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Familiares de Dependentes Químicos              Parte 4

Dra. Dirce de Assis Rudge 

 

MUDANÇA

Quando o dependente consegue parar de beber e encarar a vida, as dificuldades são muitas. Primeiro, terá que enfrentar tudo que sempre evitou, sem "fugir" na intoxicação e a realidade à sua volta costuma ser assustadora. Dívidas, dificuldades de emprego, de relacionamento com os amigos, colegas e familiares, o atraso da vida que parou alguns anos por conta de ele estar "fora do ar", estudo interrompido, projetos truncados. A saúde física pode estar abalada com hipertensão, problemas hepáticos, gástricos, neurológicos, cardíacos. As mágoas em relação ao cônjuge podem ser muitas, assim como o sentimento de culpa. Ele terá que olhar em volta e se deparar com todos esses problemas e enfrenta-los a princípio sem muita condição, porque é bom lembrar que terá sintomas de abstinência, pois o seu organismo adaptado para funcionar em presença de um determinado teor alcoólico no sangue terá que se adaptar ao funcionamento sem o álcool: irritabilidade, insônia, tremores, náusea, sudorese, tonturas, vômitos, insegurança, ansiedade são sintomas que podem durar algumas semanas. Dependendo do grau de dependência pode apresentar delírios, onde pequenos ou grandes animais o atormentam, subindo em seu corpo, invadindo o seu ambiente. Ouvir vozes e sentir impulsos estranhos e variações de humor, além de pesadelos.

Terá expectativas irrealistas sobre o fato de estar mudando de comportamento. Ele pensa ter feito algo muito especial, parando de beber, e é mesmo, para um dependente, interromper o uso é um desafio e tanto, e ele terá a idéia de que todos irão ficar muito felizes e alegres com o seu feito. Há um descompasso no casal que pode gerar muitos atritos: enquanto ele espera um tapete vermelho, a esposa pensa que ele não fez mais do que a obrigação, que demorou demais para parar e estará pronta a cobrar dele tudo imediatamente, sem entender o seu momento. Cheia de raiva, insegurança, medo e ansiedade, dificilmente estará apta a dar o apoio que ele necessita.

Muitos têm a fantasia de que ao parar de beber acabam os problemas do casal, sem saber que problemas fazem parte da vida e que restam saldos negativos dos anos de destempero que precisam ser acertados.

A esposa viverá com o fantasma da recaída e irá colocar essa expectativa nele, lembrando-o a todo o momento que ele pode recair. Se ele demorar um pouco mais a chegar em casa, irá encontrá-la em pânico porque a única coisa que ela aprendeu a fazer foi pensar que quando ele atrasa é porque se embebedou. Essa desconfiança atrapalha o processo dele, tira-lhe a segurança.

Depois de algum tempo, quando ele começar a reassumir os seus papéis, ela terá que abrir mão das funções masculinas que assumiu enquanto ele esteve "fora", devolvendo-as a ele e esse processo não é nada fácil porque tem a ver com poder. Ele, por seu lado, vai começar a encontrar defeitos no que ela tem feito esses anos em que ele esteve "fora" e isso ela não vai tolerar. Afinal, ele esteve ausente tanto tempo, ela teve que se desdobrar e fazer a sua parte e também a dele, muitas vezes teve que arrumar emprego, trabalhar dobrado, mudar as crianças da escola particular para a pública, enfrentar encanadores, mecânicos e eletricistas e ao final ele ainda vai encontrar defeitos. É muito doloroso para ela. Ela também dificilmente abrira mão do controle, afinal ele ficou tanto tempo sem fazer, como ela poderá confiar nele agora? As brigas são inevitáveis e ambos tenderão a usar os velhos recursos, com grande dificuldade para ambos, e muitas ameaças à abstinência. Algumas mulheres ficam enciumadas dos seus novos amigos de AA, se ele freqüentar com assiduidade e se sentirá excluída. A maioria não aprende o caminho do Al-Anon, e algumas chegam a dizer que o problema é ele, sem entender que também precisa de ajuda, mesmo quando diz que está com a saúde prejudicada por causa dele, como se ele tivesse que reparar diretamente os danos e ela não tivesse responsabilidade alguma no processo. É freqüente depressão reativa na mulher quando ele pára. Já ouvi de muitos casais que a esposa pede ao marido que volte a beber, depois de algum tempo de abstinência. Uma delas, de nível universitário e bom nível social, disse que não gostava mais do marido depois que ele parou de beber – ele ficou diferente, ela não havia se casado com aquele homem. Foi difícil convence-la de que era uma fase e que ele estava se adaptando a uma nova realidade.

Quando a situação é muito complicada não resta outra alternativa para o casal além da separação, por mais que se amem.

Caso vençam essa primeira etapa, terão a chance de observar a sua evolução dia após dia. Como disse um amigo, depois que parou de beber foi como se tivessem tirado uma cortina da sua frente. E se o casal conversar, ele irá dizer de sua percepção do mundo e de cada avanço no dia a dia e os dois poderão comemorar cada progresso reforçando a abstinência. Um de nossos pacientes, morador de favela, de 37 anos, a cada sessão faz questão de contar suas "descobertas" da semana: fica muito feliz de perceber que agora, quase um ano após o início da abstinência, as pessoas confiam nele e lhe dão atribuições que antes ele nem imaginaria, que descobre coisas novas todo dia, como habilidade para cozinhar, cuidar do filho, atender a sogra doente. Dia desses contou que se perdeu no centro da cidade e que desta vez não ficou nervoso, apenas caminhou até encontrar um lugar que já conhecia. Antes a resposta imediata seria um trago. E se mostra muito feliz com essas descobertas diárias. Recentemente afirmou no começo de uma sessão de terapia que estava muito bem, feliz. Estava desempregado e a sua moto, com a qual fazia algumas entregas e ganhava alguns trocados, havia sido roubada e mesmo assim ele não havia bebido.

