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ALCOOLISMO

CARTILHA BÁSICA - CAPÍTULO 3   

                                         Dra. Dirce de Assis Rudge    

 

 ALCOÓLICOS ANÔNIMOS 

Alcoólicos Anônimos nasceu da busca de tratamento de um alcoólico funcionário da bolsa de valores de Nova York, que culminou em 1935 com seu encontro com um médico também dependente de álcool, na cidade de Akron, Ohio. Da conversa dos dois surgiu o movimento que agora apresenta adeptos em todo o mundo, com milhões de pessoas mantendo a sobriedade e melhorando a qualidade de vida em sua irmandade. No Brasil temos mais de cinco mil grupos, só na grande São Paulo são cerca de 200 grupos.. Há pouca formalidade e a pessoa não precisa dizer o nome, se desejar pode inventar um. Interessa a pessoa que lá está e nada mais. A receptividade de um novo adepto é  amigável e ele é encorajado a retornar. 

O programa de Doze Passos é apenas sugerido e pode ser utilizado de acordo com a possibilidade e disponibilidade de cada membro da irmandade.

Se alguns iniciam o programa esforçando-se para compreender os passos em sua seqüência, outros vão aos poucos, podendo levar anos para compreender e dar dois ou três fora da seqüência. Há um incentivo ao serviço dentro do grupo e isto faz com que surja um fio de auto-estima, que costuma estar muito baixa.

Muitos são os ganhos dos freqüentadores da irmandade. O primeiro deles talvez seja a descoberta de que ele pode ter esperança ao ver companheiros em recuperação que já reconstruíram parte de suas vidas e em variados graus. É a terapia de espelho. Ele vê que outros conseguiram ficar abstinentes e recuperar-se. Ele também pode. Outro é o encontro de um grupo de pessoas com propósitos semelhantes. Como diz Vaillant “a parede protetora da solidariedade humana”. Para alguém que viveu anos e anos de solidão é confortante esse encontro. Citando ainda Vaillant – “é preciso encontrar um comportamento que vá competir com o comportamento adictivo. Não se pode deixar o cérebro de “jacaré” com sede.” A freqüência ao grupo e o encorajamento dos companheiros para a mudança do estilo de vida é extremamente benéfico ao alcoolista

  

OS DOZE PASSOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: 

1.      Admitimos que éramos impotentes perante o álcool e que tínhamos perdido o controle de nossas vidas.

2.      Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia nos devolver a sanidade.

3.      Tomamos a decisão de entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, como nós O concebíamos.

4.      Fizemos um minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.

5.      Admitimos para Deus, para nós mesmos e para um outro ser humano, a natureza exata de nossos defeitos.

6.      Ficamos inteiramente prontos para que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

7.      Humildemente, pedimos a Ele para remover nossas imperfeições.

8.      Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a fazer reparações a todas elas.

9.      Fizemos reparações diretas a essas pessoas, sempre que possível, exceto quando fazê-lo viesse prejudica-las ou a outras pessoas.

10.  Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

11.  Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, como nós O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e a força para realizar essa vontade.

12.  Tendo tido um despertar espiritual, por meio destes Passos, procuramos levar esta mensagem a outras pessoas e praticar estes princípios em todas as nossas atividades. 

AS DOZE TRADIÇÕES DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS 

1.      Nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar, a reabilitação individual depende da unidade de AA

2.      Somente uma autoridade preside, em última análise, o nosso propósito comum – um Deus, amantíssimo, que se manifestou em nossa consciência coletiva. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não têm poderes para governar.

3.      Para ser membro de AA, o único requisito é o desejo de parar de beber.

4.      Cada grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que digam respeito a outros Grupos ou ao AA, em seu conjunto.

5.      Cada Grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre.

6.      Nenhum Grupo de AA deverá jamais sancionar, financiar ou emprestar o nome de AA a qualquer sociedade, parecida ou empreendimento alheio à Irmandade, para que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem de nosso objetivo primordial.

7.      Todos os Grupos de AA deverão ser absolutamente auto-suficientes, rejeitando qualquer doações de fora.

8.      Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não profissional, embora nossos centros de serviço possam contratar funcionários especializados.

9.      AA jamais deverá organizar-se como tal; podemos, porém, criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços.

10.  Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões alheias à Irmandade; portanto o nome de AA jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.

11.  Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção; cabe-nos sempre preservar o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.

12.  O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades. 

    O ANONIMATO EM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS* 

O anonimato em AA vai muito além do que a primeira percepção poderia nos trazer. AA nada tem de sociedade secreta, como por exemplo, a maçonaria. Aos membros de AA não se sugere o anonimato como uma forma de confidencialidade, segredo.

