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Como bebem os adolescentes brasileiros
As bebidas alcoólicas são as substâncias psicotrópicas mais utilizadas por adolescentes (Faden, 2005; Galduróz e cols., 2005). Adolescentes que consomem bebidas alcoólicas podem ter conseqüências negativas tão diversas como problemas nos estudos, problemas sociais, praticar sexo sem proteção e/ou sem consentimento, maior risco de suicídio ou homicídio e acidentes relacionados ao consumo (Faden, 2005). O consumo de bebidas alcoólicas no Brasil só é legalmente permitido após os 18 anos de idade, no entanto a os empecilhos são pequenos para que os adolescentes comprem e consumam álcool (Romano e cols.,in press).
Por mais que o consumo de álcool por adolescentes em nossa sociedade possa parecer banalizado (não é incomum a presença de bebidas alcoólicas em festas de adolescentes; patrocínios de bebidas alcoólicas – especialmente cerveja e bebidas ice ), pesquisas demonstram que começar a beber em idade precoce é um fator muito importante que influenciará problemas futuros com o álcool (Maggs e Schulenberg, 2005).
Grande parte dos jovens de 14 a 17 anos, aqui pesquisados, vive uma transição de um estado de dependência dos pais para uma condição de autonomia pessoal. Eles estão, por isso mesmo, na fase de suas vidas em que mais carecem de apoio e quando mais desafiam essa ajuda. Seus cérebros, ainda em formação, são mais susceptíveis a agentes externos, como o álcool e demais substâncias psicotrópicas, e a diferentes fatores psicossociais. É quando a inserção no grupo se torna fundamental e o beber pode aparecer, por exemplo, como um meio de integração (Pinsky e Bessa, 2004).
Pelas particularidades desse grupo, a análise dos padrões de consumo inclui algumas variáveis muito importantes. Pesa muito a idade em que começam a beber, o número de doses que tomam em média a cada vez que bebem, e a quantidade de bebida ingerida nas ocasiões em que bebem muito.
Abaixo apresentamos os principais dados de, freqüência e quantidade (incluindo o beber em “binge”) e média da idade de início do consumo dos adolescentes. Diferentemente dos adultos, os adolescentes não serão analisados separando-se por variáveis de região e classe social porque a amostra, embora representativa do país inteiro, é pequena para a divisão em muitas categorias.
O padrão de consumo de álcool entre os adolescentes, revelado nesta pesquisa, é a fotografia de um momento de suas vidas. Mas a leitura desse retrato deverá ser feita também, e muito especialmente, em função dos anos que se seguirão.

Início do Consumo. Perguntas feitas:
Quantos anos você tinha quando começou a consumir bebidas alcoólicas? Não considere as vezes em que você experimentou apenas 1 ou 2 goles .
Consumo regular. Perguntas feitas:
Quantos anos você tinha quando começou a consumir regularmente bebidas alcoólicas?
Apesar do presente capítulo se propor a apresentar dados sobre os adolescentes, o gráfico.1 apresenta os dados dos jovens adultos (18-25 anos), para efeito de comparação. Adolescentes e jovens adultos apresentam diferenças na idade média do início do consumo (na vida, fora um ou dois goles) e no começo do consumo regular, como mostra o gráfico. A opção de se utilizar os jovens de 18 a 25 anos de idade como comparação deve-se ao fato deles terem menor efeito de memória para lembrarem do comportamento do beber do que a população mais velha. Houve diferenças significativas em relação ao começo da experimentação e do uso regular. Isso sugere que os adolescentes estão iniciando seu consumo de álcool cada vez mais cedo. Esse estudo fornece informações consistentes que o fenômeno do beber precoce e regular está realmente acontecendo com os nossos jovens.

