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Klaus MÄkelÄ
Fundação Finlandesa para Estudos Sobre o Álcool, Helsinki
IDENTIDADE EXISTENCIAL E ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
COMO UM MOVIMENTO DE AJUDA MÚTUA
Trabalho apresentado
na 12a Conferência da Sociedade Brasileira para Pesquisa de Álcool e
Drogas, Recife, Pernambuco, Brasil, Setembro 18-21, 1997.
Este documento baseia-se em Mäkelä et al., 1996.
COMENTÁRIOS INTRODUTÓRIOS
O abandono de uma dependência não é, em geral, uma mudança gradual. O envelhecimento às vezes extingue gradualmente o hábito, provavelmente formador de dependência, de beber em grandes quantidades. Como regra geral, entretanto, a mudança é muito mais abrupta. Sem dúvida tal mudança pode ser às vezes alcançada por pura determinação. Pode, no entanto, acontecer que mudanças comportamentais duradouras e radicais habitualmente envolvam também uma modificação existencial e uma reestruturação individual.
Dentro deste ponto de vista, Alcoólatras Anônimos é um interessante caminho de saída do alcoolismo. Como tal, AA não é um tratamento, mas um movimento de ajuda mútua. Esta distinção tem sido obscurecida pela advento do tratamento profissional inspirado por ou orientado para o programa de AA, mas o AA é diferente do assim-chamado "tratamento dos 12 Passos" em muitos pontos além da ausência de um relacionamento profissional/cliente. Uma das diferenças fundamentais entre o que se passa na reunião de AA e o que acontece numa sessão profissional de 12 Passos reside no procedimento do grupo.
Minha apresentação de hoje baseia-se no Estudo Internacional Conjunto de Alcoólatras Anônimos, um estudo sociológico de AA como um movimento de ajuda mútua. com participação da Áustria, Finlândia, Islândia, México, Polônia, Suécia, Suíça e Estados Unidos. Minha atenção está focalizada nos recursos de AA e particularmente em reuniões de AA, como eventos de expressão que oferecem espaço e suporte para uma mudança existencial.
DIFUSÃO INTERNACIONAL DE AA
AA nasceu em 1935 nos Estados Unidos e a maior parte dos primeiros membros eram de classe média A. AA pode ser descrito como uma invenção norte-americana de classe média, mas tem demonstrado um surpreendente poder de se difundir por culturas e grupos demográficos completamente diversos de seu meio cultural de origem.
Harry Levine (1992) discute AA como uma continuação das tradições de abstinência características dos países nórdicos e de língua inglesa. Nestes países, os destilados de álcool foram historicamente a bebida alcoólica predominante e o protestantismo a religião predominante. A combinação de bebida em excesso e protestantismo levou a uma obsessiva preocupação com os problemas derivados do álcool e a movimentos de abstinência poderosos e duradouros. AA é uma continuação da mesma preocupação com o álcool numa nova situação histórica. A distribuição de Grupos de AA no mundo por regiões lingüisticas e culturais (Tabela 1) fornece apoio parcial à interpretação do Levine. As culturas de abstinência de Levine são responsáveis por 65% dos membros de AA em 1988. A tendência principal visível na Tabela 1 aponta, entretanto, para outra direção. A proporção de todos os Grupos de AA ativos situados em países protestantes de língua inglesa e escandinavos diminuiu claramente de 1965 para 1988, e a participação de países da Europa Central e do Sul, e particularmente da América Latina, aumentou substancialmente. Em 1988 América Latina somava quase um terço dos membros de AA em todo o mundo. Isto mostra que o movimento tem se espalhado para bem além dos tradicionais países da abstinência. Em 1986, duradouras atividades de AA haviam-se tipicamente estabelecido em todos os países ricos não-comunistas e não-islâmicos. Depois das convulsões na Europa Oriental, AA difundiu-se por toda a Europa. A irmandade também tem estendeu seus braços em alguns países Asiáticos industrializados.
