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Entre a Biologia e a Espiritualidade

 Dr. Eduardo Rudge

 

 Na Conferência de Abertura do 13º Congresso Brasileiro de Alcoolismo (Rio de Janeiro, 12 a 15 de agosto de 1999), o Dr. George Vaillant, expoente mundial nos estudos de alcoolismo, afirmou: 

"O poder que a dependência química exerce sobre os seres humanos não reside no nosso córtex. O poder da dependência em nossas mentes mora no que foi chamado o nosso cérebro de réptil. O poder localiza-se no campo das transformações celulares no meio do nosso cérebro –  o nucleus accumbens e o tegmentum superior. Essas transformações estão além do alcance da força de vontade, além do alcance do condicionamento e além do alcance do ‘insight psicoanalítico". 

Aqueles locais indicados pelo Dr. Vaillant constituem as formações nervosas do “Circuito de Recompensa”, descoberto por acaso em 1.954 quando James Olds, um psicólogo americano que estudava excitações elétricas em zonas do SNC de ratos (relacionadas ao sistema de alerta) atingiu uma área onde o próprio animal, através de mecanismo apropriado em sua gaiola, solicitava freneticamente a repetição de tais estímulos.
Estudos posteriores confirmaram o fenômeno, identificando um circuito neural no meio do cérebro, entre a chamada VTA, área tegumentar ventral, no mesencéfalo, e o nucleus accumbens, na base circuito_de_recompensado cérebro. Esse circuito, formado por um grupo compacto de neurônios secretores de dopamina, age como um “chip” gerenciador das sensações do prazer oferecido pela satisfação de matar a fome, a sede, estar em segurança, que são condições relacionadas primordialmente com a própria sobrevivência, e mesmo para atividades sexuais, relacionadas com a sobrevivência da espécie.
Antes do aparecimento do Circuito de Recompensa, os animais garantiam a sua sobrevivência e a sobrevivência da sua espécie através de comandos genéticos do DNA.
O Dr. Vaillant também relaciona o “campo de transformações celulares” ao nosso “cérebro de réptil” e isto tem a ver com a primeira fase da evolução do cérebro no reino animal, o chamado “cérebro primitivo”, dos répteis, dos dinossauros, que já apresentava o embrião do Circuito de Recompensa, muito embora destituído do Sistema Límbico (gerenciador dos sentimentos e emoções) que se inicia  no chamado “cérebro intermediário”  já nos mamíferos. O cérebro “superior ou racional” surge mais tarde, com os mamíferos superiores, os primatas e o homem. É de se notar que as peculiaridades de inteligência, subjetividade, sentido de tempo e de espaço, memória e outras funções menos específicas de cada uma daquelas 2 formas evolutivas anteriores coexistem no funcionamento do cérebro de um animal superior podendo portanto assumir, em determinadas situações, influência no comportamento desse animal (Paul Mac Lean). 
O estudo das neurociências aplicado às dependências químicas demonstrou que a ação das drogas no SNC se faz primordialmente sobre o Circuito de Recompensa e isso explica a tendência à repetição do seu uso, bem como o poder de modificar o comportamento do indivíduo por conta da sua unidade cerebral primitiva.
Quando estudamos a evolução dos animais e atentamos que inicialmente eles foram providos de um mecanismo de adaptações do seu meio interno para enfrentar as variações encontradas em novos ambientes para onde pudessem se locomover, quando observamos a elegância dos movimentos dos peixes em contraste com os movimentos desordenados das lampreias – resultado de aperfeiçoamentos no cerebelo daqueles animais, já então poderemos perceber uma patente intenção de liberdade demonstrada por um Poder posicionado além da nossa compreensão objetiva, mas quando verificamos o grande salto evolucionário representado pela  introdução do prazer como elemento modulador da vontade, e esta vontade como elemento modulador do comportamento, afastando-se a necessidade das imposições do DNA relacionadas  à sobrevivência ao conferir a possibilidade de livre escolha, então teremos a confirmação plena daquela suposição.
Mas a função de viver de um indivíduo deve sintonizar-se com a função de viver do seu grupo, da sua espécie e, nessas condições, todo o seu sistema nervoso, integrado,  comanda a necessária sintonia, limitando as autonomias individuais.
No Homem a liberdade deve ser modulada pelo seu desenvolvimento espiritual, considerando-se a espiritualidade como:


1-O processo interno de buscar autenticidade pessoal, genuína, e de total inteireza, como um aspecto do desenvolvimento da identidade.
2-O processo de transcender continuamente o próprio eu.
3-O desenvolvimento de um maior contato consigo mesmo e com os outros, através do    relacionamento e da união com a comunidade.
4-O processo que proporciona o significado, propósito e direcionamento para  nossa vida.
5-O desenvolvimento de uma crescente abertura para explorar o relacionamento com um poder intangível e superior a si mesmo. 

                                                                              
(Love & Talbot, 1999)            
                                                                                                                              

Retornando aos dizeres do Dr. Vaillant, que distanciam o tratamento da Dependência Química dos procedimentos psicoterápicos habituais, e considerando o local de ação das drogas – o Circuito de Recompensa – como referencial importante na evolução dos animais no que se refere à liberdade, e que a própria liberdade deve ser modulada pela espiritualidade, concluímos que o desenvolvimento espiritual deve fazer parte importante de todo e qualquer tratamento que se estabeleça para um dependente químico, o qual deverá, portanto, incluir um programa de revisão e aprimoramento espiritual, do mesmo modo com que o fizeram os co-fundadores de A.A., Bill W. e Dr. Bob, há mais de 60 anos. Eles freqüentaram as reuniões dos Grupos Oxford, uma sociedade religiosa onde se preconizava o altruísmo, amor, honestidade e pureza, todos de forma absoluta. Esta imposição comprometia a aderência dos  alcoólicos àquele programa, os quais também se sentiam pressionados pela severidade do grupo. Mas ali já se enfatizava a necessidade do trabalho pessoal de um membro com o outro, e se praticava um tipo de confissão, a reparação de danos causados e a meditação.
De todo modo, os Grupos Oxford reuniam pessoas com outros padecimentos que não só os do alcoolismo, e por isso os co-fundadores de A.A. resolveram organizar grupos de mútua-ajuda específicos para alcoólicos, estabelecendo um programa de seis etapas, com o objetivo de um aprimoramento permanente e gradual da espiritualidade. Inspiraram-se nos pensamentos de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino – com suas quatro virtudes capitais, Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança –  e William James, o grande psicólogo e filósofo do pragmatismo americano, autor da obra As Variedades da Experiência Religiosa, que compartilhou com Karl Gustav Jung, eminente médico e psicólogo suíço discípulo de Freud, as idéias sobre a importância da experiência espiritual nos casos de difícil tratamento psicológico convencional (em correspondência com Bill, Jung chegou a mencionar a necessidade de uma "deflação do ego" e a conveniência de um contato pessoal e honesto com outro semelhante).

De toda essa experiência resultou o Programa dos Doze Passos de Alcoólicos Anônimos, que foi rápida e universalmente aprovado por clérigos de todas as religiões, por psiquiatras e outros profissionais dedicados ao tratamento do alcoolismo e, o que é mais importante, pelos próprios alcoólicos em busca da sua sobriedade.

 

 

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