 

A revelação de filiação ao AA deve ser discreta e apenas feita, a critério exclusivo do membro. Tais situações seriam, perante a família e a sociedade em geral. Outras situações, em consultas médicas, a abertura é recomendada. E nos casos de transmitir a mensagem de AA a outro alcoólatra, a abertura do Anonimato é imprescindível.

 

Naturalmente, em cada uma das três situações acima, o objetivo da abertura é diferente. Na primeira (família e sociedade), o objetivo é a informação que muitas vezes se cumpre dar. Ainda assim, o julgamento sobre abertura ou não deve ser do próprio. Para os médicos, tal informação pode auxiliar o diagnóstico de outras doenças. E no último, a abertura deve ser feita para criar o clima de identidade entre o que dá e o que recebe a mensagem.

 

Contudo, a essência do Anonimato tem um conteúdo absolutamente espiritual. O Anonimato é a expressão da Humildade – Diz a Bíblia: “Que sua mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo”. E a Humildade é a virtude que tem que ser trabalhada como forma de desinflar o ego, até para o alcoólatra assumir sem sofrimento sua derrota e sua impotência perante o alcool. Neste sentido, o alcoólatra aceita ser mais um, em vez de sempre querer ser o mais importante. A experiência de AA nos diz que a prática do Anonimato nos leva a uma sobriedade feliz. Que se fale sempre na 1ª.pessoa do plural quando se se refere a conquistas e na 1ª. Pessoa do singular quando falamos de derrotas.

 

O Anonimato está inserido em cada uma das 12 Tradições, sempre em seu sentido espiritual: o bem estar comum (1ª. Tradição), a inexistência de autoridade (2ª. Tradição), o requisito para ser membro que não inclui qualidades, mas apenas a vontade de deixar a bebida (3ª. Tradição); são apenas alguns exemplos que evidenciam a verdade e o conteúdo de nossa 12ª. Tradição:

 

O ANONIMATO É O ALICERCE ESPIRITUAL DE NOSSAS TRADIÇÕES, CABENDO-NOS SEMPRE COLOCAR OS PRINCÍPIOS ACIMA DAS PERSONALIDADES.
 

*Autor: G. um membro de AA. 

AL-ANON 

O Al-Anon, grupo criado para ajudar familiares de alcoolistas usa o mesmo programa de AA com adaptações. O familiar com freqüência perde o controle da vida em relação ao alcoolista. E há toda uma literatura aprovada pela central da irmandade que orienta o processo de recuperação. Enxergo um paralelo entre o programa destas irmandades e a terapia cognitivo comportamental – ambas informam sobre a doença aos mesmo tempo em que prega a mudança de comportamento através de orientações práticas para o dia a dia.

Da mesma maneira que o alcoólico, o familiar perde a esperança e adoece fisicamente, somatizando seu sofrimento.

Encontrar um grupo de pessoas que sofrem tanto quanto ele, enxergar a possibilidade de sair do labirinto em que se meteu é alentador. Seguindo as recomendações, o familiar começa por voltar a atenção para si mesmo, deixando espaço para o alcoólico e todos se beneficiam.

Edward Griffit, um dos mais conceituados professores de dependência química recomenda aos terapeutas que freqüentem pelo menos 50 reuniões de Alcoólicos Anônimos. Eu recomendo que freqüentem  reuniões de Al-Anon também.

Vejo as limitações desses grupos da mesma maneira que vejo as limitações de qualquer modalidade de terapia.

Sem sombra de dúvida os ganhos são muitos e irá depender da freqüência e capacidade de cada um.

Para mim, pessoalmente, foi extremamente benéfico, obtive alento e esperança na minha recuperação quando todos os outros métodos e modalidades de terapias falharam.

Tenho um sentimento de profunda reverência e gratidão pela irmandade de Al-Anon e AA. 

Algumas palavras de membros do Al-Anon, nomes fictícios, todas elas esposas de alcoólicos : 

“Cheguei ao Al-Anon desesperada, buscando algo, atirando para todo lado. Tive a sensação de ter encontrado a minha tribo. Tive um acesso de riso, um alívio muito, muito grande. Um banho de luz, fiquei absolutamente chocada com tanta luz”. Laura, 52 a, duas filhas, recém formada em psicologia – separada do marido há alguns anos. 