O primeiro Grupo de AA no Brasil surgiu em 1947, mas nos primeiros 15 anos o crescimento do movimento foi muito lento (Tabela 2). Desde meados da década de 60, AA tem crescido constantemente e numa velocidade espantosa. Em meados dos anos 70, havia cerca de 500 grupos e hoje em dia AA no Brasil soma 5.700 grupos e cerca de 120.000 membros.
O texto básico de AA, o assim chamado Livro Grande (Livro Azul no Brasil), foi traduzido para o português em 1969. O português foi a quinto idioma para o qual foi traduzido o Livro Azul; antes de 1969, somente edições em espanhol, francês, finlandês e alemão haviam sido publicadas.
AA tem se difundido em ondas. A primeira onda de difusão trouxe AA ao mundo anglo-saxão e protestante. A segunda onda cobriu os países católicos americanos e europeus. Ainda é muito cedo para julgar se estamos observando o início de uma terceira onda, na qual a difusão será por todo o mundo industrializado, independentemente de tradições religiosas e culturais. Se isto acontecer, AA poderá ser interpretado como um fenômeno moderno universal.
AA COMO MOVIMENTO: UMA FORMA ORGANIZACIONAL ÚNICA
O desenvolvimento normal de movimentos sociais duradouros dá-se porque eles vão sendo lentamente transformados desde seu início freqüentemente carismático e tornando-se mais burocráticos e profissionais. Numa extensão sem precedentes, AA conseguiu criar uma organização que quebra a "lei de ferro da oligarquia". Bufe (1991) observou com que sucesso AA tem posto em prática os ideais organizacionais do pensamento anarquista clássico.
(O pensamento convencional da ciência social tende a igualar eficácia organizacional a estrutura burocrática. Organizações sem uma estrutura centralizada e uma clara divisão de trabalho e autoridade são consideradas como embriões de uma organização formal. Gerlach (1983) argumenta, entretanto, que estruturas celulares segmentadas podem ser organizações muito eficientes em sociedades modernas. O sucesso de AA reforça fortemente o argumento de Gerlach ).
AA baseia-se numa estrutura celular. Todos os grupos são autônomos e economicamente independentes, sendo simultaneamente abertos a qualquer um que deseje parar de beber. Grupos crescem e morrem, proliferam e se reduzem, dividem-se e fundem-se espontaneamente. Todo o movimento é financiado por contribuições voluntárias e vendas de literatura, e os grupos decidem dentre eles mesmos até que ponto e para que propósitos eles desejam apoiar atividades nacionais.
AA é também uma organização policéfala. Praticamente não existe qualquer estrutura decisória centralizada. Por outro lado, há muitas pessoas influentes competindo pela liderança. A liderança não se apoia predominantemente na posição do indivíduo na estrutura formal. Em todas as organizações, uma rede informal existe paralelamente à estrutura formal, mas no AA a estrutura de prestígio informal é particularmente importante. O prestígio de um indivíduo no AA pouco tem a ver com sua posição social na sociedade externa. Membros gozam de prestígio devido à sua sabedoria, experiência de vida, trabalho com pessoas que ainda têm problemas com a bebida, participação anterior em serviço e habilidades de oratória. Choques de personalidade são causas freqüentes de cisão de grupos, mas isto não constitui ameaça à organização como um todo, porque AA cresce por ramificação.
AA não é absolutamente apenas uma coleção amorfa de células; elas estão unidas para formar uma rede complexa. Indivíduos visitam grupos em sua própria localidade ou em qualquer outra parte, grupos organizam atividades conjuntas e há oradores famosos que viajam e atraem mais participantes que as reuniões comuns. Conferências nacionais e Regionais fornecem uma plataforma aos membros proeminentes e fortalecem ainda mais a rede social.
