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Familiares de Dependentes Químicos Parte 3
APRENDER
É preciso conhecer para enfrentar e dar soluções. Alcoolismo tem um número de vítimas grande demais e os filhos de pais alcoolistas são, por excelência, como disse Margareth Cork, a criança esquecida. Thomas Rivinus usa uma figura mais forte ainda, a meu ver, referindo-se a filhos de pais dependentes químicos como um "navio passando na noite" por conta da pouca atenção a eles dispensados pelos profissionais e sistemas da saúde.
Dentro do contexto atual dos esquemas de tratamento e de manuseio de dependentes químicos em nosso meio, onde os recursos são insuficientes, especialmente nos serviços públicos, pode parecer exagero essa atenção, porém se levarmos em conta que o risco de um filho de pais dependentes químicos tornarem-se eles mesmos dependentes de álcool ou drogas é aumentado em cinco vezes, torna-se evidente a necessidade urgente de se atender essa população com táticas de prevenção. Essas crianças deveriam ser alvo prioritário de programas de prevenção especialmente dirigidos a elas, por constituir o grupo de maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de psicopatologias e dependência química.
Uma senhora de 63 anos de idade, cuida compulsivamente do filho de 33 que é usuário de cocaína. Por conta do seu "cuidado", o rapaz acaba tendo mais dificuldades para se firmar porque ela não deixa espaço para ele. Ela faz "tudo" por ele. Ela perdeu a mãe com poucos meses de idade e foi criada por tios. Casou-se adolescente ainda e durante 20 anos foi espancada pelo marido alcoólatra, até que ele parou de beber. Continua morando com o marido apesar de saber que ele constituiu outra família ao mesmo tempo em que se casou com ela e vive com as duas, a poucos quarteirões uma da outra. Quando pergunto dela mesma e digo que deve cuidar de si, recebo uma resposta assustadora: "eu não existo".
Esta paciente freqüentou o grupo de tratamento "para o filho" e assim que percebeu que o tratamento era para ela, deixou de comparecer as sessões. Esses casos são muito difíceis porque esses pacientes não conseguem se vincular. As leis de seu lar de origem são: não confiar, não falar, não sentir. Como lutar com forças tão poderosas?
Uma senhora, empresária, cujo filho usuário de cocaína a ameaçava, recusou-se a chamar o resgate e interna-lo por medo de que ele a matasse depois, como havia ameaçado. O rapaz, numa crise, provocou todos os seus funcionários, a espancou, esfaqueou um colega e desapareceu. Ela não conseguiu entender que interna-lo compulsoriamente naquele momento seria também um modo de protegê-lo, além de proteger os demais.
Uma jovem de 35 anos, bonita, inteligente e habilidosa, do ponto de vista profissional não evolui, permanecendo desempregada ou subempregada, conta ter tido um casamento com um primeiro marido muito bom. "Ele me carregava no colo", diz. "Mas eu me cansei dele e um dia o mandei embora." Envolveu-se com um alcoolista e teve uma filha, deixou-o pelo seu irmão, usuário de crack, com o qual teve outra filha. Na sua história muito abandono, alcoolismo e mãe que se suicidou em sua adolescência. O seu sentimento mais intenso é de insegurança e ela não consegue se vincular ao tratamento. Freqüenta um pouco e depois desaparece por muito tempo. É um fato freqüente: a mulher não tolera um casamento ou relacionamento normal e tranqüilo, fica faltando alguma coisa, não faz sentido para ela que acaba rompendo e indo em busca de algo conturbado. A figura que me vem é a de uma pessoa nascida e criada no oriente, com um sistema familiar cerimonioso, cheio de silêncio e delicadezas, onde as pessoas falam pouco e muito baixo, que por um motivo ou outro é levada a viver com uma família exuberante, onde todos falam ao mesmo tempo, e todos se tocam, se abraçam – não há possibilidade de adaptação – os códigos são outros, as reações são diversas. Não faz sentido para um e outro essa convivência. Isto explicaria de certo modo porque uma mesma mulher se casa sucessivamente com três ou quatro alcoólatras – é o que faz sentido para ela, é o ambiente em que ela sabe se comportar e agir.