“Quando cheguei no Al-Anon eu me sentia um farrapo humano, um traste, a última das mulheres, rendida. Voltei a sentir esperança. Eu não acreditava em Deus, em mais nada e voltei  a acreditar que a vida poderia começar de novo. Eu estava viva e não sabia porque. Por mais que eu dissesse que estava sofrendo ninguém entendia e no Al-Anon todos entenderam. Eu me senti fazendo parte de alguma coisa, eu também era importante... e bastava que olhassem para mim, que sorrissem para mim e isso eu encontrei no Al-Anon.

Reencontrei minha vontade de viver, de viver bem. Recentemente, quando nadei com golfinhos, saltei de tiroleza, pude entender o quanto o Al-Anon me ajudou a entender que eu tenho direito de ter prazer. Na verdade o que eu senti no Al-Anon é indescritível.”

Cida, 56 anos, empresária, 4.o ano de psicologia, 4 filhos, 3 netos, continua com o marido que está sóbrio há muitos anos. 

“O Al-Anon foi uma descoberta de uma nova forma de viver – uma nova visão da vida. Fui por insistência do meu marido, que ia ao AA, eu estava cansada e fui só porque ele insistiu. E ele insistiu porque estava acostumado que eu fizesse o que ele exigisse, só para mostrar que mandava e o tiro saiu pela culatra. Eu acabei ficando no Al-Anon e ele deixou o AA, só retornando 2 anos depois. Eu achava que tinha feito tudo que poderia ter feito, eu percebia que eu estava louca, tendo verdadeiros ataques histéricos e me consumindo. No Al-Anon entendi que eu estava doente e que tinha um caminho de tratamento pela frente. Aquilo era uma chance que eu estava tendo e sou agradecida a ele. Consegui quebrar o ciclo vicioso, cuidar da minha vida. Para mim o Al-Anon é uma forma que eu tenho de manter a minha sanidade mental, e a maneira de me manter equilibrada. É um programa de vida.”

Lúcia, 56 anos professora universitária, 3 filhos, continua com o marido que está abstinente há um ano. 

“Cheguei ao Al-Anon através do incentivo do meu marido para ajudar outros...Ele estava sóbrio havia anos em AA e eu não convivi com  alcoolismo. Eu não gostei, não entendi o que estava fazendo ali. Aquele sofrimento todo não me dizia respeito. Comecei a perceber as pessoas. Aquela não está legal, precisa de uma palavra. Comecei a receber os novos, a passar a mensagem.

Ganhei confiança em mim, em minha capacidade de fazer algo pelo outro, a possibilidade de me doar e receber tanto em troca e a oportunidade de auto conhecimento.Ganhei e dei muito amor. Eu estou sempre dizendo que o programa (do Al-Anon) ajudou demais, (durante a doença do meu marido) não perdi a serenidade e sou muito grata ao Al-Anon por isso”.

Rita, 65 anos , secretária executiva aposentada, sem filhos, continua com o marido, sóbrio há três décadas. 

TERAPIA COMUNITÁRIA 

Há alguns meses estamos empregando a técnica da terapia comunitária no grupo que tratamos há três anos. Temos tido sucesso, com a presença assídua e melhora percebida e relatada pelos pacientes. Trata-se de um grupo que já existia e no qual fomos alterando a técnica. A aceitação foi grande e me parece simples de entender as razões – falar fica mais fácil num ambiente onde as regras são – não julgar, não criticar, não dar conselhos, para pessoas que se sentem extremamente fragilizadas e culpadas, além, evidentemente de todas as outras características da TC que a tornam tão especial. E eles tem-se ajudado de maneira intensa e notamos a alegria com que partilham suas experiências e trocam esperança. Os pacientes do grupo de alcoolismo costumam participar do outro grupo, geral, sem abrir mão do seu específico, como se no de “companheiros” fosse mais fácil se expor.

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Publicações                                                                                                                                           

 

Bibliografia recomendada: 

Alcoolismo, hoje – Sergio de Paula Ramos,Artes Médicas,97
O Tratamento do Alcoolismo, Griffith Edwards, Loyola, 95
Quero Meu Filho de Volta, Carlos Barcelos
A Conquista de Um Caminho, Maria Braga, Nativa, 2001
Alcoolismo, O Que Você Precisa Saber, Donald Lazo
The Forgoten Children, Margareth Cork
Childen of Chemically Dependent Parents, Thomas Rivinus, Ed.Brunner/Mazel, 1990
Entrevista Motivacional, Miller e Rollnick, Artmed, 2001
A Prevenção da Recaida, Marlat e Gordon
O Índio que Habita em Mim, Adalberto Barreto
Toda a literatura de AA e de Al-Anon

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