A freqüência com que bebem.
Perguntas feitas:
Com que freqüência você geralmente bebe qualquer bebida alcoólica (incluindo cerveja, vinho, destilados, bebidas “ice” ou qualquer outra bebida)?
As freqüências foram definidas da seguinte maneira: Muito freqüente: todos os dias.
Freqüente: 1-4 vezes/semana.
Ocasional: 1-3 vezes/mês.
Raramente: menos de 1 vez/mês.
Abstinentes: menos de 1 vez/ano ou nunca bebeu
.
O gráfico 2 mostra que os meninos e meninas consomem bebidas alcoólicas com freqüências semelhantes. Cerca de dois terços de adolescentes de ambos os sexos são abstinentes. É importante lembrar que o consumo de bebidas alcoólicas é legalmente proibido para menores de 18 anos no Brasil. Mesmo assim, em um universo de adolescentes representativo das várias regiões do país e de áreas urbanas e rurais, quase 35% dos adolescentes menores de idade consomem bebidas alcoólicas ao menos uma vez ao ano. Da mesma maneira, o fato de que 24% dos adolescentes bebem pelo menos uma vez ao mês merece atenção.
Quantas doses os adolescentes bebem usualmente
Especialmente para os jovens, o número de doses que bebe, seja usualmente ou esporadicamente, é tão importante quanto a freqüência com que bebe.
Se cerca de dois terços dos adolescentes são abstinentes (gráfico 2), aqueles que bebem consomem quantidades importantes. A figura 4.3 apresenta a quantidade usual consumida pelos adolescentes que beberam ao menos uma vez no último ano. Quase metade dos meninos adolescentes, que bebeu no último ano, consumiu três doses ou mais por situação habitual. Diferentemente do gráfico de freqüência, há diferenças entre meninos e meninas no que diz respeito à quantidade de álcool ingerida habitualmente. Quase um terço dos meninos que bebem consumiu 5 doses ou mais no último ano, contrastando com 11% para as meninas.
Pergunta:
Nos dias em que você bebe cerveja, vinho, bebidas ice,destilados, quantas doses você geralmente bebe por dia?
A unidade de medida empregada na
pesquisa e na avaliação foi a dose. Corresponde, na média, a uma lata de cerveja ou copo de chope de 350 ml, uma taça de vinho de 90 ml, uma dose de destilado, de 30 ml, uma lata ou uma garrafa pequena de qualquer bebida “ice”. Cada dose contém cerca de 10-12 gramas de álcool.
A intensidade do beber
Bebedor freqüente pesado – bebe uma vez/ ou mais por semana e consome cinco ou mais doses por ocasião uma vez na semana ou maisO Beber com maior risco

Pergunta:
Durante os últimos 12 meses, com que freqüência você bebeu de qualquer bebida
alvoólica em uma única ocasião?
OBSERVAÇÃO:
SE HOMEM: cinco ou mais doses.
SE MULHER: quatro ou mais doses
O beber com maior risco em um curto espaço de tempo, ou o beber em “binge”, é a prática que mais deixa o adolescente exposto a uma série de problemas de saúde e social. Os riscos vão de acidentes de trânsito – o evento mais comum e com conseqüências mais graves, até o envolvimento em brigas, vandalismo e a prática do sexo sem camisinha.
O gráfico 5 mostra a percentagem em que a amostra total de adolescentes (incluindo os não bebedores) relatam ter consumido bebidas alcoólicas em “binge”. Pouco menos de um quarto dos meninos e 12% das meninas já bebeu em “binge” ao menos uma vez nos últimos 12 meses, o que é uma diferença estatisticamente significativa.

Entram na figura 6 apenas os adolescentes que já beberam em “binge” nos últimos 12 meses.
O gráfico 6 apresenta com que freqüência os adolescentes que beberam em binge ao menos uma vez ao ano relatam essa ocorrência. Entre os meninos e meninas que já beberam 4 ou mais ou 5 ou mais doses em uma única ocasião nos últimos 12 meses, metade o fizeram menos de 1 vez por mês. Por outro lado, 30% deles beberam em “binge” duas vezes por mês ou mais. Assim, uma parte significativa dos adolescentes que bebem grandes quantidades apresenta tal comportamento com regularidade.
As bebidas mais consumidas
A figura 4.7 apresenta as percentagens de doses por tipo de bebidas alcoólicas para a população adolescente de bebedores. Aproximadamente metade das doses consumidas por adolescentes é de cerveja ou chope. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores cruzaram dados sobre quantidade de doses consumidas de cada bebida e a freqüência com que são consumidas.
Os vinhos tiveram também uma participação importante, com mais de 30% das doses consumidas por adolescentes. Não houve nenhuma diferença significativa entre os sexos no que diz respeito aos tipos de bebida (embora os meninos tivessem uma tendência a beber mais destilados que as meninas).
Para chegar a esses números, os entrevistadores perguntaram com “que freqüência” o(a) adolescente consumia cada uma das bebidas e qual foi a “quantidade” de cada uma delas consumida em um único dia, nos últimos 12 meses.
A categoria “cerveja” incluía cerveja e chope. “bebidas ice” são destilados misturados com refrigerantes ou sucos industrializados. “destilados” incluem cachaça, uísque, vodca, conhaque, rum
Referências Bibliográficas
Faden V (2005) Epidemiology. Em: Galanter M (ed.) Recent Developments in Alcoholis, vol 17 – Alcohol Problems in Adolescents and Young Adults. Kluwer Academic/Plenum Publishers.
Galduróz JCF, Noto AR, Fonseca AM e Carlini EA (2005). V Levantamento Nacional Sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas Entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras - 2004. São Paulo, CEBRID.
Maggs JL e Schulenberg JE (2005) Initiation and course of alcohol consumption among adolescents and young adults. Em: Galanter M (ed.) Recent Developments in Alcoholis, vol 17 – Alcohol Problems in Adolescents and Young Adults. Kluwer Academic/Plenum Publishers.
Pinsky I e Bessa MA (2004) Adolescência e Drogas. Editora Contexto. São Paulo
Romano M, Duailibi SM, Pinsky I e Laranjeira R (in press) Pesquisa de compra de bebidas alcoólicas por adolescentes em duas cidades do estado de São Paulo – SP. Revista Brasileira de Saúde Pública.
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