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Familiares de Dependentes Químicos              Parte 5

Dra. Dirce de Assis Rudge

 

TERAPIA FAMILIAR E DE CASAL

É um ótimo instrumento para lidar com as disfunções familiares especialmente no início da abstinência. O terapeuta irá ajuda-los a enfrentar a situação de maneira menos dramática e mais realista, cada um procurando o caminho de sua individuação. A esposa será orientada a cuidar de sua vida e deixar o marido lidar com a sua abstinência e irão trabalhar as mágoas sem pressa, especialmente usando as partes boas, as boas lembranças, o que restou de bom do relacionamento, reativando o lado sadio da relação e aprendendo a se perceber atentando para os progressos do dia a dia como forma de aumentar a auto-eficácia. O foco do tratamento da terapia familiar sistêmica são as relações.

A família toda pode ajudar o dependente, ajudando-o a perceber as mudanças, reforçando positivamente cada conquista do dia a dia, buscando não lembrar o passado e nem focar no futuro. A idéia de nunca beber pode ser assustadora e é importante que o dependente sinta que hoje ele não bebeu e isso é muito bom. Não pode colocar expectativa muito longe e nem lembrar do passado. A família que compreende isso pode ajudar o dependente em suas dúvidas e caso haja uma recaída, saberá agir, evitando que se prolongue, encorajando-o a retomar o processo de recuperação em seguida, ajudando-o a descartar a vergonha e a culpa, lembrando tratar-se de doença. Caso a família não esteja sintonizada no tratamento, uma recaída é tratada como se ele nunca tivesse evoluído e tudo o que foi conseguido em meses e até anos de tratamento e esforço pode ser jogado no lixo, com apenas um uso esporádico.

INTERVENÇÃO ORIENTADA

Vários profissionais estão habilitados para esse procedimento relativamente simples. Criado no Instituto Johnson é uma maneira de romper com a resistência do dependente para o tratamento. Trata-se de reunir algumas pessoas importantes para o dependente – pais, amigos, filhos, médico, padre, enfim, pessoas que gostem dele e que ele respeite. Durante dois a três encontros essas pessoas são orientadas como proceder num encontro com o dependente. É tudo muito técnico e tem alto grau de eficácia. É um procedimento muito amoroso e emocionante que por si só sensibiliza o dependente para o tratamento que vem a seguir. Quase sempre o dependente sai diretamente desse encontro para uma clínica de tratamento, quando é necessária a internação.

A maior dificuldade que encontramos é porque depende dos familiares se mobilizarem para organizar o processo, e eles nem sempre estão disponíveis.

TERAPIA COMUNITÁRIA - NOSSA EXPERIÊNCIA

Esta novidade no modo de lidar com o sofrimento humano é formidável instrumento para lidar com dependência química por várias de suas características.

Criada na Universidade Federal do Ceará pelo Prof Adalberto Barreto há cerca de 20 anos, possui profissionais treinados em todo o Brasil, com pólos formadores em várias regiões do País e já está sendo exportada para a França, Bélgica e Chile.

Tão logo entrei em contato com essa técnica começamos a utilizá-la em nossos grupos e o sucesso foi imediato. Aumentou a freqüência, o número de pacientes e tivemos resultados muito positivos. Incluímos dependentes e familiares no mesmo grupo, inclusive crianças que ficam ao lado, brincando com jogos de montar ou desenhando. Fazemos isso pensando que as crianças são quase sempre excluídas dos grupos de tratamento por um equívoco dos profissionais. Elas acompanham toda a derrocada da família, sofrem todas as conseqüências do uso e das agressões em casa e não vejo porque exclui-las da reconstrução e tratamento da família. A criança precisa, assim como toda a família, recuperar a esperança e entender o que se passa com os pais. Temos observado que as crianças participam ativamente dos grupos e se acalmam no correr das sessões e de uma sessão para outra. Optamos por fazer também um grupo de terapia comunitária só com crianças, em sua maioria filhos de pais alcoólicos e dependentes químicos, e este tem se revelado muito interessante. As crianças, mesmo pequenas, de sete ou oito anos falam de seu sofrimento, de suas dores e se expressam muito bem e gostam de participar da terapia que usa músicas e brincadeiras como recursos terapêuticos.

A nosso ver os motivos de sucesso são vários. Primeiro, as suas regras: não criticar, não julgar, não dar conselhos para pacientes que se sentem culpados e envergonhados, são perfeitas.

Segundo, porque a TC procura focar na competência das pessoas e não no que falta. O terapeuta irá procurar o que existe de bom e que pode ser retomado e encorajar o paciente a se aventurar e fazer. Encoraja a se mostrar útil, falando de suas experiências e de como resolveu os seus problemas até o presente, ressaltando sua competência, e isto ajuda a melhorar a auto-estima e mesmo na retomada da vida.

Terceiro porque o dependente e o familiar têm a fantasia de que o seu sofrimento é o maior do mundo e ninguém os entenderia, e irão perceber logo que isso não é verdadeiro. Há muitas pessoas sofrendo com as mesmas coisas ou muito parecidas e essa constatação tira a família do isolamento.

Outra coisa que me parece fundamental é que o dependente e seu familiar não se escutam. Eles que brigam, que se agridem, mas que raramente se percebem, no grupo irão se escutar, muitas vezes na boca de um outro membro do grupo.

Temos tido alguns resultados surpreendentes no nosso grupo, onde usamos a TC há mais de um ano. Uma senhora de 70 anos que me procurou deprimida, cujo marido bebia muito, no grupo saiu da depressão em menos de um mês, pouco depois, o marido, sem vir ao grupo parou de beber, pela sua mudança de atitude em relação a ele. Depois, quando ele voltou a beber o grupo a ajudou a perceber que ela queria continuar com ele e a incentivou a convidá-lo. Ele acabou vindo ao grupo e está abstinente há mais de seis meses. Os seus filhos vieram para ajudar o padrasto e um deles acabou confessando uso de crack e parou de usar depois de algum tempo de freqüência ao grupo. O seu neto de cinco anos, filho do usuário de crack, nas primeiras sessões era extremamente agitado, e agora nem damos pela sua presença, pois brinca calmamente com os joguinhos o tempo todo da sessão, só se aproximando quando seu pai fala, quando o grupo canta e no final para o ritual de agregação.

Um rapaz de 38 anos, residente na favela, parou de beber a mais ou menos um ano e vem sempre ao grupo e conta prazeroso aos companheiros as suas descobertas do dia a dia. Como agora está enfrentando as situações que antes o faziam beber e como se sente bem percebendo a sua auto-eficácia. A cada semana conta novas coisas que aprendeu e como se sente bem sendo útil para pessoas em quem antes se "escorava".

Parte 6