Uma estrutura celular policéfala deste tipo tem muitas vantagens. O risco de um membro recomeçar a beber é visto por AA como onipresente e como uma forma de tornar impossível a construção da organização em torno de membros individuais em posições de poder. Por sua natureza, uma estrutura policéfala evita ao movimento as potenciais disfunções de envelhecimento de lideranças, ou malfeitorias, ou da ossificação de estruturas hierárquicas. A estrutura celular facilita também a tarefa de alcançar grupos populacionais diferentes; em comunidades grandes há uma grande variedade de grupos para escolha do recém-chegado, como também para possibilitá-lo a se reunir a um grupo que se adeqüe à sua posição social, ideologia e personalidade.
Ao mesmo tempo, a estrutura celular aumenta a adaptabilidade do movimento às diversas formas de atividade. Variantes mal adaptadas simplesmente desaparecem sem pôr em perigo o movimento como um todo. Se um grupo se divide ou fracassa, os membros são absorvidos por outro grupo, enquanto um esforço bem sucedido pode ser repetido por grupos de outros.
A estabilidade, a unidade e o caráter policéfalo de AA são acentuados por diversos aspectos de sua organização. O princípio de decisão por consenso, em vez de por voto de maioria, tende a prevenir o fracionamento. O princípio de rotação é outro fator de prevenção de desunião. Um indivíduo pode ser eleito servir a nível nacional por somente um período e isto significa que conflitos geralmente não coincidem com discordâncias individuais. O fato de que AA não aceite qualquer ajuda econômica externa contribui para manter os membros do grupo como o foco principal de tomada de decisão. E a regra de que AA como uma organização não toma qualquer posição em assuntos alheios ao movimento, nem mesmo em questões relativas ao cuidado de alcoólatras ou em assuntos diretamente relacionados às atividades do movimento, reduz a necessidade de mecanismos para tomadas de decisão centralizadas.
Os atributos organizacionais e estruturais acima descritos tornam AA excepcional dentre toda a série de grupos e organizações de ajuda mútua. Na verdade, o fato de que AA tenha sido capaz de manter sua estrutura fundamental não-burocrática não-hierárquica por quase 60 anos através de tais princípios, é que o que o torna muito interessante como movimento.
O PROGRAMA DE AA COMO UM CONJUNTO DE CRENÇAS
E COMO UM PROGRAMA DE AÇÃOA essência do programa de AA é apresentada nos Doze Passos. Em si mesmos, os Doze Passos são literalmente um programa. Eles não formulam um código de conduta a ser interpretado, mas uma série de tarefas e problemas a serem resolvidos. Os Passos são freqüentemente divididos em três grupos. Os primeiros três Passos – admitindo o alcoolismo e colocando-se nas mãos de Deus ou um poder superior – são os chamados Passos de decisão. Os Passos de Quatro a Nove, visando mudar relação do indivíduo com a sua vida, são chamada os Passos de ação. Os Passos de Dez a Doze são chamados Passos de continuidade ou manutenção.
AA baseia-se numa especial mistura de tradição escrita e oral. Diferencia-se de muitos outros movimentos de ajuda mútua por ter textos básicos altamente reverenciados que fornecem uma plano comum para membros e grupos individuais. Ao mesmo tempo, a tradição oral tem um papel mais significativo do que na maioria das organizações modernas (Gellman, 1964 p.60). O papel da tradição oral está estreitamente ligado à ênfase de AA na experiência individual. Os textos básicos podem ser descritos como produtos de experiências de indivíduos e grupos.
O Livro Azul de AA (1965, p.59) apresenta os Doze Passos como uma descrição resumida do que fizeram os primeiros membros ("aqui são os passos que demos") e como um "sugerido Programa de Recuperação". É também significativo que a maioria das páginas do Livro Azul seja dedicada a histórias individuais de recuperação. Desde o início, AA baseou-se no aprendizado através do exemplo.
O papel de transmissão oral deve-se ao fato de que AA não formula regras de conduta, mas métodos de se comportar e maneiras de falar. Os métodos de trabalho e a maneira de falar são aprendidos não como regras gerais que podem ser escritas, mas por aprendizado através do exemplo e por usar como modelos os membros mais experientes. Em AA, aprendem-se virtudes e sabedoria experimental, não regras de boa conduta (MacIntyre, 1984). Regras de conduta pode ser formuladas, assim como a legislação escrita classifica as ações como permitidas ou proibidas. Virtudes tais como coragem, sabedoria ou serenidade não podem ser formuladas num conjunto de regras classificando ações como sábias, corajosas ou serenas.
