Efeitos da maconha no
cérebro.
Essa não é uma discussão política nem apaixonada sobre a proibição ou
legalização da maconha. Vamos questionar e debater apenas saúde.
Toda discussão envolvendo a maconha encontra defensores apaixonados e
atacantes ardorosos. Poucos temas são tão polêmicos e com tão poucas
evidências científicas de um lado ou do outro. Esse clima apaixonado
pode levar a uma excessiva simplificação do debate científico e por
conseqüência o debate público. Podemos ficar com a impressão ou que a
maconha é uma droga muito leve e que deveria ser liberada ou por outro
lado podemos avaliar que a maconha é uma droga extremamente perigosa e
que deveria ser completamente proibida.
O objetivo de escrever essa revisão científica, dos efeitos psicoativos
e comportamentais do uso da maconha, foi melhorar a qualidade das
informações dos profissionais de saúde mental no Brasil e por
conseqüência um público maior que eventualmente possa interessar-se por
esse assunto. Nosso foco foi nos efeitos da maconha no cérebro. Evitamos
o debate sobre a legalização dessa substância. Achamos que seria útil
separarmos a questão da legalidade da questão da saúde. Como
profissionais da saúde mental temos uma maior familiaridade com a
metodologia e a ciência do comportamento e achamos que poderíamos
contribuir nessa nossa área de especialização.
A lista dos autores dos textos completos relacionados a esse resumo
estão no final. Os respectivos textos estão disponíveis no site da ABP.
Como é o consumo de maconha no Brasil ?
Temos um estudo muito importante, feito pelo CEBRID, que abrangeu todas
as cidades com mais de 200 mil habitantes, num total de 107 cidades, que
responde em parte, sobre o consumo de maconha no Brasil. O uso na vida,
no total, exceto tabaco e álcool, foi de 19,4%, sendo a maconha a droga
que teve maior uso experimental com 6,9%. As comparações do uso na vida
de maconha, nas cinco regiões brasileiras foram semelhantes para três
das regiões – Norte, Nordeste e Centro-Oeste com cerca de 5%. A região
Sul foi à campeã em porcentagens de uso na vida para a maconha com 8,4%
de usuários. A dependência de maconha apareceu em 1,0% dos
entrevistados, o que equivale a uma população estimada de 451.000
pessoas. A região Sul foi aquela onde apareceram as porcentagens mais
expressivas de dependentes de maconha 1,6% dos entrevistados.
Em relação a outros países o uso na vida de maconha, no Brasil (6,9%)
foi próximo aos resultados da Colômbia (5,4%) e Alemanha (4,2%), porém
muito abaixo do observado nos EUA (34,2%), Reino Unido (25,0%),
Dinamarca (24,3%), Espanha (19,8%), Chile (19,7%), Holanda (19,1%),
Grécia (13,1%) e Suécia com 13,0% (Ospina,1997; CONACE, 2001;
E.M.C.D.D.A., 2001; SAMHSA, 2001).
O consumo de maconha está aumentando no Brasil ?
Temos poucas evidências sobre a evolução do uso de maconha na sociedade
brasileira. Dados do CEBRID em 10 capitais, onde foram realizados
levantamentos anteriores entre estudantes, pode-se notar que a tendência
par o uso na vida (pelo menos uma vez na vida) foi de aumentar em oito
capitais, exceto em Brasília e Salvador. Porcentagem de entrevistados
relatando uso na vida de maconha nos quatro levantamentos realizados
pelo CEBRID, entre estudantes do ensino fundamental e médio, de dez
capitais brasileiras (1987, 1989, 1993, 1997 e 2004). Em média passou de
2,6 em 1987 para 6,5 % em 2004.
A comparação do uso na vida de maconha entre meninos em situação de rua
cresceu em São Paulo de 43,7% em 1987 para 73,8% em 2003.. No Rio de
Janeiro também houve crescimento de 20% em 1993 para 59,3% em 2003 e em
Brasília foi de 21,9% (1997) para 52,3% no ano de 2003 (Noto et al.,
2004). Por outro lado, houve diminuição do uso na vida em Porto Alegre
passando de 29,3% em 1987 para 21,3% em 2003. Em Fortaleza o uso se
manteve estável.