TRATAMENTO

A primeira questão em relação ao tratamento do familiar é que nem sempre ele se dá conta da necessidade de tratar-se. Enclausurado em seu sofrimento, acaba muitas vezes entendendo que o sofrimento faz parte e não acredita suficientemente em si mesmo para aceitar os seus sintomas como válidos e acaba se tratando somente nas grandes complicações. Outras vezes diz simplesmente – o problema é ele – eu não bebo, porque deveria ir `a terapia ? Entende o tratamento como mais um sacrifício, ou como algo mais que deva fazer pelo outro, que muitas vezes já ocupou espaço demais em sua vida. Não se dá conta de que escolheu e está com esse marido por livre iniciativa, que a prisão é interna, de dentro dela mesma.

Há uma tendência em cuidar do outro até a exaustão e nesse cuidado, além de impedir que o outro se veja ou entre em contato com as suas questões e se responsabilize por si mesmo, traz para si toda a responsabilidade, aprisiona-se juntamente com o dependente e vai à pique com ele.

Quase sempre o movimento que possibilita o início do seu tratamento é o de ajuda ao outro. Vem ao grupo para trazer o companheiro, e durante o desenrolar da terapia vai se apercebendo de que também precisa de socorro. Assim como na freqüência aos grupos de Al-Anon muitas esposas se dão conta de que vieram buscar tratamento para o outro e encontrou para si mesmo e acaba se sentindo bem e ficando no grupo para se tratar.

Como mencionado anteriormente, a terapia individual para os familiares pode funcionar. Como a dor costuma ser muito grande e as feridas extremamente dolorosas, em grupo, a possibilidade de se enxergar no outro traz várias vantagens. A pessoa pode freqüentar sem necessariamente se abrir e falar por um bom período de tempo, tempo esse em que vai entrando aos poucos em contato consigo mesmo, com a sua dor e com o mundo ao seu redor.

É comum que fique chocada ao se dar conta de como restringiu a sua vida em função do outro e vai demorar para se dar conta de que fez isso por questões suas e o outro não é culpado e nem responsável.

Uma paciente disse que antes gostava de cinema, mas agora não sabia mais do que gostava. Muitos dizem que se perderam e que perderam a identidade. Eu não sei mais quem eu sou, disse uma jovem esposa de alcoólico, com visível sofrimento.

Muitas pessoas só começam a se cuidar quando o dependente é internado. Muitas clínicas têm programa de tratamento para o familiar e eles se engajam porque o tratamento é colocado nos dias de visita, sendo exigida a sua presença, porém, dependendo do comprometimento, ficam ligadas somente no período de internação e tão logo o dependente receba alta, interrompem e voltam ao seu mundo de sofrimento.

Conheço muitos casais em que ele para de beber e ela não para de sofrer e às vezes continuam juntos por costume ou conveniência num relacionamento desagradável e cheio de sofrimento.

É importante entender que o familiar em melhor estado pode servir de apoio para o dependente se recuperar, e ao contrário, o familiar doente, pode cortar toda possibilidade de o dependente sair do seu "buraco". Uma senhora muito comprometida por alcoolismo, casada com um médico, foi levada para internação pelo filho adolescente.

Raramente crianças e adolescentes são levadas junto com os pais para os programas de tratamento o que impede que os pequenos se inteirem da retomada em direção a vida e recuperem também a esperança retardando o processo dos pequenos.

GRUPOS DE AJUDA MÚTUA

Os grupos Al-Anon são formidáveis instrumentos de reorganização pessoal para o familiar de alcoolista, que quase sempre chega depressivo, descuidado e sem se perceber. No grupo se vê no outro e percebe que o seu caso "tem jeito". Descobre que muitos que chegaram como ele ao grupo, agora estão bem, tranqüilos, tocando a vida, independente do alcoolista estar usando ou não. O programa o ajuda a voltar o foco para si mesmo e deixar o outro resolver o seu problema. Aprende sobre ser controlador e "tomador de conta" do outro e a necessidade de se cuidar. A programação dos 12 passos oferece um caminho lógico e coerente de tratamento e cuidados e o encontro com os iguais traz esperança e novas perspectivas, sendo que a troca de vivências e experiências ajuda na elaboração de um caminho para si. Outro ponto é a saída do isolamento, e a possibilidade de ter um grupo que a compreende completamente e é solidário. O programa de 12 passos visa a recuperação espiritual do indivíduo e orienta na melhora da relação consigo mesmo, com o outro, com a sociedade e com o transcendente.
                         
Há outros grupos, como o Amor Exigente e alguns que não usam os 12 passos de Alcoólicos Anônimos todos muito úteis.

É importante lembrar que esses grupos não dispensam e nem interferem em outros tratamentos que o paciente esteja fazendo. Grande parte dos freqüentadores que têm possibilidade faz algum tipo de terapia.

Parte 5