Essas disfunções são repassadas para as gerações seguintes em cascata. Elas desconhecem outra possibilidade de vida. Ao ser interrogada sobre o que aconteceria com sua filha de sete anos, uma paciente respondeu sem pestanejar "ela vai beber" e acrescentou, "minha avó bebia, minha mãe bebia e eu bebo".
Essas pacientes vivem a vida sem nenhuma noção de auto valor, nenhuma auto-estima e parece não se darem conta de estarem conectadas ao mundo, é como se não estivessem presentes, não imaginam que podem atuar e fazer o seu caminho. Nem lhes passa que podem e devem ajudar os filhos a criarem o seu futuro, diferente do delas.
Margareth Cork, em 1969, estudou um grupo de crianças filhas de pais alcoolistas e ficou chocada com os resultados, com o tamanho do sofrimento silencioso encontrado e diz que há uma falácia com relação a essas crianças. Imagina-se que quando os pais se tratam e param de beber a criança automaticamente fica bem, e não é verdade, as feridas são profundas e necessitam de tratamento, conclui ela. Thomas Rivinus comenta que os terapeutas não costumam inserir na anamnese perguntas sobre alcoolismo em família e que este é um dado muito importante, conta de sua indignação com as falhas no atendimento "inclusive do meu", diz.
Para se ter idéia das dimensões e da importância do tema, na década de 80 calculava-se entre 28 a 32 milhões o número de filhos de alcoólicos nos EUA, destes, 20 a 25% se tornariam alcoolistas ou usuários de outras drogas. O volume de recursos necessários para atender esta população de acometidos é imensa, sendo um dos maiores problemas de saúde pública do mundo.
NECESSIDADE DE APRENDER
A complexidade da doença, as dificuldades naturais em lidar com essa questão que envolve tantos mitos, preconceitos e juízos de valor, criam uma aura de intratabilidade entre as pessoas comuns e mesmo profissionais da área psi que muitas vezes evitam atender estes casos. Isto agrava mais a situação, fazendo com que algumas pessoas sejam condenadas pelo que eu chamaria de omissão coletiva de socorro. É muito comum que tenhamos conhecimento ou recebamos algum paciente para tratamento, filho ou pai de médicos, mesmo psiquiatras ou terapeutas, que estão literalmente morrendo de alcoolismo, sem que nada de efetivo tenha sido feito para o seu tratamento adequado. Outras vezes, após palestras e aulas, algum colega fala do familiar que "não tem jeito", pelo qual "já fez tudo", perguntando se há o que fazer. À pergunta se conhece os tratamentos mais corriqueiros surpreendemo-nos pela resposta negativa.
Pela gravidade do acometimento que pode levar à incapacidade ou à morte, pela dificuldade do próprio paciente em buscar alívio para o seu sofrimento, pela conturbação e desorganização que provocam à sua volta, os familiares e amigos de pessoas com essa problemática devem esgotar os recursos disponíveis antes de o chamarem de incurável e "sem jeito". E entender que são eles os personagens capazes de modificar esta história.
Não é possível ajudar qualquer pessoa com problema de alcoolismo ou outra drogadição sem conhecer os recursos e possibilidades. É necessário estudar um pouco, entender para poder atuar de maneira minimamente responsável com essa questão. Não é preciso tornar-se especialista, mas é preciso aprender alguns pressupostos, entender minimamente o funcionamento de um cérebro alterado pela drogadição para ajudar efetivamente.
Por outro lado, as dificuldades dos profissionais têm várias origens: a primeira na formação acadêmica, deficiente em matérias específicas, onde a maioria dos cursos não oferecem capacitação minimamente suficiente; a segunda, na própria aura que envolve esse tipo de patologia, carregada de preconceitos, mitos, julgamentos de valor e culpa.
Num trabalho publicado em 91, Helga M. Matzko verificou que entre os 53 conselheiros e terapeutas especializados em dependência química pesquisados, 66% tinham alcoolismo ou drogadição em sua família de origem e destes, 31% fizeram uso abusivo de substâncias.
É reconhecida a tendência do codependente, filho ou não de alcoólicos ou dependentes de drogas, procurar profissão de ajuda, num movimento mesmo de continuidade de seu "trabalho" desde a infância. Na pesquisa citada a autora fala da necessidade de se ajudar esses profissionais com seminários, workshops e cursos que os ampare e preparem, além de supervisão sistemática evitando complicações pelas intersecções de suas histórias pessoais e dos pacientes.