Por outro lado, em relação aos indicadores epidemiológicos houve aumento
das apreensões de maconha feitas pela Polícia Federal na comparação
entre os anos de 1999 e 2004 e diminuição das internações hospitalares
por maconha com 2,3% das internações por dependências, em 1988 caindo
para 1,3% em 1999.
O consumo de maconha está aumentando no mundo?
A maconha é a substância ilícita mais consumida nas sociedades
ocidentais. Três questões referentes ao consumo de maconha são
discutidos atualmente: o início do consumo na adolescência; a potência
das novas apresentações de canabis e o aumento da prevalência do uso.
Segundo a UNODC – ONU, havia 161 milhões de usuários de maconha no mundo
(10% a mais em relação a 2003). Por outro lado, o consumo se mostrou
estável em tradicionais nações consumidoras, como Estados Unidos,
Austrália e Canadá. O Observatório Europeu para Toxicodependências (EMCDDA),
sugere que, durante a década de 90, o consumo de maconha aumentou
consideravelmente em muitos países europeus mas pode, agora, estar
começando a estabilizar, pelo menos em alguns países. O consumo
possivelmente aumentou entre os adolescentes na maioria dos países, cujo
período formativo os tornam mais propensos às complicações crônicas do
consumo dessa substância.
Maconha: formas de uso e modificações genéticas da planta.
A maconha é uma mistura de folhas e flores verdes ou secas de uma planta
chamada Cannabis sativa. Existem mais de 200 termos ou gírias para
maconha, incluindo "baseado" ou "erva" . Ela é normalmente fumada como
um cigarro ou em um cachimbo especial. Atualmente a maconha vem sendo
consumida também de maneira "mesclada", combinada com outras drogas,
como o crack e cocaína. Alguns usuários também misturam a maconha com
comida ou fazem chá de suas folhas.
O princípio ativo da maconha é o THC (delta-9-tetrahydrocannabinol). A
quantidade de THC em uma dose pode variar intensamente de acordo com a
procedência da droga e a forma como é consumida. Nos últimos 20 anos, a
sofisticação do cultivo da maconha com técnicas hidropônicas tem
aumentado muito a potência de todos os derivados da Cannabis. Nos anos
60 e 70 um cigarro comum de maconha continha cerca de 0,5 a 1% de THC,
atualmente um baseado feito de skankweed ou netherweed (sub-espécies de
Cannabis Sativa) pode conter cerca de 20-30%. Assim, o usuário
contemporâneo de maconha na forma fumada, pode estar exposto a doses
cerca de 15 vezes mais fortes de THC que os jovens dos anos 60 e 70.
Este fato pode ser bastante relevante se considerarmos que os efeitos do
THC no cérebro variam de acordo com a dose consumida, e que grande parte
dos estudos com maconha foram realizados na década de 70, utilizando
doses de 5 a 25 mg de THC, o que torna obsoleto muito do que se
acreditou sobre os riscos e conseqüências da maconha.
A maconha no Sistema Nervoso Central
Existem dois subtipos de receptores canabinoides (CB1 e CB2)
identificados até a presente data. Novas descobertas sugerem a
existência de em terceiro receptor (“CB3”) que seria sensível a
estimulação da anandamida, mas que não seria ativado pelo THC. Sabe-se
que o THC não é uma substância encontrada naturalmente no cérebro, e a
existência de um receptor canabinoide implica na existência de uma
substância endógena semelhante ao THC, que demoninou-se anandamida. O
receptor CB1 pode ser encontrado em altas concentrações no hipocampo,
cortex pré frontal, cerebelo e gânglios basais, o que estaria
relacionado com os efeitos do THC na memória e cognição. Uma vez
acoplado ao seu receptor, o THC desencadeia uma série de reações
celulares, estimulando estas áreas do cérebro e provocando as sensações
que os usuários qualificam como prazerosa.
O Sistema Canabinóide Endógeno
O mecanismo de ação do delta 9-tetrahidrocanabinol (principal
responsável pelos efeitos da Cannabis sativa) e das substâncias químicas
ou farmacologicamente semelhantes a ele (denominadas canabinóides)
permaneceu obscuro até o final da década de 1980. Nesta época, um
receptor específico para os canabinóides foi identificado no cérebro de
mamíferos. Nos anos seguintes, foram identificados os ligantes endógenos
para esse receptor, os endocanabinóides.
