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Familiares de Dependentes Químicos Parte 1
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Uma das questões mais complexas em relação a dependentes químicos e seus familiares tem a ver com motivação para o tratamento. Faz parte do quadro do dependente a desmotivação, a negação de sua condição e um certo nível de ambivalência. Muitas vezes o familiar não se sente animado, não tem condições ou não tem noção de seu poder para mobilizar e encorajar o dependente na procura de tratamento, favorecendo a doença com a sua acomodação e silêncio, retardando o processo de recuperação, que pode chegar ao ponto de não ter como voltar atrás, quer seja por complicações físicas irreversíveis, acidentes de graves conseqüências ou outros tipos de perdas – de emprego, complicações com a justiça, entre outros. Muito raramente o dependente procura ajuda espontaneamente, cabendo então aos familiares e amigos um papel fundamental em sua mobilização. Acontece que devido às suas dificuldades pessoais em lidar com os sentimentos e situações associadas ao problema, tais como raiva, insegurança, medo, culpa, ansiedade e ressentimentos, o familiar acaba envolvido na situação de tal maneira que muitas vezes, quando solicitado, se recusa a mudar de atitude porque entende que já fez muito, sofreu muito, ou trabalhou demais pela causa do outro. Isto é verdadeiro de certa forma porque os familiares são levados pela situação e pela necessidade de cuidar, pelo amor ao dependente, a atuarem em situações variadas e algumas vezes extremas. Este "trabalho" executado, no entanto, raramente é produtivo porque desorientado, servindo mais freqüentemente para manter ou agravar a situação. Às vezes é muito difícil para o familiar entender que é necessário mudar o modo de agir e que é preciso trabalhar para responsabilizar o dependente, o que representa quase sempre tirar-lhe o apoio irrestrito, dizer não e colocar limites. O que se vê é que a progressividade da doença e sua evolução lenta, especialmente no alcoolismo, tendem a contaminar todo o sistema familiar e este reage muitas vezes com acomodação frente aos desajustes, acomodação esta que é aliada da doença, deixando tudo como está, gerando na família uma passividade tal que ela acaba aceitando o inaceitável. Este é um grande desafio a ser vencido pelos terapeutas e profissionais da saúde em geral. Motivar os familiares, especialmente aqueles que já sofreram muito e se encontram paralisados em sua dor.
Outro ponto são as múltiplas falhas no atendimento a esses pacientes, que tem a ver com o despreparo dos profissionais da saúde, com a xenofobia entre os diferentes grupos de tratamento, o preconceito que a doença desperta e a inépcia e descaso do sistema público de saúde em relação à dependência química.
Não é admissível que um profissional da saúde tanto física como mental, não esteja preparado para atender dependentes químicos e seus familiares, que segundo estudos acomete mais da metade da clientela tanto de ambulatórios gerais quanto de pronto-socorros de psiquiatria. Se os bancos acadêmicos falham na formação, é preciso que os profissionais corram atrás do prejuízo, vençam o preconceito e se preparem para atender esse enorme contingente de pacientes.
Os filhos de pais dependentes químicos formam um capítulo à parte pois ninguém se lembra deles. O pai alcoólico pode ser tratado, a mãe, esposa do alcoólico, muitas vezes vai sozinha a tratamentos especializados, aos grupos de ajuda mútua, e ninguém se lembra dos filhos, pequenos ou crescidos. Nem os pais, nem os terapeutas. Os filhos que acompanharam tudo de muito perto, que sofreram talvez as maiores conseqüências e danos desse desastre, na hora da reabilitação não têm espaço. São o grupo de maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de psicopatologias e dependência de álcool ou drogas e deveriam ser alvo preferencial de programas de prevenção e, no entanto, não são lembrados.
Incomoda ainda a falta ou o pequeno espaço de diálogo entre os diferentes grupos que lidam com dependentes: a Universidade, os Grupos de ajuda mútua, as Comunidades Terapêuticas e Clínicas de diferentes modelos. Indubitavelmente esta conversa traria lucros e benefícios para todos, especialmente para os usuários.
