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Familiares de Dependentes Químicos              Parte 2

Dra. Dirce de Assis Rudge

SEGREDO – LEIS

Algumas características e leis de um lar com desorganização por alcoolismo ou outro tipo de drogadição, colaboram na manutenção do distúrbio, dificultando tanto a saída de algum membro menos doente desse ambiente, como a entrada de algum recurso externo de ajuda. Não falar, não confiar, não sentir são leis que favorecem a continuidade do quadro, porque dificultam a necessária aeração do ambiente, que se fecha em si mesmo. Chega a extremos como quando uma paciente me contou ter reunido os seus pais e numerosos irmãos, depois de 20 anos de um casamento desastroso com um alcoólico, resolvida a contar a eles a tragédia de sua vida que "escondera" zelosamente por tanto tempo. Ficou surpresa por seus irmãos já saberem do seu "segredo" há muito e até rirem dela. Como diz uma terapeuta amiga "dependência química não se esconde", porém o familiar tem a fantasia de que ninguém percebeu o seu sofrimento, que as estratégias que cria para "esconder" a sua dor e vergonha, seja eficaz. Por outro lado, no sentido de se proteger, a negação, que faz parte do quadro da dependência, acaba envolvendo os familiares que muitas vezes acabam demorando muito a tomar conhecimento de que o filho está usando droga ou está muito comprometido pelo alcoolismo. Há racionalizações do tipo: é só uma fase, ele anda muito nervoso, por isso está bebendo um pouco demais, ele perdeu o emprego, a esposa o deixou, etc... Dificilmente a conclusão é mais realista – ele está nervoso porque está bebendo demais; ele perdeu o emprego porque tem sido relapso por causa das bebedeiras; a esposa o deixou por não suportar mais os seus excessos de consumo de álcool.

DIAGNÓSTICO DE CODEPENDÊNCIA

Timmen Cermak apresentou proposta de critérios diagnósticos para codependência ao DSM II. Estes critérios, apesar de não terem sido aceitos, nos são muito úteis do ponto de vista prático porque possibilitam uma melhor compreensão desse comprometimento, de maneira sistematizada. São eles:

1. Investimento contínuo da auto-estima na habilidade para influenciar/controlar sentimentos e comportamentos;
2. Assumir responsabilidade pelas necessidades dos outros mais do que as suas próprias;
3. Ansiedade e distorção nos limites da intimidade e separação;
4. Envolvimento em relações com pessoas com distúrbios de personalidade ou dependência química;
5. Tendência à negação;
6. Depressão;
7. Hipervigilância;
8. Compulsões;
9. Aprisionamento de emoções que resultam em explosões dramáticas;
10. Ansiedade;
11. Abuso de substâncias;
12. Vítima recorrente de abuso físico ou sexual;
13.Estresse relacionado com doença física;
14. Permanência na relação com abusador de substâncias por pelo menos dois anos sem procurar ajuda.

Para que o paciente tivesse o diagnóstico firmado teria que apresentar três dos sintomas referidos num período de 12 meses.

A importância desta classificação de critérios se deve ao fato de apontar que acontece algo especial com as pessoas nessas condições, o que exige uma atenção também especial por parte dos terapeutas e agentes de saúde. Em 1969, Margareth Cork foi a primeira a chamar a atenção para esse contingente.

Algumas pessoas com sintomas de codependência têm grande dificuldade de evoluir com os tratamentos tradicionais e entendemos ser necessário um investimento mais adequado à sua realidade. Quando o profissional não está preparado para o tamanho dessa dor não consegue uma qualidade e nível de empatia suficientes e o tratamento fica apenas na superfície, deixando as grandes feridas em segundo plano. A freqüência a grupos de tratamento pode romper um tipo de carapaça de intratabilidade, e só depois o tratamento individual pode resultar positivo. Os grupos de ajuda mútua tipo Al-Anon e Naranon, além de outros formados por profissionais podem ser de grande utilidade, especialmente no início do tratamento quando o paciente encontra-se enclausurado em sua dor, sem possibilidade de confiar em pessoas. O grupo rompe esse isolamento e cria condições mínimas para o início da recuperação do paciente. Alguns pacientes, no entanto se recusam a freqüentar qualquer tipo de tratamento e há os que só aceitam tratamento individual.

Uma das grandes dificuldades está relacionada ao sentimento de culpa. Todos os membros da família, inclusive o alcoólatra, se sentem culpados e responsáveis pelos distúrbios e essa culpa é acentuada em relação aos filhos pequenos.

Como disse Vailland, "o álcool é o melhor solvente de uma consciência culpada" e isto traz uma das grandes dificuldades do alcoólatra permanecer abstinente nos primeiros tempos.

DOENÇA

É grande a importância de todos entenderem que dependência química é doença e que não há culpados. Há responsabilidade, não culpa. A família pode ajudar o dependente responsabilizando-o por seus atos, fazendo com que pague pelo que provoca, quebra, estraga, mostrando claramente suas inadequações, em situações em que ele possa compreender.

Na verdade é a família e os amigos que tem o poder de ajudar o dependente. Ele não se percebe e quem está a sua volta precisa mostrar-lhe, apontar os desacertos para que ele se perceba.

As leis – não falar, não confiar, não sentir – são empecilhos a serem vencidos pelos familiares a fim de serem eficientes em sua luta.

Não é recomendável falar quando a pessoa encontra-se alcoolizada por vários motivos: ela pode tornar-se agressiva e nem se lembrar de nada logo depois. Deve-se falar quando o alcoolista estiver sem beber há várias horas, calmamente, sobre o que ele faz ou fez quando alcoolizado, dizer como se sente, apontando-lhe uma saída, uma ajuda. Isto é especialmente eficaz quando ele está se sentindo culpado e envergonhado por ter provocado algum distúrbio. É preciso falar quantas vezes sejam necessárias, sempre de maneira tranqüila e amorosa, nunca com brigas ou discussões que só pioram o quadro. É preciso ajudá-lo a recuperar a dignidade e desejar parar de beber, lembrando que a maior parte deles morre em conseqüência da doença.

Ajuda muito se o familiar compreender que não tem culpa e que pode ajudar, mudando o modo de agir. Sugerimos:

Parte 3