Há diversos mecanismos pelos quais se pode intervir farmacologicamente
no sistema canabinóide endógeno. Dentre eles estão os agonistas de
receptores canabinóides e os inibidores de captação ou metabolismo dos
endocanabinóides. Substâncias que atuam por estes mecanismos apresentam
potencial para tratamento de dor, depressão, transtornos de ansiedade
generalizada e estresse pós-traumático. Além disso, antagonistas de
receptores canabinóides apresentam potencial no tratamento de tabagismo,
obesidade, dentre outros.
Sendo um sistema de transmissores descoberto relativamente há pouco
tempo, muitos aspectos estão por serem esclarecidos. O entendimento dos
mecanismos de ação dos canabinóides e da fisiologia deste sistema poderá
aumentar a nossa compreensão da neurobiologia de alguns transtornos
neuropsiquiátricos, o que poderá permitir o desenvolvimento de novas e
mais eficazes terapias psicofarmacológicas
Este é um dos mais recentes sistemas de neurotransmissores descobertos,
ainda havendo muitos aspectos a serem elucidados. Dentre estes se
destacam: (i) os processos enzimáticos de síntese e inativação dos
canabinóides; (ii) os efeitos dos canabinóides que parecem ser mediados
por mecanismos independentes dos receptores CB1 ou CB2; (iii)
identificação de um possível receptor “CB3”. Além disto, a maior
compreensão das interações dos endocanabinóides com outros sistemas,
como opióides, dopamina, GABA e glutamato parece necessária e oportuna.
Assim, este melhor entendimento dos mecanismos de ação dos canabinóides
e da fisiologia deste sistema, poderá aumentar a nossa compreensão da
neurobiologia de alguns transtornos neuropsiquiátricos, o que poderá
permitir o desenvolvimento de novas e mais eficazes terapias
psicofarmacológicas.
Maconha e Síndrome de Abstinência
Por muitos anos acreditou-se que o uso de maconha não desenvolvia
tolerância e não levava à síndrome de dependência. Verificou-se mais
tarde que em alguns casos existia sim a tolerância, mas seus efeitos
eram fracos. A partir de meados da década de 70, evidências de
desenvolvimento de uma marcante tolerância a vários efeitos da maconha
emergiram em diversos estudos com animais e, posteriormente, em humanos.
Na cessação do uso, os animais tolerantes que tiveram o receptor
canabinóide tipo 1 (CB1) bloqueados apresentaram sinais e sintomas de
abstinência, decorrentes de processos moleculares também afetados por
outras drogas. A síndrome de abstinência de maconha em humanos tem sido
descrita por sintomas que se iniciam já nas primeiras 24 horas após a
cessação do uso, apresentando-se por meio de sintomas inicialmente
emocionais e depois comportamentais. São eles: sintomas de
irritabilidade, ansiedade, agressividade, angústia, agitação psicomotora,
diminuição do apetite e perda de peso; alterações do sono como insônia e
pesadelos; cansaço; desconforto generalizado com dores musculares,
cefaléia e taquicardia e “fissura”. A gravidade da síndrome foi maior
naqueles que tinham também outros transtornos psiquiátricos e uma
freqüência grande de consumo.
Mais recentemente, com o aumento do consumo e dos problemas
relacionados, dos casos de dependência, da descrição de um sistema
canabinóide endógeno e do desenvolvimento de antagonistas canabinóides,
começaram a ser desenvolvidos estudos melhor controlados e com maior
rigor metodológico. Esses novos estudos têm evidenciado uma
significativa prevalência de síndrome de abstinência entre os usuários
de maconha
Existe uma dependência da maconha ?
Nos EUA houve um aumento significativo das taxas de usuários nocivos e
dependentes entre os usuários de maconha entre os anos de 1991-1992 e
2001-2002 (30,2% e 35,6%, respectivamente). Este aumento pode estar
relacionado, em parte, ao aumento do potencial adictivo da maconha, ou
seja, houve um amento de 66% no teor de THC na amostra de maconha
analisada em 2001-2002 (5,11%) comparativamente a de 1991-1992 (3,01% de
THC). Num estudo prospectivo, iniciado em 1970, com acompanhamento por
12 anos, mostrou-se que 1 em cada 4 usuários de maconha desenvolveram
síndrome de dependência no período compreendido entre a adolescência e a
idade adulta jovem.
