem bebida alcoólica de 1 a 4 vezes por semana. São os que bebem “muito freqüentemente” e “freqüentemente”. Na outra ponta, estão os 48% de brasileiros abstinentes, que nunca bebem ou que bebem menos de uma vez por ano. No grupo dos adultos que bebe, 60% dos homens e 33% das mulheres consumiram cinco doses ou mais na vez que mais bebeu no último ano.

Embora a maior porcentagem de pessoas que bebe esteja nas classes A e B e na região Sul, é nos Estados do Norte, Centro-Oeste e Nordeste, e na classe E, onde se consome maior número de doses a cada vez que se bebe.  Essas são algumas das principais conclusões desse capítulo. Os dados são apresentados de maneira mais pormenorizados abaixo.

frequenciq_sexoFreqüência da ingestão de qualquer bebida alcoólica (incluindo cerveja, vinho, destilados, bebidas “ice” ou qualquer outra bebida)
As freqüências foram definidas da seguinte maneira: Muito freqüente: todos os dias; Freqüente: 1-4 vezes/semana; Ocasional: 1-3 vezes/mês; Raramente: menos de 1 vez/mês; Abstinentes: menos de 1 vez/ano ou nunca bebeu.

A figura 3.1 mostra que os homens e mulheres bebem com freqüências marcadamente diferentes. Os homens apresentam índice de abstinência 40% menor do que as mulheres (35% para eles e 59% para elas). Há que se destacar que abstinência nesse livro inclui tanto os indivíduos que relatam nunca terem bebido como aqueles que não beberam no último ano, mas já beberam na vida (cerca de 7% da amostra). As diferenças do beber entre homens e mulheres são também claras nas freqüências mais altas (muito freqüente e freqüente), onde homens apresentam percentagem mais alta do que as mulheres

frequencia_idade

A freqüência do beber também varia muito no que diz respeito às faixas etárias. A figura 3.2 apresenta a distribuição da freqüênciaem percentagem do consumo pelas faixas etárias. Enquanto o índice de beber diário (muito freqüente) é relativamente constante entre as faixas etárias, a abstinência é mais de 79% maior entre os brasileiros de 60 anos ou mais do que entre os jovens de 18-24 anos. Isso não é surpreendente, já que os mais velhos tendem a ter comportamento mais conservador que os jovens. No entanto, sendo o Brasil um país com grande contingente de população jovem, esse consumo maior entre os mais jovens pode estar associado com maiores problemas relacionados ao álcool no país como um todo.




frequencia_regiao

 

A figura 3.3 apresenta as diferenças de freqüência em porcentagem entre as 5 regiões brasileiras. A região Sul se destaca com maiores índices no beber muito freqüente e freqüente, quando comparado com as outras regiões do Brasil. Inversamente, enquanto os índices de abstinentes do país (incluindo, como dito acima, aqueles que nunca beberam e os que não beberam no último ano) estão geralmente em torno de 50%, a abstinência da região Sul é de apenas 35%. As outras regiões apresentam percentagens intermediárias.

 


 


frequencia_classesocioeconomica
A classe social foi determinada de acordo com os critérios definidos pela Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de Mercado (ABIPEME). Utiliza-se informações sobre alguns “itens de conforto” (TV, rádio, banheiro, carro, etc.), assim como o índice de instrução do chefe da família.

A figura 3.4 apresenta os dados de freqüência entre as classes sociais. Os brasileiros das classes A, B e C apresentam maiores percentagens de consumo de álcool ao menos semanal (muito freqüente e freqüente). Já os índices de abstinência chegam perto dos 60% nas classes D e E, enquanto cerca de 40% são abstinentes nas outras camadas socioeconômicas.


Quanto bebe o brasileiro

Além da freqüência com que se bebe, outro dado fundamental  é saber quanto se consome numa única ocasião. É na quantidade de doses tomadas em um único dia que o beber como lazer pode se transformar em uso nocivo do álcool, com danos para a saúde que vão da exposição a doenças ao risco de acidentes graves.

A literatura internacional estabelece em cinco doses ou mais para homens e quatro doses ou mais para mulher, num único episódio, o limite do beber em “binge”, expressão que indica um estado de consumo de risco. Pela freqüência e gravidade desses eventos, o “beber em binge”, ou beber muitas doses num curto espaço de tempo, é abordado no capítulo "Beber com risco".  

Os dados abaixo dizem respeito apenas aos brasileiros que beberam ao menos uma vez no último ano (os abstinentes foram excluídos ).

frequencia_quantidadeA unidade de medida empregada na pesquisa e na avaliação foi a dose. A dose corresponde, na média, a uma lata de cerveja de 350 ml ou um copo de chope, uma taça de vinho de 90 ml, uma dose de destilado, de 30 ml, uma lata ou uma garrafa pequena de qualquer bebida “ice”. Cada dose contém cerca de 10-12 gramas de álcool. equivalencias

Pergunta feita ao entrevistado: Nos dias em que você bebe cerveja, vinho, bebidas ice ou destilados, quantas doses você geralmente bebe?