Outro ponto é o silêncio que precisa ser rompido para que muitas vidas sejam salvas, muita gente deixe de sofrer e outros tenham ao menos uma ponta de esperança. Assim como no passado e ainda hoje não se fala em hanseníase ou tuberculose na família, silencia-se em relação a alcoolismo e drogadição. Só que há uma grande diferença: enquanto a hanseníase e a tuberculose até podem ser escondidas, dependência química não se esconde. Os distúrbios causados extravasam o ambiente doméstico e todos ficam sabendo, sendo que apenas os familiares têm a fantasia de manter segredo.
Por outro lado, enquanto as pessoas não atentarem para o fato de que as suas vivências pessoais são importantes e válidas na construção do seu caminho, que ter um pai alcoólico significa um pai doente e que isto não é vergonhoso, e mais, que compartilhar isto pode significar ajuda para outras pessoas que sofrem isoladas, continuaremos vivendo com a cabeça enterrada na areia, como a avestruz.
Um dos grandes ensinamentos dos grupos de tratamento, tanto de ajuda mútua quanto profissional, é que é possível usar a própria história, dividindo com os companheiros o sofrimento e principalmente a competência nascida da vivência do sofrimento, na ajuda ao outro para enfrentar o que parece impossível de ser vencido. Nota-se que a primeira sensação boa que o novo membro sente ao chegar a um grupo é o surgimento da esperança, quase sempre perdida há muito tempo.
As biografias são claras a respeito de como as complicações de vida enfrentadas e compartilhadas fazem brotar vocações e dão sentido à vida das pessoas.
Este aprendizado de vida tratados nos grupos quando complementados pela teoria do ambiente acadêmico ajuda na elaboração dessa construção, validando a experiência e dando estofo e peso ao profissional.
Como diz o Prof Adalberto Barreto "o gemido de outrora se transforma em voz interior que me vocaciona para acolher a dor do outro. Agora, vendo a minha dor refletida no outro, posso ultrapassá-la com alegria".
Outra questão tem a ver com as instituições públicas que se omitem e não criam condições de atendimento para o enorme contingente de doentes que sofrem sem esperança porque não há serviço suficiente para o seu atendimento. Além de o poder público fazer vista grossa para o descumprimento de leis – venda de bebidas alcoólicas para menores, como exemplo - e o avanço da mídia em termos de envolvimento de jovens e mulheres para o uso cada vez mais precoce sem que haja qualquer mobilização oficial para a enfrentar.
Há experiência internacional em políticas de álcool e drogas eficientes do ponto de vista da proteção da saúde de populações, mas nota-se que as nossas autoridades não se dão ao trabalho de consultar os técnicos buscando consensos, ao invés disso, aceita que indivíduos emitam pareceres em organismos internacionais – a exemplo do aumento da taxação de bebidas, embasada em estudos científicos, sugerida recentemente por técnicos da OMS, e rechaçada pelos nossos representantes naquele organismo.
A falta de orientação e de uma política de álcool e drogas é percebida quando são importados alguns itens de políticas de outros países que nada tem em comum com a nossa realidade, por parecerem interessantes a um ou outro ocupante de cargo público de plantão, sem se importar com a opinião técnica abalizada pela maioria ou as expectativas da população. Isto é muito claro, hoje, com a política de redução de danos que está sendo imposta oficialmente, que entre outras coisas, oferece seringas e um tratamento diferenciado para um número pequeno de usuários de drogas injetáveis, enquanto milhões de alcoolistas não contam sequer com tratamento ambulatorial suficiente ou vagas para internação quando necessária. Se o dependente é do sexo feminino, a situação é muito pior. Se poucas clínicas privadas estão aptas a darem atendimento em regime de internação às mulheres, no serviço público, raríssimas clínicas psiquiátricas dão vagas para mulheres alcoolistas.
Se o atendimento ao dependente é deficitário, o atendimento aos familiares é inexistente, permanecendo os milhões de filhos de pais alcoólicos, em sua grande vulnerabilidade, à mercê do seu destino - o mesmo caminho de seus pais, repetindo a tragédia de suas vidas através de gerações, em cascata. Os raros projetos de prevenção existentes não apresentam os requisitos básicos mínimos de eficiência – credibilidade, visibilidade, continuidade.