Já descrevemos evidências de uma Síndrome de abstinência de maconha, mas
também acumulam-se evidencias de tolerância a mesma através de estudos
em animais e em humanos. Gatley e Volkow (1998) mostraram, em animais,
que a administração crônica de canabinóide resultou no desenvolvimento
de tolerância em relação aos efeitos agudos, incluindo os efeitos
motores. Em relação aos seres humanos os sinais de aumento de tolerância
são bem documentados e, regra geral, aparecem com doses acima de
3mg/kg/dia.
Outros critérios aceitos para o diagnóstico da Síndrome de dependência
da maconha, e evidenciados em estudos populacionais, são:
• A substância é consumida com freqüência em quantidades maiores ou
durante períodos mais longos do que se pretendia (consumo maior que o
pretendido);
• Existe um desejo persistente ou esforços sem sucesso para eliminar ou
controlar o uso da substância (tentativas frustradas de interrupção do
uso);
• Uma grande quantidade de tempo é despendida nas atividades necessárias
para obtenção da substância, no uso e na recuperação de seus efeitos
(tempo gasto com a droga);
• Existe o abandono de importantes atividades sociais, ocupacionais ou
recreacionais em função do uso da substância (droga como prioridade);
• O uso da substância é continuado, apesar do conhecimento de ser um
problema persistente ou recorrente físico ou psicológico que tenha sido
causado ou exacerbado pela substância (uso da droga a despeito dos
problemas por ela causados).
Embora seja clara a evidência de uma Síndrome de Dependência de Maconha
nem todo usuário tende a desenvolvê-la. Ainda que haja extenso debate
sobre a existência de uma Síndrome de Dependência de Maconha, não se
pode negar que se acumulam inúmeras evidências da mesma.
Maconha e Adolescência
Os fatores de risco e de proteção para o uso, abuso e dependência de
maconha na adolescência são elementos fundamentais para a elaboração de
ações preventivas. O uso de álcool, cigarro de tabaco e outras drogas
psicotrópicas, a delinqüência e problemas escolares são fatores de
risco, enquanto a crença religiosa e certas características da família
são fatores de proteção. Quanto mais precoce o uso, maior o
comprometimento do adolescente. A avaliação inicial ideal deve utilizar
um sistema multi-axial e ser aplicada por profissional habilitado na
área de avaliação e tratamento de crianças e adolescentes, em função das
peculiaridades psiquiátricas e emocionais que ocorrem nessa etapa do
ciclo vital.
A maconha atrapalha o desenvolvimento do adolescente?
Adolescência é um importante período de transição para idade adulta. O
uso constante de maconha neste período pode interferir no desempenho
escolar, no relacionamento com os amigos, vida sexual, na escolha da
profissão e no estilo de vida que o jovem adota. Alguns estudos vem
demonstrando que há uma ligação entre o uso de maconha e precoce
transição, e muitas vezes atrapalhada, para o papel de adulto no que se
refere a sair da casa dos pais, iniciar da vida sexual e gravidez. Em um
estudo de 2003 que comparou adolescentes usuários pesados de maconha
(mais de 18.000 vezes na vida) com grupo de usuários leves (menos de 50
vezes na vida) encontrou evidências de que os usuários pesados
apresentavam conhecimentos adquiridos, nível de formação e salários
inferiores ao dos usuários leves. Em outro estudo recente mostrou-se que
o uso precoce de maconha aumenta as chances de adolescentes adotarem um
estilo de vida não-convencional, ou seja, se desengajarem de papéis
convencionais como completar educação formal, arrumar emprego,
participar de práticas religiosas e esportivas. Assim, as indicações
mostram que o uso de maconha na adolescência afeta, adversamente, o
desenvolvimento do adolescente.