O papel do aprendizado através do exemplo significa que há muita variedade local e até cultural no que é visto como o sistema de crenças de AA. Há variantes extremamente doutrinárias e autoritárias, mas há também variantes muito despretensiosas, abertas e liberais.
A PERDA DE CONTROLE E A NATUREZA DE ALCOOLISMO
O pré-requisito para a continuidade dos membros de AA é o reconhecimento da perda de controle de vida por causa do álcool e a identificação de si mesmo como alcoólatra. Ainda que os membros divirjam em seus pontos de vista quanto ao alcoolismo, podemos identificar algumas crenças básicas do movimento (Eisenbach-stangl, 1991b, 1991c).
O alcoolismo é uma condição categórica: "... não existe tal coisa como ser um pouco alcoólatra. Ou você é, ou você não é." (44 Perguntas, l990, p.8).
A fim de que a recuperação tenha início, o indivíduo precisa reconhecer pessoalmente seu próprio alcoolismo. e ajuda profissional não podem substituir a auto identificação. É por isto que AA não necessita de critérios codificados para o alcoolismo. Em princípio, diagnósticos externos requerem critérios objetivos. Em contraste, o reconhecimento da própria impotência perante o álcool não está contido em métodos codificados de diagnóstico.
A condição de ser um alcoólatra é tão fundamental que isto supera quaisquer outras diferenças individuais e sociais. Esta crença é de estratégica importância para AA, já que é o alicerce da igualdade básica dos membros. AA baseia-se na interação entre iguais que reconhecem mutuamente serem torturados pelo mesmo demônio (Eisenbach-Stangl, 1993). Trata-se de ajuda mútua, muito mais do que de auto-ajuda.
O progresso do alcoolismo pode ser estacionado, mas o alcoolismo em si mesmo é incurável. A abstinência vitalícia é exigida, uma vez que um alcoólatra nunca pode recomeçar a beber moderadamente. "Uma vez alcoólatra, sempre alcoólatra" (Livro Azul, 1955, p.33). Realmente, caso se saiba que um antigo membro recomeça a beber moderadamente, conclui-se que, antes de mais nada, ele não era um verdadeiro alcoólatra. Esta crença sustenta ainda mais a igualdade entre os membros. Embora membros veteranos sejam altamente respeitados devido à sua experiência de uma vida sóbria, a fragilidade de ser um alcoólatra coloca-os na mesma situação de qualquer outro membro.
Deve ser salientado que essas doutrinas essenciais não contribuem muito para uma descrição médica do alcoolismo como doença. Dão também lugar a uma considerável variedade de interpretações individuais. No início, AA encontrou um apoio ambivalente em padrões médicos de alcoolismo como doença. Por outro lado, o fundadores de AA geralmente evitaram o quase técnico termo "doença" e utilizaram em seu lugar algum sinônimo como "enfermidade" (Kurtz, 1991). Sua ênfase era para a unidade da vida humana e na tríplice natureza de alcoolismo – física, mental e espiritual. Por outro lado, a literatura de AA abunda em descrições fragmentárias do alcoolismo como doença. O alcoolismo é visto como "alergia física", mas também como "obsessão mental" (Livro Azul, 1955, p. xxvi; 12+12, 1986, p.22). Vale a pena salientar que há similares discrepâncias em textos médicos e psiquiátricos sobre alcoolismo (Eisenbach-stangl, 1991
a
; Falk, 1975; Miller, 1986; Room, 1978).
No AA de hoje, alguns membros aceitam determinadas teorias científicas sobre a natureza de alcoolismo, ao passo que outros enfocam sua impotência existencial em relação ao álcool. Qualquer que seja a ênfase, o programa de AA não está interessado nas causas do alcoolismo. A aplicação do programa difere das teorias médicas no mesmo sentido, já que não depende de técnicas especializadas baseadas em explicações da gênese da moléstia a ser tratada. Praticar o programa de AA é um empreendimento coletivo de iguais.
