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As Dificuldades
Científicas do
Entendimento da Espiritualidade
Prof. Dr. Luiz Ferri de Barros
Mestre e Doutor em Filosofia da
Educação-USP
Pesquisador Visitante -
Instituto de Psiquiatria – USP
lfbarros@hydra.com.br
"Que posso fazer se alguém não compreende? Que exulte dizendo: Que mistério é este? Que exulte e prefira encontrar-te, não te compreendendo, a não te encontrar, compreendendo" Agostinho [1]
I
: "Quanto mais acreditamos compreender o universo, mais ele nos parece sem sentido." [2]
Desde há longo tempo o desenvolvimento técnico-científico da Medicina vem gerando situações de constrangimento entre aquela parcela de profissionais de saúde que até hoje não encontraram formas conciliatórias de relacionar-se com a espiritualidade de seus clientes (ou as suas próprias manifestações anímicas como pessoas, não importa se com o estetoscópio pendurado ao pescoço ou não). Se esta é questão central para vários médicos, certamente igualmente afeta muitos daqueles, em todas as áreas, que se consideram cientistas.
Rigorosamente, o exame profundo da espiritualidade foge ao domínio da Ciência e aos cientistas é permitido apenas a investigação de certos fenômenos a ela relacionados, de forma restrita e pontual, o que talvez nunca venha a ser suficiente para oferecer-lhes o esclarecimento que desejariam obter sobre o tema. Sob esta perspectiva, em relação à espiritualidade, a Ciência busca o entendimento de um todo desconhecido, apenas a partir de partes restritas e superficiais, que se constituem em certo resíduo visível, sem dispor de linguagem nem de instrumental conceitual apropriados para encaixar tais partes de forma cognoscível.
A epígrafe utilizada no início deste texto, por ser extraída de Santo Agostinho, pode induzir o leitor desatento a considerar que adentrarei por caminhos de explanação teológica; mas este não é o caso. Primeiro porque busco em Agostinho o filósofo, não o teólogo, e em segundo lugar porque entre cientistas também se podem encontrar enunciados que evocam similaridade com o de Agostinho, apontando para uma certa inutilidade da compreensão para que nos aproximemos dos fenômenos, como é caso da seguinte sentença dos astrônomos contemporâneos Barrow and Tipler
II
"Ter espírito, ser um 'ente dotado de espírito', significa sobretudo ser capax universi, capaz de abarcar e de ser receptivo ao todo do mundo". Josef Pieper [3]
O culto contemporâneo à Ciência -- e seus inegáveis êxitos nos mais variados campos -- não modifica sua natureza intrínseca, em especial no que se refere às suas limitações, definidas em sua própria origem. A precisão científica deriva exatamente de uma estrita delimitação de campo e, necessariamente, gera um conhecimento fragmentário, conforme discute Pieper em diversos de seus textos.
Pieper também reafirma a tese sustentada por outros autores de que "modestamente críticas em relação a si mesmas, as ciências se limitam ao que pode ser conhecido com precisão, ao particular e, portanto, ao concreto". [4] Em outras palavras, a Ciência só se propõe questões que possa resolver. Mais grave que isto, eu diria, em muitos casos ignora ou desdenha tudo aquilo que não consiga compreender.
Esta fragmentação do conhecimento, derivada da especialização científica que hoje atinge níveis superlativos, teve início com a crescente constituição das ciências modernas a partir de sua desvinculação da Filosofia. Sob este aspecto, foi decisiva a obra de Descartes, em especial o Discurso do Método, em 1637, originalmente escrito para orientações em Geometria. A essência do método cartesiano consiste exatamente na subdivisão dos problemas em partes as menores possíveis, para sua resolução independente e, ao final, a revisão de todas as partes. [5]
Em anos recentes, com ares novidadeiros e métodos indefinidos, muito se tem ouvido dizer de preocupações holísticas nas ciências, para não se dizer das infrutíferas tentativas de melhor nível de compreensão dos diversos objetos de estudo a partir do concurso de equipes multidisciplinares ou interdisciplinares.
Sucede que a tentativa de recomposição do todo nunca será eficaz pela justaposição de partes que já tenham sido anteriormente dissecadas, em especial no que se refere ao estudo do homem. Na ficção científica o resultado disto já foi retratado e não há quem não conheça o exemplo do personagem Frankenstein.
Para que se possa estudar a espiritualidade, em suas manifestações religiosas ou leigas, são necessários "homens de espírito", no sentido intelectual do termo. Para Pieper, isto significa que "ao contrário do animal, que está encerrado num meio fragmentário, num 'mundo circundante', ter espírito significa existir face ao conjunto da realidade, vis-avis de l'univers.".