Vale a pena ressaltar que quando o uso da maconha ocorre na
adolescência, principalmente antes dos 17 anos, os prejuízos por ela
ocasionados são dose-relacionados, ou seja, quanto maior a dose maiores
os efeitos e problemas. Quando o uso passa a ser regular percebe-se que
ela é uma droga, que causa dependência, podendo levar à escalada de
experimentação de outras drogas, além de favorecer o desenvolvimento de
transtornos psiquiátricos na adolescência e fase adulta. O uso de
maconha por adolescente tem impactos psicológicos, biológicos, sociais e
legais que levam ao comprometimento do desenvolvimento do futuro adulto.
O uso de maconha aumento o risco de transtornos mentais ?
O uso de cannabis está associado a maiores riscos de transtornos pelo
uso de outras substâncias e está associado a diferentes comorbidades
psiquiátricas na população geral. As associações mais importantes entre
o uso de cannabis e problemas de saúde mental aparecem quando há uma
combinação de fatores individuais constitucionais e efeitos da droga. Há
uma associação consistente entre o uso de cannabis e primeiro surto
psicótico em indivíduos mais jovens. O uso de cannabis aumenta o risco
de incidência de esquizofrenia em indivíduos com e sem outras fatores
predisponentes e leva a um pior prognóstico para aqueles indivíduos com
clara vulnerabilidade para um transtorno psicótico. Há poucas evidências
de associação entre uso infrequente de cannabis e diagnóstico de
depressão.Uso pesado de cannabis e depressão parecem associados, sendo
sugestivo de que uso pesado pode aumentar sintomas depressivos em alguns
usuários.
Maconha e Depressão
A associação entre maconha e depressão tem sido demonstrada em diversos
estudos transversais, mas ainda não há um consenso se existe uma relação
de causa e efeito entre estes elementos. Evidências sugerem que usuários
de maconha sem sintomas depressivos apresentam um risco aumentado de
apresentá-los no futuro, ao contrário de estudos com indivíduos
deprimidos que não apresentam risco aumentado de consumo de maconha.
Estudos com gêmeos sugerem que, ao menos em parte, a comorbidade seja
explicada por vulnerabilidade genética comum para os dois transtornos.
Portanto, a maconha seria um fator de risco para o desenvolvimento de
sintomas depressivos.
Existe uma relação entre Maconha e Esquizofrenia?
Vários estudos examinaram a relação entre o uso de maconha e a
esquizofrenia a partir de evidências recentes provindas de estudos
clínicos e epidemiológicos. Estudos clínicos monitorando portadores de
esquizofrenia demonstram uma relação entre o consumo de maconha e a
exacerbação dos sintomas psicóticos, pior resposta à medicação
antipsicótica, e um pior curso clínico da doença (mais hospitalizações,
mais recaídas e pior aderência ao tratamento). Quatro grandes estudos
prospectivos em três
países acharam uma associação entre o consumo de maconha e o risco de
desenvolver esquizofrenia ou sintomas psicóticos. Esta associação é mais
intensa em sujeitos que utilizaram maconha antes dos 15 anos de idade e
com história de sintomas psicóticos. Em conjunto, os achados sugerem que
a maconha pode precipitar um quadro de esquizofrenia em indivíduos
vulneráveis e exacerbar quadros psicóticos em portadores de
esquizofrenia.
Uso de maconha e ansiedade
O relato de ansiedade constitui o sintoma adverso mais comum após o uso
agudo da maconha e sintomas ou transtornos de ansiedade co-ocorrem muito
freqüentemente em usuários da droga. Paradoxalmente indivíduos relatam a
redução de ansiedade como motivação para o uso da maconha. Estas
constatações conflitantes poderiam ser explicadas pela observação de que
os efeitos do principal constituinte ativo da cannabis (Δ9-THC) sobre a
ansiedade parecem ser dose-dependentes, com baixas doses demonstrando
propriedades ansiolíticas e doses mais altas sendo ansiogênicas. Além
disto, os outros canabinóides presentes na planta influem em sua
atividade e um deles, o canabidiol apresenta propriedades ansiolíticas.
TDAH e Maconha
O TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade) é o mais comum dos transtornos emocionais, cognitivos e do
comportamento tratados na infância. Sua prevalência é significativa:
atinge de 4% a 12% das crianças em idade escolar e até 5% dos adultos. E
está relacionado a uma elevada taxa de comorbidade psiquiátrica,
principalmente transtorno desafiador opositivo, transtorno de conduta,
transtornos do humor e de ansiedade, e tabagismo e abuso de substâncias.