É preciso entender também que os próprios recursos disponíveis para o tratamento, além de insuficientes, são fragmentados e dispersos, e a isso se soma a xenofobia entre os diversos modelos de abordagem. Grupos de ajuda mútua olham com desconfiança para o meio acadêmico e o meio acadêmico faz o mesmo com os grupos; as comunidades terapêuticas, as clínicas que tem diferentes modos de lidar, se olham com desconfiança gerando entraves a que muitos profissionais se aproximem e façam o que seria mais lógico: uma troca de experiências e conhecimentos. Como resultado, muitos profissionais detratam Alcoólicos Anônimos e Al-Anon sem nunca terem assistido uma reunião sequer, cortando a possibilidade de acesso a esse tipo de tratamento que poderia beneficiar seus pacientes. Os pacientes, por seu lado, passam pelas diferentes modalidades de tratamento e acabam ficando naquela em que se sente melhor, independente da simpatia do técnico. É importante que conheçam a maior variedade de recursos disponíveis possível, até que se engajem em um deles.
Um conhecido professor inglês recomenda que os profissionais que trabalham com dependência química freqüentem pelo menos 50 reuniões de AA e aprendam com eles. As reuniões de AA têm alguns ingredientes que a fazem interessante: humor, companheirismo, empatia, acesso facilitado, grupos em praticamente o mundo todo e a custo quase zero – em cada reunião passam uma sacola onde se coloca um donativo espontâneo. Assim como a de Al-Anon, para os familiares.
É necessário combater o silêncio e a xenofobia que são aliados da doença e da manutenção do estado de coisas, deixando muitos pacientes expostos ao agravamento de sua doença e à morte prematura.
Todas as escolhas que fazemos ao longo de nossa vida têm a ver com a nossa história e aprendizado desde o berço. Se fui amado e aprendi a confiar nas pessoas e na vida terei mais facilidade de fazer boas escolhas e opções de vida, aumentando a chance de viver de maneira ajustada. Se nunca me senti amado, se não pude me ver em outros olhos como algo bom e valioso, terei muitas dificuldades de ajustamento, eu me sentirei sem nenhuma importância e minhas escolhas nunca farão sentido. Vai sempre faltar algo e poderei lutar em busca de algo que falta, estudando feito um doido a vida toda, sem conseguir chegar a lugar algum, ou me anulando e sentindo que não adianta, "eu não existo".
A baixa auto-estima, o sentimento de não ser valioso, se reflete em todas as escolhas e caminhos percorridos e o familiar assim comprometido contribui para a manutenção da drogadição porque não dá suporte para a recuperação do dependente.
A maioria das mulheres casadas com alcoolistas são também filhas de alcoolistas e se submetem a situações absurdas de privação, abandono e violência, independente da classe social a que pertença. Recentemente uma senhora bem vestida, de cerca de 70 anos de idade veio ao grupo com a filha de 40. Ambas muito doentes. A mãe mal podia ficar em pé, já tendo sofrido vários problemas graves de saúde. Deprimida, quando perguntei sobre o marido respondeu que ele bebia havia muitos anos, desde o casamento. Mas ele não a incomodava muito não, não era agressivo, ele só ficava desagradável e às vezes a empurrava, chutava sua perna e cuspia nela.