IDENTIDADE EXISTENCIAL E IDENTIFICAÇÃO
Anemia, hipertensão, depressão e dependência, tudo vem em escalas, mas a maioria das decisões clínicas são dicotômicas. Não há linhas nítidas entre o beber normal e a dependência. Diagnósticos categóricos são sempre arbitrários e servem ao prático imperativo de identificar "casos para tratamento" (Rosa, 1992). Sob outra perspectiva, mas de forma igualmente categórica, a estratégia de AA requer que o membro assuma a identidade de ser um alcoólatra.
A condição de ser membro de AA baseia-se na auto-identificação. A resposta de AA à pergunta "por que AA parece não funcionar para algumas pessoas?" é a seguinte: "AA só funcionará para aqueles que admitem ser alcoólatras, que honestamente querem parar de beber" (44 Perguntas, 1990, p.31). Em toda a sua circularidade, a formulação acentua a importância, para a continuidade da condição de membro, da autodefinição existencial como alcoólatra.
A identificação com os membros regulares é um importante aspecto do processo de filiação. O papel da identificação é mostrado num estudo de acompanhamento de pacientes tratados em instituições de abuso de substâncias em Michigan (Humphreys & Woods, 1993). Brancos em áreas predominantemente brancas e negros em áreas predominantemente negras, tinham mais probabilidades de freqüentar um grupo de 12 Passos por um ano após o tratamento do que indivíduos que eram minorias dentro de suas comunidades.
A estrutura celular de AA facilita a tarefa de alcançar diferentes grupos populacionais. Em comunidades grandes há uma ampla variedade de grupos para escolha do recém-chegado, permitindo que ele ou ela se junte a um grupo que corresponda a sua posição social, ideologia e personalidade. Os recém-chegados são em geral aconselhados a visitar tantos grupos diferentes quanto puderem, para que encontrem um que melhor se adapte ao seu temperamento.
Por exemplo, os hispânicos em Los Angeles tendem a se reunir em diferentes grupos de AA, por nacionalidade, nível de educação e tempo de residência nos Estados Unidos (Hoffman, 1994). Os critérios de similaridade são, entretanto, altamente variáveis. O teor de reuniões e interpretações do sistema de crenças de AA são com muita freqüência tão importantes quanto a posição social para determinar a escolha de grupos pelo indivíduo. O processo de contínua e flexível auto-seleção é parte importante do funcionamento de AA como um movimento de ajuda mútua e serve como uma fórmula informal e autodirecionada de "tratamento de adequação", que provavelmente está além do alcance de qualquer programa de tratamento profissional.
A REUNIÃO DE AA COMO UM EVENTO DE EXPRESSÃO ORAL
Toda reunião de AA é um evento social único e nunca diretamente baseado no que tenha acontecido numa reunião anterior, nem traz consigo quaisquer promessas de reuniões futuras. O objetivo da reunião é o que acontece na reunião: o reunião não tem qualquer outro propósito coletivo além do andamento da reunião. Na reunião, os membros de AA compartilham entre si (expressam suas experiências e sentimentos) e se identificam mutuamente (escutam empaticamente). Um alto valor é atribuído a espontaneidade e imediatismo – ao relato da experiência pessoal e associação da mesma ao aqui e agora.. Uma reunião de AA é ainda um evento social agendado no mesmo horário a cada semana, no mesmo local, com o mesmo formato. A continuidade das reuniões é mantida pela repetição de agenda da reunião, que normalmente permanece a mesma.
Rituais de Abertura: Separando o tempo de reunião do de não-reunião
A demarcação entre o tempo de uma reunião de AA do tempo de não-reunião é enfatizado por rituais comportamentais. Os rituais de abertura separam a reunião de interação mundana e antecipam sua ordem de interação específica, com seu sistema de revezamento e formas de expressão.