O custo social do TDAH não tratado ao longo da vida é considerável, e
inclui baixo aproveitamento acadêmico, problemas de conduta, subemprego,
acidentes automobilísticos, problemas de relacionamento.
A presença de TDAH dobra o risco para o desenvolvimento de
abuso/dependência de substâncias ao longo da vida, e ambos os
transtornos influenciam-se mutuamente, o que traz implicações para o
diagnóstico, o prognóstico e o tratamento de ambos os transtorno. A
maconha é a droga ilícita com maior freqüência de abuso entre portadores
de TDAH. Adultos jovens portadores de TDAH relatam um efeito calmante
proporcionado pela maconha, reduzindo sua inquietação interna. Este
efeito reforça a hipótese da automedicação dos sintomas de TDAH como um
fator de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de drogas.
Intervenções farmacológicas e cognitivo-comportamentais ora em uso
constituem um tratamento efetivo para o TDAH e dependência da maconha e
ajudam os pacientes a superarem os obstáculos em direção a um
funcionamento normal.
Maconha e Dirigir Automóveis
Pelas evidências apresentadas até agora na literatura, não há
unanimidade sobre a real contribuição da maconha, quando consumida sem
associação com álcool e outras drogas, no aumento do risco de causar
acidentes de trânsito. Sabe-se que a associação do consumo de maconha e
acidentes de trânsito é freqüente e que as propriedades farmacológicas
dessa substância dificultam habilidades básicas para dirigir-se com
segurança. Os estudos também parecem apontar que pessoas com um consumo
freqüente de maconha têm uma probabilidade maior de causar acidentes.
No entanto, ainda persistem algumas dificuldades metodológicas. Por
exemplo, a utilização de critérios discutíveis sobre a presença recente
da droga, o freqüente consumo pelos sujeitos da maconha juntamente com
álcool e outras drogas (difícil separar o que é o efeito de cada
substância), a falta de inclusão nas análises de fatores confundidores
que poderiam explicar as associações encontradas. Essa metodologia é
relativamente recente, no que diz respeito ao uso de maconha, e é
provável que estudos futuros possam encontrar melhores caminhos.
O que fica claro é que a relação do consumo de maconha com direção não é
simples e certamente não pode ser descartada. Como um exemplo dessa
complexa relação, estudos recentes investigaram preditores do
comportamento de dirigir arriscadamente (dirigir muito rápido pelo
prazer, expor-se a riscos na direção por diversão, etc.) em um estudo
longitudinal com adolescentes e jovens adultos. Entre as variáveis
explicativas desses comportamentos estavam certas características de
personalidade e a dependência de maconha.
Estudos com terapias psicológicas e usuários de maconha
As evidências mostram que as intervenções breves funcionam: além dos
estudos específicos com maconha, a literatura mostra que tratamentos
breves são tão eficazes quanto os mais longos com dependentes de álcool
e outras drogas. Porém, vale termos em mente que tratamento breve é com
tempo limitado (indicam para tratamentos de 6 e 9 sessões como mais
efetivos que 1 ou 2 sessões) e que a duração do tratamento deve ser
proporcional aos objetivos deste (se o objetivo é sensibilizar, uma
sessão pode ser suficiente). Se a terapia é breve, ela deve ser
administrada individualmente. Mais um fator que vai a favor da terapia
individual é o fato de que com pacientes jovens, a influência grupal
pode ser nociva e ao se tratar de usuários de maconha, geralmente
falamos de jovens. Quanto ao conteúdo da terapia, a literatura é extensa
no que se refere à comprovada eficácia de abordagens como a Entrevista
Motivacional e Prevenção de Recaida, além da importância comprovada do
aspecto “dar informação” sobre as drogas para os usuários das mesmas,
que geralmente chegam com idéias distorcidas sobre os efeitos reais da
droga, sejam eles positivos ou nocivos. A literatura mostra que, quanto
mais especifico é o tratamento para determinada população, mais altos os
índices de sucesso. Daí se justificar uma intervenção específica para
usuários de maconha. Seria interessante investir em formar profissionais
de base (enfermeiros, por exemplo) que disseminassem este tipo de
trabalho e iniciassem um processo de sensibilização em pessoas com
problemas de abuso de substâncias. Esse seria o primeiro passo para a
indicação de profissionais especializados, tendo em vista que uma das
maiores dificuldades de engajamento e efetividade de tratamentos para
dependência seja a falta de motivação. Um último fator interessante é
que os usuários de maconha têm uma tendência maior a diminuir o consumo
do que parar completamente. Por um lado, comprova-se o fato de que, em
estudos de efetividade de tratamento para uso de substâncias, a
abstinência não deve ser o único critério de sucesso.