CONSTRUÇÃO DO SER
O ambiente familiar é o alicerce do desenvolvimento individual. A partir dos primeiros contatos do bebê com o ambiente externo começam a delinear-se a sua personalidade e maneira de vivenciar o mundo. As expectativas e os cuidados a ele dispensados aliados a fatores ambientais, assim como a sua carga genética, sensibilidade e temperamento, determinarão o seu modo de ser e existir no mundo.
Dentre os muitos fatores que contribuem na sua formação tem-se falado em resiliência, esse tipo de força natural com a qual alguns indivíduos vêm dotados para enfrentar com mais aptidão que os outros os entreveros naturais da vida, saindo-se bem de situações desastrosas para a maioria das pessoas.
Dentre os fatores externos fundamentais para o desenvolvimento saudável estão: afeto, proteção, provimento regular, estabilidade, estrutura e flexibilidade.
Nunca é demais lembrarmos que o ser humano nasce absolutamente dependente e que essa dependência estende-se por um longo período de tempo, o que requer todo um aparato especial de atendimento para uma formação adequada, onde a criação de vínculos estáveis é um ingrediente indispensável. Nesse contexto de longa duração há espaço para a formação da confiança, necessária à sobrevivência, e um sentimento de segurança na medida em que suas necessidades são atendidas satisfatoriamente, confiança essa que é carregada pela vida afora, e com o correr do tempo dá margem à formação de um sentimento mais interno e refinado, que chamamos de fé.
Quando a criança não pode confiar, se sobreviver, não irá conseguir se apegar adequadamente a ninguém. Falta-lhe o apego seguro descrito por Bowlby como fundamental para o bom desenvolvimento afetivo. É interessante lembrar que a criança se vê no olhar do outro e a formação da auto-imagem e da autoconfiança depende do olhar e interesse do seu cuidador. Acompanhamos alguns pacientes adultos que se mostram absolutamente sós, com apenas resquícios de confiança. Quando frente a um grande sofrimento são incapazes de buscar tratamento, e caso cheguem a algum tratamento e se sintam bem, falam de seu sofrimento, de suas inseguranças e identificação com o grupo ou terapeuta, porém, inexplicavelmente não voltam mais. Mesmo quando as facilidades são muitas – proximidade de sua residência, sem custo financeiro e horário adequado. Acabamos tendo notícias esporádicas dessas pessoas, que quase sempre continuam sofrendo variados tipos de abusos e continuam presas em sua própria armadilha, paralisadas e dependentes. Umas poucas conseguem depois de certo tempo encontrar alívio em algum tipo de grupo – ajuda mútua, igreja ou outro tipo de associação. A nossa impressão é de que a maior parte continua sofrendo e isolada.
Mas são esses poucos, que conseguem chegar a algum tipo de tratamento que nos animam a continuar investindo, a continuar insistindo para que procurem ajuda. Entendemos ser necessário insistir e repetir as recomendações para esses pacientes, que muitas vezes acabam invadidos de um sentimento de vitimização e sofrimento que não podem abandonar, seja pelo ganho secundário, seja pela força do hábito e desconhecimento de outra possibilidade de vida, mas principalmente pela incapacidade de sentir confiança.
ALCOOLISMO E ADOLESCÊNCIA
Para quem nasce num ambiente familiar perturbado pelo alcoolismo de um dos pais é tudo sempre muito conturbado: não há segurança porque o pai alcoólico é instável e o não alcoólico vive reagindo a essa instabilidade, as manifestações de afeto são incoerentes e inconsistentes, muitas vezes o provimento é irregular, não há flexibilidade e nem estabilidade. Crescer nesse ambiente faz com que tenha que estar fugindo o tempo todo de sentimentos desencontrados, e a criança aprende a estar sempre na defensiva, como se a vida não lhe desse alternativas, criando um sentimento de exclusão e não pertencimento que leva pela vida afora. Thomas Rivinus fala das dificuldades da criança lidar com sentimentos quando vivencia mil mortes do pai em um ano. Ele nunca sabe se o pai vem, quando vem, nem como vem. "Quando eu tinha 8 anos, dependendo de como meu pai colocava a chave na fechadura da porta da frente, eu sabia se devia me trancar no quarto, correr para a casa da vizinha ou continuar à mesa de jantar" disse-me um rapaz de 16 anos.