O PROCESSO
É preciso entender que o processo de evolução do alcoolismo é lento, levando até 20 ou 30 anos e que nesse tempo vai acontecendo no tecido familiar uma série de transformações adaptativas para essa realidade. É um processo de acomodação a situações, emoções e sentimentos no sentido de manter a família unida. Todo o sistema familiar busca um modo de conviver com aquela situação diferente que aos poucos vai se impondo e com o correr do tempo se agrava. Se no início do casamento os excessos de álcool do marido ajudam a alegrar o ambiente, com o passar do tempo começa a incomodar. Se a princípio as falhas e os deslizes do marido, os esquecimentos – do aniversário do filho, do aniversário de casamento, podem ser compensados por um presente, um ramalhete de flores, um carinho extra, com o passar do tempo e a repetição, tornam-se imperdoáveis e as mágoas se acumulam. Apesar das mágoas e da raiva contida, a mulher justifica o marido e o ajuda a manter o quadro, aceitando que ele anda esquecido porque está trabalhando demais, o chefe o está pressionando, a sogra não o entende e por aí afora, são os amigos que o levam para o "mau caminho". Tudo será usado para não responsabilizar o marido pelo que realmente ocorre. Ele pode até parar de beber durante algum tempo, um mês ou dois, e dizer, veja, eu não tenho problema, eu paro quando eu quero. E ela concorda. Mas se o problema não está nele, onde estará? É preciso haver um culpado. Então ela se volta para si mesma e moças belíssimas, verdadeiras misses se julgam feias, mulheres que mantém a casa como se fosse vitrine de tão perfeita, sem nada fora do lugar, limpíssimo, ainda acha que não está bom. A esposa sente-se inadequada, culpada, insegura. A mãe, o pai, a filha, o filho, os avós, todos são envolvidos no mesmo tipo de sentimento. Todos se sentem culpados. Se a mulher trabalha fora é porque trabalha fora e tem pouco tempo para a casa e marido, se não trabalha é porque não trabalha e não colabora com ele. E o alcoólico muitas vezes entra nesse jogo acentuando as suas culpas e insegurança, concordando com ela, que está feia, que a casa não está bem, que os filhos não estão sendo bem tratados. E as brigas se avolumam, chegando muitas vezes à agressão física. E a família estabelece e segue rigorosamente o contrato silencioso. Sofre sozinha, muitas vezes sem se abrir mesmo com os amigos mais chegados, por anos a fio. Podem ocorrer somatizações com úlceras, gastrites, hipertensão, enxaquecas, tonturas inexplicáveis, esgotamento e depressão.
As crianças ficam perdidas, sofrendo o estresse contínuo desse ambiente doentio e tentando sobreviver, cada um vai encontrar, de acordo com o seu temperamento e capacidade, um modo de se acomodar. Alguns papéis que assumem nessa acomodação são bem estudados e conhecidos, e os principais são: o herói – aquele que faz o que ninguém faz, estudando, trabalhando e sendo exemplar em tudo que faz; a criança esquecida – aquela criança que fica pelos cantos procurando não dar trabalho e não chamar a atenção; um deles pode tomar conta dos pais, tornando-se pai de seus pais, exagerada e precocemente responsáveis ; outro, procura fazer graça, procurando assim aliviar e alegrar o ambiente com piadas e brincadeiras, tornando-se as vezes inconveniente nesse graça; outro pode procurar chamar a atenção sobre si mesmo, sendo o bode expiatório, delinqüindo, tentando assim ajudar os pais – o problema sou eu. Todos com uma coisa em comum – um custo emocional elevado, levando a complicações físicas muitas vezes e desajustes em sua vida inteira, quando não tratados.
Essas crianças crescem com falhas, verdadeiras lacunas em sua educação. Muitas vezes falta-lhes vivências de situações normais, corriqueiras de vida que quando adultos faz falta e um sentimento de inadequação. Como diz um professor, é preciso que o terapeuta, antes de chamar de resistência do paciente, se dê conta se não é falha em sua formação. É comum que ele não tenha tido nunca um bolo de aniversário, nunca tenha viajado com os pais em férias e que falte vivência em tantas outras situações normais de vida que não podemos avaliar.
Podemos calcular o que é não saber nunca se o pai vem, quando vem ou como vem? Ou ainda, quando o filho vai alegrinho mostrar alguma coisa e recebe uma agressão? Seremos capazes de avaliar o que é não ter um provedor regular e ver o pai gastando os últimos trocados em bebida com os amigos quando em casa falta a que comer? E outras vezes ser mimado por este mesmo pai, com presentes e histórias deliciosas, participar com ele de suas aventuras, ao mesmo tempo em que ninguém se dá conta de suas necessidades básicas, como acompanhamento na escola, se está bem abrigado no inverno, se alimentou-se adequadamente. Como avaliar a raiva sentida ao ouvir os elogios dos amigos ao pai pela sua boa atuação, pela bela família que tem, quando esse pai é violento em casa, não para no serviço e nem se dá pela existência dos filhos?
Se por um lado o pai alcoólico é confuso e tem reações incompreensíveis para a criança, a mãe pode ser mais confusa ainda. Muitas vezes cheia de raiva, insegura, ansiosa, não consegue dar respostas coerentes para as crianças, que ficam perdidas nesse meio complicado.