Terapia Farmacológica
Percebe-se que a evidência científica disponível atualmente não é sólida
o bastante a fim de permitir a indicação de uma medicação efetiva capaz
de atuar nos principais objetivos já citados para o tratamento
medicamentoso de usuários de canábis. A pesquisa clínica da
farmacoterapia para dependência de maconha permanece ainda na "sua
infância". Algum potencial de utilidade parece existir entre os
antidepressivos e os medicamentos ansiolíticos no tratamento da
dependência desta droga. Porém, mais estudos controlados são necessários
antes que qualquer conclusão ou recomendação possa ser feita. Agentes
que visem os receptores canabinóides também podem mostrar-se úteis, mas
novamente não foram explorados suficientemente.
Embora poucos estudos do tratamento para o abuso e a dependência de
maconha tenham sido finalizados, os relatos iniciais sinalizam alguns
tratamentos que podem ser promissores e demonstram a necessidade do
desenvolvimento de mais pesquisas e busca de intervenções efetivas.
Maconha e Funções Cognitivas
A cognição se refere a habilidade de pensar. Os processos cognitivos
incluem desde a percepção visual, auditiva e tátil de todos os elementos
que nos cercam, à atenção sustentada a determinada tarefa, à memória,
julgamento, capacidade de resolver problemas e funções executivas
(estabelecimento de objetivos, capacidade de planejamento, iniciativa,
controle dos impulsos, monitoramento, avaliação de riscos, consequências
do comportamento e flexibilidade mental).
Os problemas cognitivos são muito comuns nos indivíduos acometidos por
lesões neurológicas, quer seja por trauma, doença vascular, infecciosa,
dependendo da localização e da gravidade da lesão. De forma semelhante,
a exposição do cérebro a agentes químicos neurotóxicos, como a maconha,
também afeta o funcionamento cognitivo dos indivíduos.
O uso da maconha é muito difundido no Brasil e no mundo. Entretanto,
pouco se sabe sobre as conseqüências deste problema em longo prazo.
Embora os estudos mais antigos tenham sido inconclusivos, as pesquisas
mais recentes têm demonstrado alterações no funcionamento cerebral e
neuropsicológico dos usuários crônicos de maconha, mais especificamente
em atenção, memória, aprendizagem, funções executivas, tomada de
decisões, funcionamento intelectual e funções psicomotoras, mesmo após
um mês de abstinência.
Problemas no funcionamento neuropsicológico, especialmente das funções
executivas, mediadas pelas regiões pré-frontais do cérebro, podem
influenciar negativamente na motivação para o tratamento e aderência ao
programa de recuperação, aumentando as chances de recaída. Apesar dos
avanços alcançados, são necessárias mais pesquisas em neuropsicologia,
que possam auxiliar na melhor compreensão das conseqüências deletérias
do uso crônico da cannabis e suas repercussões no tratamento.
Maconha e efeitos na gravidez
Apesar do pequeno número de estudos que avaliam o efeito do consumo de
maconha pela gestante no comportamento de seus filhos, de maneira geral,
os recém-nascidos apresentam tremores e startles com maior freqüência,
além de menor capacidade de habituação e orientação aos estímulos
externos e alterações no padrão de sono. No entanto, esses achados não
são uniformes e há controvérsia no que se refere ao uso de maconha pela
gestante e os possíveis efeitos neurocomportamentais imediatos. Em
prazos mais dilatados, os poucos estudos publicados têm mostrado
resultados mais consistentes no que se refere a alterações sutis no
desempenho de tarefas que dependem de funções corticais superiores, em
crianças de até dez anos expostas intra-útero à maconha, indicando um
possível sítio cerebral de ação específico da droga durante o período de
crescimento e organização da arquitetura cerebral, na vida fetal.