Onde encontrar os homens de espírito que possam oferecer luzes ao significado da espiritualidade leiga que é cultivada nos milhões de grupos de auto-ajuda atualmente existentes no mundo, por exemplo? Por certo o fenômeno não é insignificante para que não mereça ser estudado. Muitos dos grandes cientistas são homens de espírito, mas estes não constituem a maioria da comunidade científica. Muitos homens de espírito não fazem parte da comunidade científica e se os cientistas desejarem melhor aproximação com a natureza e o significado da espiritualidade precisarão ter a humildade de procurá-los ou, ao menos, de ouvi-los quando por vezes se expressam.
III
"Anima est quodammodo omnia."
"A alma é, de certo modo, todas as coisas."
Aristóteles [6]
O culto contemporâneo à Ciência -- e seus inegáveis êxitos nos mais variados campos -- não modifica sua natureza intrínseca, em especial no que se refere às suas limitações, definidas em sua própria origem. A precisão científica deriva exatamente de uma estrita delimitação de campo e, necessariamente, gera um conhecimento fragmentário, conforme discute Pieper em diversos de seus textos.
Pieper também reafirma a tese sustentada por outros autores de que "modestamente críticas em relação a si mesmas, as ciências se limitam ao que pode ser conhecido com precisão, ao particular e, portanto, ao concreto". [4] Em outras palavras, a Ciência só se propõe questões que possa resolver. Mais grave que isto, eu diria, em muitos casos ignora ou desdenha tudo aquilo que não consiga compreender.
Esta fragmentação do conhecimento, derivada da especialização científica que hoje atinge níveis superlativos, teve início com a crescente constituição das ciências modernas a partir de sua desvinculação da Filosofia. Sob este aspecto, foi decisiva a obra de Descartes, em especial o Discurso do Método, em 1637, originalmente escrito para orientações em Geometria. A essência do método cartesiano consiste exatamente na subdivisão dos problemas em partes as menores possíveis, para sua resolução independente e, ao final, a revisão de todas as partes. [5]
Em anos recentes, com ares novidadeiros e métodos indefinidos, muito se tem ouvido dizer de preocupações holísticas nas ciências, para não se dizer das infrutíferas tentativas de melhor nível de compreensão dos diversos objetos de estudo a partir do concurso de equipes multidisciplinares ou interdisciplinares.
Sucede que a tentativa de recomposição do todo nunca será eficaz pela justaposição de partes que já tenham sido anteriormente dissecadas, em especial no que se refere ao estudo do homem. Na ficção científica o resultado disto já foi retratado e não há quem não conheça o exemplo do personagem Frankenstein.
Para que se possa estudar a espiritualidade, em suas manifestações religiosas ou leigas, são necessários "homens de espírito", no sentido intelectual do termo. Para Pieper, isto significa que "ao contrário do animal, que está encerrado num meio fragmentário, num 'mundo circundante', ter espírito significa existir face ao conjunto da realidade, vis-avis de l'univers.".
Onde encontrar os homens de espírito que possam oferecer luzes ao significado da espiritualidade leiga que é cultivada nos milhões de grupos de auto-ajuda atualmente existentes no mundo, por exemplo? Por certo o fenômeno não é insignificante para que não mereça ser estudado. Muitos dos grandes cientistas são homens de espírito, mas estes não constituem a maioria da comunidade científica. Muitos homens de espírito não fazem parte da comunidade científica e se os cientistas desejarem melhor aproximação com a natureza e o significado da espiritualidade precisarão ter a humildade de procurá-los ou, ao menos, de ouvi-los quando por vezes se expressam.
[1] Santo Agostinho. Confissões. Paulus, São Paulo, 1984, 10ª edição, p.22.
[2] Barrow, John D. and Tipler, Frank J. Tipler. The Anthropic Cosmological Principle. Oxford, Oxford UP, 1986. In: The Book of the Cosmos Imagininig the Universe from Heraclitus to Hawking An Helix Anthology. Dennis Richard Danielson (org.) Perseus Publishing, Cambridge, Massachussetts, 2000
[3] Pieper, Josef. Abertura para o Todo: A Chance da Universidade. Apel Editora, São Paulo, 1989. p. 24.
[4] Op. Cit. p.30
[5] Descartes. Discurso do Método para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências. In: Descartes, Obra Escolhida. Difel, 1962, São Paulo. p. 39
[6] Apud Pieper. Op. Cit. p. 24.
[7] Vide: Giddens, Anthony. Para Além da Esquerda e da Direita. São Paulo, UNESP, 1995, pp. 25. 138, 139 e 147. Vide também outras obras do mesmo autor.
[8] Pieper. Op. Cit. p.24.
[9] Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo, 1991, Mestre Jou.