A figura 3.5 apresenta percentagens da quantidade usual de doses de bebidas alcoólicas consumidas por homens e mulheres que beberam no último ano. As mulheres são maioria no consumo baixo, até 2 doses. Por outro lado, 38% dos homens que beberam no último ano geralmente consumem 5 ou mais doses de bebida alcoólica em cada ocasião (versus 17% das mulheres). Ou seja, daqueles homens que bebem álcool, um número expressivo bebe usualmente quantidades potencialmente prejudiciais.

quantidade_dia

 

A figura 3.6 apresenta as quantidades usualmente consumidas por dia pelas diferentes faixas etárias. Os brasileiros mais jovens bebem geralmente em quantidades maiores do que aqueles com  60 anos ou mais. Essa diferença chega a ser 89% maior quando comparamos aqueles com os jovens de 18-24 anos. Até os 44 anos, mais de 30% dos brasileiros que bebem, consumiram geralmente 5 doses ou mais nas ocasiões em que beberam.




doses_regiao

 

A figura 3.7 mostra as doses consumidas usualmente nas 5 regiões brasileiras. Se a região Sul apresenta índices maiores de consumo freqüente (figura 3.3), são nas outras regiões (especialmente Nordeste, Centro-Oeste e Norte) que os brasileiros bebem geralmente em maiores quantidades nas ocasiões em que consomem bebidas alcoólicas. Na região Nordeste, por exemplo, 13% dos bebedores reportou consumo usual de 12 ou mais doses por dia de consumo e um quarto dos bebedores relatou consumir 5-11 doses nessas ocasiões.




quantidade_classe_economicaA classe socio-econômica foi definida de acordo com os critérios da Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de Mercado (ABIPEME). Utilizam-se informações sobre alguns “itens de conforto” (TV, rádio, banheiro, carro, etc.), assim como o índice de instrução do chefe da família.

A figura 3.8 apresenta os dados da quantidade usual divididos por classe econômica. Quase 2/3 dos indivíduos de classe A geralmente bebem até 2 doses, enquanto perto de metade dos brasileiros da classe E consomem 5 ou mais doses por situação habitual. No entanto nesse quadro cabe uma importante ressalva. Apesar das diferenças parecerem grandes, elas ocorrem sobretudo nas classes A e E onde as bases (número de indivíduo analisado em cada categoria de quantidade de consumo) para análise são muito pequenas. Assim, os resultados dessa tabela não são conclusivos.


A intensidade do beber
 

Além das medidas distintas de freqüência e quantidade de consumo, é interessante verificar qual o quadro que aparece no Brasil quando integramos essas duas variáveis. Abaixo apresentamos os índíces da intensidade do beber do brasileiro. Para classificar os padrões de consumo de álcool, utilizou-se uma versão modificada da versão do índex de Quantidade-Freqüência (QF) de Cahalan e cols. (1969). Perguntou-se sobre o consumo mínimo e máximo de vinho, cerveja, destilados e bebidas ice dos indivíduos nos últimos 12 meses. A freqüência foi codificada em categorias variando de “nunca” a “três a mais vezes por dia”. A quantidade do consumo foi avaliada através de perguntas sobre o número de ocasiões nas quais o indivíduo bebeu cinco doses ou mais, três ou quatro e um ou dois copos de vinho, cerveja, destilados e bebidas ice. Essas informações foram combinadas e os sujeitos foram classificados de acordo com as categorias abaixo:


intensidadeBebedor Freqüente Pesado – bebe uma vez/ ou mais por semana e consome cinco ou mais doses por ocasião uma vez na semana ou mais
Bebedor Freqüente) –  bebe uma vez/semana ou mais e pode ou não consumir 5 ou mais doses por ocasião ao menos uma vez/semana, mas mais de uma vez por ano.
Bebedor Menos Freqüente) – bebe de uma a três vezes/mês e pode ou nãobeber cinco doses ou mais ao menos uma vez ao ano.
Bebedor Infreqüente) – bebe menos de uma vez/mês, mas ao menos uma vez/ano e não bebe cinco ou mais doses em uma ocasião.
Abstêmio – bebe menos que uma vez/ano ou nunca bebeu na vida.

O figura 3.9 apresenta o consumo de bebidas alcoólicas entre os brasileiros adultos,  integrando freqüência e quantidade em cinco categorias de intensidade de beber. Esse figura mostra que a maioria dos brasileiros ou não consome bebidas alcoólicas ou bebe de maneira potencialmente arriscada.