A criança necessita de acolhimento, estímulos, encorajamento e limites para se localizar e deslocar no mundo.
O que acontece quando há falhas nesses fatores fundamentais pode ser sintetizado com o termo codependência, apesar da grande disparidade e variedade de fatores e de falhas. Daí pode-se deduzir que há uma grande variedade de graus de sofrimento e desajustes advindos desses desacertos. Uma criança que perde a mãe nos primeiros meses de vida irá formar vínculos com os seres à sua volta de acordo com a disponibilidade dessas pessoas e a sua capacidade de agir e reagir a eles. Se encontrar um afeto substituto à altura poderá desenvolver-se bem, sem grandes problemas, diferentemente de um bebê que cresce com uma mãe biológica pouco disponível afetivamente ou com um pai desatento, por n fatores, sendo o alcoolismo, por suas características, um dos mais perversos agentes provocadores de distorções nas relações familiares.
Na adolescência o sofrimento dessas crianças é mais intenso, porque tudo costuma ser superlativo nessa fase. Uma pequena espinha num rosto bonito torna-se um drama. Assistir as agressões entre os pais, sofrer agressões inexplicáveis, sentir vergonha dos pais, deixar de convidar os amigos para a sua casa para evitar constrangimentos, não aceitar convites para não ter que retribuir, procurar manter segredo de sua vida familiar junto aos amigos, ter que se esforçar demais para acompanhar os estudos, por conta do estresse diário a que se submete, é causa de muitos distúrbios e fonte de dificuldades de adaptação que ele pode levar pelo resto da vida. É na adolescência que o indivíduo sai para conhecer o mundo. A sua vida até então voltada para dentro de um lar conturbado, vai fazer com que tenha muito mais dificuldades de entender o que se passa "lá fora" e se integrar. Vai procurar ou conseguir se adaptar a pessoas ou grupos que se identifiquem com ele, entrando para bandos tão pouco saudáveis quanto ele. Ao mesmo tempo em que foge das situações normais de vida, que não compreende, sentindo que o mundo o rejeita. As dores caracteristicamente superlativas na adolescência têm um sentido especial para esse grupo, e é muito fácil escapar para o uso de drogas como automedicação, especialmente se levarmos em conta a disponibilidade dentro de sua casa, e que a curiosidade e a experimentação fazem parte dessa etapa da vida, juntamente com a banalização do uso de drogas nos dias atuais e falta de controle social. Se a experimentação trouxer alívio imediato para as suas dores ele voltará a usar e terá muita dificuldade em parar, antes mesmo de se tornar dependente. Com a instalação da dependência este paciente terá muito mais dificuldades em se livrar dela do que os outros menos comprometidos emocionalmente.
Na prática se percebe uma proporção enorme de filhos de lares desestruturados por alcoolismo e drogadição que desenvolvem um modo de enfrentar a vida com componentes autodestrutivos, baixa auto-estima, um sentimento de não ser valioso, onde o mais importante é sempre o outro, muitas vezes com uma grande necessidade de cuidar do outro, uma tendência a controlar coisas, pessoas e situações e uma sensação de escorço do futuro. O risco para o desenvolvimento de dependência química é cinco vezes maior do que para uma criança que cresce em ambiente livre de alcoolismo ou drogadição, assim como o risco de desenvolvimento de outras psicopatologias é também aumentado.
Muito freqüentemente pessoas que crescem sem o devido aporte afetivo e provimento, sem que haja qualquer vestígio de drogadição na família, acabam posteriormente envolvendo-se com drogaditos, ou tornam-se elas mesmas dependentes de drogas, fechando um ciclo difícil de ser rompido, carregando e repassando esse distúrbio através de gerações, num modo de funcionar "contagioso". É o tipo de funcionamento que faz sentido para ela. "Só reconheço no outro aquilo que conheço em mim" diz o Prof Adalberto Barreto.