Até o presente momento, os dados demonstram uma associação, mais do que
uma relação de causa-efeito, entre o uso de drogas na gestação e a
morbidade perinatal, devendo-se continuar as pesquisas, controlando-se
as variáveis de confusão, tais como consumo de várias drogas de forma
concomitante, para poder conhecer melhor os efeitos do uso da maconha na
gestante, na evolução da gravidez e no concepto.
Genética e uso de maconha
Os estudos genético-epidemiológicos têm demonstrado que quadros de uso
nocivo e de dependência à maconha apresentam um componente genético no
seu desenvolvimento. Entretanto, algumas questões ainda precisam ser
esclarecidas, tais como: se a vulnerabilidade genética é específica à
maconha ou se é geral para às drogas de abuso como um todo; ou ainda se
existe um componente genético específico que possa também estar
associado (como fator de risco) para o aparecimento ou piora do
prognóstico em outros transtornos psiquiátricos.
Os estudos genético-moleculares começaram a ser realizados, com o
objetivo de melhor compreender a participação dos genes nesses
processos. Porém, tais estudos são recentes e ainda em pequeno número,
não dispondo de dados conclusivos até o momento. Com o enorme progresso
na área da biologia molecular, a expectativa é de identificar os genes
de vulnerabilidade para o abuso de maconha em um futuro próximo.

Revisão Científica – MACONHA E SAÚDE MENTAL – LISTA DE AUTORES
Departamento de Dependência Química da ABP
Epidemiologia do uso da maconha no Brasil – José Carlos Galduroz
(UNIFESP) e João Carlos Dias (RJ)
Tendências de uso da maconha no mundo – Marcelo Ribeiro Araújo (UNIFESP)
Evidências da Síndrome de Dependência da Maconha – Ronaldo Laranjeira
(UNIFESP) – Analice Giglioti (Santa Casa – RJ)
Evidências da síndrome de abstinência da maconha – Ana Cecília Marques
(UNIFESP) e Tadeu Lemos (UFSC)
MACONHA E ADOLESCÊNCIA - Claudia M. Szobot (UFRGS), Luis Augusto Rohde
(UFRGS)
Impacto do uso da maconha da vida acadêmica de adolescentes – Sergio de
Paula Ramos (Hospital Mãe de Deus – RS) Lisandra Soldati Fração
O sistema canabideóide – José Alexandre Crippa (USP-RP) Fabrício Moreira
(USP-RP)
A ação da maconha no cérebro –Acioly Luiz Tavares de Lacerda (UNIFESP),
José Alexandre de Souza Crippa (USP-RP), Rodrigo Affonseca Bressan
(UNIFESP)
Neuropsicologia do uso crônico da maconha – Paulo Cunha (USP)
Existe uma psicose específica relacionada ao uso da maconha – Valentim
Gentil (USP)
Uso da maconha e as doenças psiquiátricas – Evidências epidemiológicas –
Paulo Rossi (USP) – Lílian Rato (Santa Casa – SP)
Uso de maconha e Depressão – Lisia von Diemen (UFRGS), Flavio Pechansky
(UFRGS) e Felix Henrique Paim Kessler (UFRGS)
Uso da maconha e Esquizofrenia – Rodrigo Bressan (UNIFESP)
Uso de maconha e ansiedade – José Alexandre Crippa (USP-RP) Antonio
Waldo Zuardi (USP-RP)
Uso de maconha e TDAH – Marcos Romano (UNIFESP)
Genética e uso de maconha – Homero Vallada (USP) Quirino Cordeiro (USP)
Tratamento psicológico do uso da maconha – Flávia Jungerman (UNIFESP)
Tratamento farmacológico do uso da maconha – Alessandra Dihel e Ronaldo
Laranjeira (UNIFESP)
Uso de maconha e gravidez – Ruth Guinsburg (UNIFESP) Marina Carvalho de
Moraes Barros (UNIFESP)
Dirigir e uso de Maconha – Ilana Pinsky (UNIFESP) e Marco Bessa
(UNIFESP)
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