Os rituais de abertura consistem principalmente da leitura de textos da herança de AA. Além disto, pode haver um momento de silêncio e rituais físicos, como o gesto de se dar as mãos. Todos os textos de abertura declaram o estado comum das pessoas presentes, seu problema compartilhado – o alcoolismo. No decorrer da reunião, oradores individuais reiteram o conteúdo principal do ritual coletivo de abertura, invocando sua impotência em relação ao álcool. Da primeira vez que um(a) participante lê um texto, dá uma informação ou fala, ela ou ele usa a introdução ritual: "Eu sou (nome) e eu sou um(a) alcoólatra".
Regras de revezamento
A mais óbvia diferença entre conversas do dia-a-dia e uma reunião de AA é que na reunião de AA o revezamento da fala é preestabelecido (Sacks, 1974 ). A coordenação tem o direito de falar primeiro e fazer observações curtas após cada orador, podendo assim ter grande impacto no fluxo da reunião. A primeira fala após a fala inicial da coordenação é geralmente um pouco mais longa que o resto.
As regras de revezamento do debate principal varia entre as reuniões. Em reuniões pequenas, os participantes falam muitas vezes por ordem de lugar. Em sistemas de revezamento alternativos, pode ser atribuição da coordenação escolher o próximo orador, o orador atual pode escolher o próximo ou os participantes podem dar mostras de seu desejo de falar levantando as mãos. Todas as reuniões são organizadas em torno de falas individuais extensas em vez de uma conversa alternada entre pares. As falas não são seguidas de respostas imediatas como numa conversa comum. Ao contrário, o debate nas reuniões de AA é não-conversacional e seu sistema de revezamento é institucional.
Normalmente, não há limites para a duração de uma fala, mas o tempo de reunião tende a ser dividido igualmente pelos participantes. A duração média depende do número de participantes, uma vez que, em geral, uma reunião de AA limita-se a uma ou duas horas. Se alguém fala por muito tempo, os outros participantes podem tornar-se desatentos e inquietos, mas nenhuma sanção aberta é aplicada e não há problemas em falar demais caso o orador esteja seriamente angustiado. Se alguém usou tempo demais, membros mais experientes que deveriam falar em seguida em geral passam sua vez para economizar tempo para os participantes que possam ter uma necessidade mais urgente de fazê-lo. Às vezes utiliza-se um cronômetro, mas as reuniões toleram falas de diversas durações.
Passar sua vez é perfeitamente aceitável. Os membros podem participar da mesma reunião por longos períodos sem dizer uma palavra (Westerman, 1978). Neste sentido, as reuniões de AA diferem de todas as versões de terapia de grupo.
Regras para os depoimentos em reuniões de AA
Nas reuniões de AA as transgressões das regras de depoimentos são muitas vezes simplesmente ignoradas, não perturbando assim a linha principal do reunião. O pesquisador externo, portanto, não pode recorrer à usual técnica sociológica de averiguação do conteúdo de normas ao descrever que aberrações encontram sanções negativas. O seguinte resumo baseia-se sobretudo em pequenas reuniões na Finlândia, em que todos falam sucessivamente. Segundo a observação de reuniões e entrevistas com os membros, as regras principais do depoimento podem ser descritas da seguinte maneira ( Mäkelä, 1992 ):