Tabelas 3.1 – Intensidade do Beber – Diferença entre sexo, idade, regiões e classe social (n=2346)

Intensidade do Beber

Total

Sexo

Faixa Etária

Masc

Fem

18 / 24

25 / 34

35 / 44

45 / 59

60 /+

Bebedor  pesado freqüente

9

14

3

12

9

10

7

3

Bebedor freqüente

15

22

9

14

17

19

14

9

Bebedor menos freqüente

15

16

13

19

16

15

12

8

Bebedor infrenqüente

14

12

16

17

16

12

13

12

Abstêmio

47

36

59

38

42

44

54

68

Base

2346

950

1396

368

588

488

501

401

 

Intensidade do Beber

Total

Regiões

Classe Social

NO

CO

NE

SE

SUL

A

B

C

D

E

Bebedor  pesado freqüente

9

6

6

11

7

10

5

9

11

7

6

Bebedor freqüente

15

10

15

13

16

18

22

20

17

12

9

Bebedor menos freqüente

15

16

17

13

13

21

15

21

14

13

8

Bebedor infrenqüente

14

15

14

12

14

16

16

15

16

12

17

Abstêmio

47

53

48

51

50

35

42

35

42

56

60

Base

2346

147

191

682

1005

321

47

287

765

991

256

 Essa tabela mostra que a intensidade do beber apresenta diferenças estatisticamente significantes em relação ao sexo, faixa etária, regiões e classe social. Todas as diferenças são de acordo com as apontadas nas variáveis de quantidade de freqüência acima. Dessa maneira, homens bebem mais intensamente do que as mulheres, jovens mais do que os mais velhos. Nas regiões a prevalência do beber freqüente varia de 16% no nordeste até 28% na região sul. Em relação às classes sociais a classe B foi a que apresentou a maior prevalência de intensidade do beber, com 29% e a classe E somente 15%.

Os tipos de bebidas mais consumidas
percentual_tipo
A figura 3.10 apresenta as percentagens de doses por tipo de bebidas alcoólicas para a população adulta de bebedores. A cerveja ou chope é a bebida mais consumida pelos brasileiros quando se compara bebidas pelo número de doses consumidas anualmente. De todas as doses anuais consumidas por brasileiros adultos dos dois sexos, de qualquer idade e região do país, em torno de 61% são de cerveja ou chope e 25% de vinho.

Para chegar aos percentuais apresentados no gráfico 10, os entrevistadores perguntaram com “que freqüência” a pessoa consumia cada uma das bebidas e qual foi a “quantidade” de cada uma delas consumida em um único dia, nos últimos 12 meses.A categoria “cerveja” incluía cerveja e chope. “bebidas ice” são destilados misturados com refrigerantes ou sucos industrializados. “Destilados” incluem cachaça, uísque, vodca, conhaque, rum.

tipo_de_bebida_sexo
A figura 3.11 apresenta as percentagens de doses consumidas dos tipos de bebidas alcoólicas entre os sexos. As diferenças entre os tipos de bebidas consumidas por homens e mulheres dizem respeito ao vinho (bebido mais freqüentemente pelas mulheres) e aos destilados (consumido mais pelos homens). Cervejas (quase dois terços do total consumido) e bebidas ice (responsáveis ainda por pequeno consumo) não apresentaram diferenças no consumo entre os sexos.

As diferenças são estatisticamente significantes para vinho e destilados. Para cerveja e bebidas ice não é estatisticamente diferente entre os sexos.

 



doses_ttipos

 


 

 

O figura 3.12 apresenta a percentagem do total de doses dos tipos de bebidas alcoólicas consumidas por região do país. O consumo de destilados é mais alto nas regiões Nordeste, Norte e Centro-oeste. Consome-se mais vinho no Sul do país, quando comparado com o Nordeste. Tanto cerveja quanto as bebidas ice são consumidas de maneira semelhante nas várias regiões do país.


A tabela abaixo apresenta os percentuais do total de doses dos tipos de bebidas alcoólicas consumidas por classe social.
Há diferenças estatísticas no que diz respeito ao consumo de destilados e cerveja pelas várias classes sociais, ou seja, há variação
no consumo dessas bebidas de acordo com a classe do indivíduo

.

 
Tipo de Bebida Total Classe Social
A
B
C
D
E
Vinho
25%
38%
27%
25%
24%
18%
Cerveja
61%
45%
62%
65%
60%
51%
Bebidas Ice
02%
02%
03%
01%
01%
00%
Destilados
12%
15%
08%
09%
15%
31%



variedades_de_destilados

 

O figura 3.13 apresenta a percentagem dos tipos de bebidas destiladas consumidas. Entre os destilados, a cachaça (ou pinga) é a bebida mais consumida, seguida pelo uísque e rum. Não são apresentados os dados relacionados à diferenças entre sexo, faixa etária e classe social devido ao número relativamente pequeno de bebedores quando fazemos esse tipo de divisão.

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

Bloomfield K, Stockwell T, Gmel G e Rehn N (2003) International comparisons of alcohol comsumption. NIAAA (National Institute on Alcohol Abuse and alcoholism).

Greenfield TG e Kerr WC (2003) Tracking alcohol consumption over time. Alcohol Research and Health 27, 30–38.

Meloni JN e Laranjeira R (2004) Custo social e de saúde do consumo do álcool. Revista Brasileira Psiquiátrica, 26(supl I): 7-10.

The World Health Report, 2002. Reducing risks, promoting healty life. World Health Organization.

 

Fim do Capitulo