1. Não interrompa a pessoa que está falando.
2. Fale sobre suas próprias experiências.
3. Fale tão honestamente quanto puder.
4. Não fale sobre assuntos particulares de outras pessoas.
5. Não professe doutrinas religiosas nem disserte sobre teorias científicas.
6. Você pode falar sobre suas dificuldades pessoais com a aplicação do programa de AA, mas não tente refutar o programa.
7. Não confronte abertamente ou desafie falas anteriores.
8. Não dê conselhos diretos a outros membros de AA.
9. Não apresente explicações causais para o comportamento de outros membros de AA.
10. Não apresente interpretações psicológicas do comportamento de outros membros de AA.
As primeiras duas regras são as mais cruciais. A primeira regra apoia o sistema de revezamento não-conversacional. A segunda regra restringe as falas a histórias pessoais. Na linguagem de AA, membros compartilham suas experiências, ou seja, contam suas histórias pessoais. Seja o tema da reunião um Passo, uma Tradição ou uma história pessoal, espera-se que os oradores falem a respeito através de suas próprias experiências. A forma de revezamento é restrita a um tipo específico (histórias pessoais), mas o conteúdo é livre. Isto leva a uma grande variedade de temas. Na prática, a noção de experiência pessoal é às vezes interpretada de forma muito abrangente. Pode ser possível driblar a proibição quanto a questões políticas discutindo-se seus próprios sentimentos políticos.
A quantidade de conexões abertas a falas anteriores varia de reunião para reunião e de cultura para cultura. Num sentido muito amplo, entretanto, falas podem ser consideradas como ratificações de depoimentos anteriores ou conter experiências contrárias. "Os monólogos dos membros são 'postos na mesa', com ou sem referências a algo dito pelos oradores anteriores. Uma pessoa pode descreve um recente acontecimento traumático de sua vida. O próximo orador pode discorrer sobre algo trivial, por comparação. Isto não significa que o membro traumatizado seja ignorado em favor de assuntos menores. Os membros não estão falando do passado uns dos outros. O resultado dos monólogos de uma noite é nivelar os altos e baixos de todos os membros" (Sadler, 1979 p. 391-302).
As regras de discurso precisam ser aprendidas pela prática. Se alguém quebra as regras de discurso, oradores posteriores podem apresentar algumas de suas próprias experiências que indiretamente salientem a natureza não-ortodoxa de uma fala anterior. Se alguém parece falar de modo insincero, alguém mais pode contar sobre os problemas que teve quando não foi honesto consigo mesmo, mas nenhuma sanção pública é normalmente aplicada durante a reunião contra a quebra de qualquer das regras acima apresentadas. Depois da reunião, um retorno mais direto pode ser dado.
Trabalho de "prestígio" e polidez em reuniões de AA
As características principais das reuniões de AA podem ser discutidos em termos de trabalho de prestígio. "Prestígio" é a auto-imagem pública que todo membro de uma cultura deseja reclamar para si mesmo. Consiste de dois aspectos relacionados, o prestígio negativo e o positivo. "A personalidade humana é uma coisa sagrada; não se ousa violá-la ou infringir seus limites, enquanto ao mesmo tempo o bem maior reside na comunhão com os outros (Durkheim, 1953, p.37). O prestígio negativo relaciona-se à liberdade de ação e liberdade de imposição, "o desejo de todo membro adulto competente de que suas ações não sejam impedidas pelos outros" (Brown & Levinson, 1987, p.61). O prestígio positiva relaciona-se ao desejo de ser reconhecido pelos outros, "o desejo de todo membro de que seu desejo seja desejável para pelo menos alguns outros" (Brown & Levinson, 1987, p.61).
Os rituais de abertura e a repetição de seu conteúdo principal por cada orador cria um forte elo de ligação e igualdade: todos os participantes estão na mesma situação, apenas a uma dose de distancia de uma recaída. O estado existencial comum cria uma atmosfera de polidez positiva e solidariedade. Num nível mais técnico, entretanto, as regras de fala em reuniões de AA são muito voltadas para a polidez negativa – para respeitar a necessidade de autonomia do participante, em vez de sua necessidade de aprovação.
A proibição de conversas paralelas é uma regra importante no apoio ao prestígio negativo do orador. Em reuniões de AA, o direito de fala da pessoa que tem a palavra é respeitado até mesmo quando alguém tem dificuldade em completar sua fala. Permitir que alguém escolha permanecer em silêncio também contribui para respeitar o seu prestígio negativo. Ademais, a falta de retorno negativo direto a discursos anteriores protege o prestígio negativo de todos os participantes.
Ao proteger todos os participantes contra violações de seu prestígio negativo, as regras de fala de AA abrem espaço para histórias pessoais depreciativas e humilhantes, que em outros contextos significariam uma perda total de prestígio. Em AA, os membros precisam "abandonar seu medo de perder o prestígio, a fim de manter o prestígio" (cf. Scollon & Scollon, 1981, p.170). Ou, como colocou um membro de AA finlandês: "o segredo de AA é que você tem a impressão de que 'aqueles bastardos nem mesmo estão interessados em você'. Ninguém em AA pergunta de onde você vem e para onde está indo".
Em conversas comuns, dar um retorno é não apenas um direito mas também uma obrigação; é parte da própria habilidade requerida pelo envolvimento na conversa. As reuniões de AA não possuem o retorno negativo desafiando o prestígio negativo do orador, mas muitos recém-chegados também se sentem desconfortáveis por não receberem suficiente retorno positivo. Nas palavras de outro membro de AA Finlandês, "AA é como uma análise a longo prazo, com o grupo como analista: é importante que os membros não comentem uns sobre os outros, mas que cada membro tenha permissão para tirar suas próprias conclusões."
(As regras de discurso permanecem implícitas e devem ser aprendidas em determinado prazo. Fora da reunião, os membros voltam ao terreno da conversação da vida diária, com suas imposições morais usuais. A interação informal antes e depois da reunião é complementar à reunião e ajuda a fortalecer a rede social do grupo. Ademais, discordâncias e animosidades podem ser ventiladas sem ameaçar o formato da reunião.)
Conclusão
Apesar de toda a sua diversidade, uma reunião de AA é uma formação social muito especial. Não requer as mesmas predisposições e habilidades que as organizações burocráticas ocidentais, mas difere também das formas tradicionais de organização social espontânea. É informal, embora seja mais estruturada do que a maioria das reuniões informais. Tanto o revezamento quanto o tipo de fala ou de retorno são institucionalmente restritos. Primeiro, o sistema de AA de revezamento baseia-se em falas extensas que excluem uma discussão no sentido comum do termo. Segundo, os retornos durante a reunião são limitados a histórias pessoais de um modo que impede comentários diretos a falas anteriores. As regras de discurso em reuniões de AA diferem, portanto, da maioria dos métodos de terapia profissional de grupo. Vale também a pena salientar que o estilo confrontante e interpretativo das reuniões de 12 Passos em muitas instituições profissionais de tratamento desviam-se sistematicamente das reuniões tradicionais de AA.
RESUMO CONCLUSIVO
Chegou o momento de apresentar o resumo conclusivo de minha apresentação. O que tenho tentado fazer em minha conferência é mostrar como os princípios organizacionais de AA, o sistema de crença de AA e o formato de reuniões de AA, fornecem simultaneamente espaço e apoio à redefinição da identidade existencial e à reestruturação do indivíduo, que é o ponto essencial do processo de AA.
Tabela 1 — Grupos e membros de AA no mundo em 1965 e 1988 por região cultural e lingüistica, por cento
|
|
Grupos |
Membros |
|
|
|
1965 |
1988 |
1988 |
|
Estados Unidos e Canadá |
81,1 |
59,9 |
59,1 |
|
Outros países de língua inglesa |
8,3 |
6,1 |
5,0 |
|
Escandinávia |
2,0 |
1,4 |
1,3 |
|
Outros países europeus |
2,3 |
5,2 |
5,0 |
|
América Latina |
5,7 |
26,8 |
29,1 |
|
Outros países |
0,6 |
0,6 |
0,5 |
|
Total |
100,0 |
100,0 |
100,0 |
Tabela 2 — Grupos e membros de AA no Brasil
|
Ano |
Grupos |
Membros |
|
1947 |
1 |
|
|
1953 |
2 |
|
|
1964 |
29 |
2.500 |
|
1974 |
500 |
|
|
1979 |
1.300 |
|
|
1987 |
1.530 |
71.800 |
|
1997 |
5.710 |
120.000 |
Fonte: Dados fornecidos pelo Escritório de Serviços Gerais de AA no Brasil
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