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DANÇATERAPIA COMO AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO BIOPSICOSSOCIAL
Espaço Comunitário Comenius – São Paulo 2007
Resumo
A comunidade da Favela do Sapé (SP) exposta, em grande parte a questões de violência doméstica, uso e abuso de álcool e outras drogas, além de uma diversidade de problemas emocionais e relacionais, demonstrou a importância da utilização de uma alternativa útil, na inclusão psicossocial dos indivíduos, em programa de promoção de saúde: a dançaterapia.
A dança como terapia é baseada na premissa de que corpo e mente são inter-relacionados. Os problemas mentais e emocionais são freqüentemente sinalizados no corpo na forma de tensão e padrões de movimentos rígidos. O estado corporal afeta as atitudes e sentimentos tanto positiva como negativamente da mesma forma que o padrão de movimentos reflete o padrão psicológico de um indivíduo fechando um ciclo.
Abstract
The population of Favela do Sapé and neighborhood – São Paulo – experience alcohol and other drugs abuse, emotional and relational problems and domestic violence. The search for means that could facilitate that those people come to treatment leaded to create an attractive method: dancetherapy. Dancing as therapy is based on the premise that body and mind are interrelated The emotional and mental problems are frequently imprinted into the body in the form of tension and though movement patterns. The body state affects the attitudes and the feelings either positive or negatively as well as the movement patterns reflects the psychological pattern of an individual in such a way that closes a cycle.
Palavras chave - Dançaterapia, abuso de substâncias, alcoolismo ,violência doméstica.
Key words - Dancetherapy, substance abuse, alcoholism, domestic violence.
Álcool, outras drogas e violência doméstica têm uma série de fatores em comum. As estatísticas referentes à prevalência da violência doméstica e do abuso de drogas demonstram que há uma forte relação destes fatores envolvendo as relações interpessoais.
A pesquisa do Cebrid da Universidade Federal de São Paulo (A Noto, 2005) em seu levantamento familiar revela que:
Em 52% dos casos de violência doméstica o agressor estava alcoolizado;
Em 6% o agressor estava também sob o efeito de outras drogas;
Em 4% o agressor estava intoxicado por outras drogas
Segundo a OMS, violência, em seu aspecto geral, é definida como um uso intencional de poder ou força física ameaçadores contra si mesmo/a, contra outra pessoa ou um grupo ou comunidade que tanto resulta ou pode resultar em danos, morte, abuso psicológico, subdesenvolvimento ou negligência.
Violência contra mulher – qualquer conduta ou omissão de discriminação, agressão ou coerção, ocorrida pela pessoa ser do sexo feminino, que cause: dano, morte, constrangimento, limitação, sofrimento físico, sexual, moral psicológico, social, político ou econômico ou perda patrimonial. Pode ocorrer em espaços públicos ou privados.
Violência de gênero – sofre-se a violência por ser mulher, independente de raça, classe social, religião, idade ou qualquer outra condição. Sistema social subordinador do sexo feminino.
Violência familiar – violência que ocorre dentro da família. Vínculos de parentesco: natural (mãe/pai/filha/etc);
ou civil (marido/sogra/padrasto/outros);
por afinidade (primo/ tio do marido);
por afetividade (amigo/a que more na mesma casa)
Violência institucional – “expressada na intolerância” por desigualdades de (gênero, étnico-raciais, econômicas, etc) predominante em diferentes sociedades. Essas desigualdades se formalizam e institucionalizam nas diferentes organizações públicas ou privadas como também nos diferentes grupos que constituem essas sociedades.
Violência moral – ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a honra ou a reputação da mulher.
Violência patrimonial – Ato de violência que implique dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, bens e valores.
Refere-se ao uso disfuncional de substâncias psicoativas por um indivíduo.
Dependência Química é doença.
- Modelo doença:
Um transtorno primário e independente de outras condições; uma herdada suscetibilidade biológica aos efeitos do álcool e outras drogas;
- Modelo de comportamento aprendido:
Os comportamentos são aprendidos ou condicionados.
Comportamentos, sentimentos e pensamentos que podem ser modificados pelos mesmos processos de aprendizagem que os criaram.
- Fenômeno biopsicossocial:
Sociológicos, culturais e espirituais.
Comparação entre violência doméstica e abuso de substâncias
Para uma melhor compreensão da similaridade entre violência doméstica e abuso de drogas, Irons e Schneider apresentam uma lista de critérios do DSM IV resumidos e adaptados como seguem:
No caso da violência doméstica, a perda de controle seria a perda de controle da raiva e não a perda de controle do uso da substância. A perda de controle pode ser vista em um continuum, isto é, ela parece progredir e intensificar-se no tempo. Dentro deste tempo, há períodos de pausa ou de relativa paz. Nestas pausas o agressor promete que irá mudar e que não irá mais usar de violência. O tempo entre tal promessa e o comportamento agressivo recorrente parece diminuir da mesma forma que a tendência compulsiva de uso de substância.
Poder-se-ia inferir que a inclusão do critério 2 do DSM-IV ( abstinência ) seria pertinente neste tempo de pausa e novo conflito. Este critério poderia ser entendido como uma ansiedade que há neste momento de pausa – isto é, já que o conflito é recorrente, de alguma forma, espera-se que a pausa de paz vá terminar. Assim sendo, a ansiedade pode criar uma determinada fissura. Mas uma fissura, nem sempre pela briga, mas pela angústia de não saber quando ela vai ocorrer. Neste ponto, muitas mulheres acabam provocando um conflito para passar logo pela briga e voltar ao tempo de paz.
Tanto no abuso de substâncias como na violência doméstica, o comportamento abusivo continua apesar dos sintomas de estresse, intimidação, sofrimento emocional, danos físicos, etc
Em termos de tolerância da violência doméstica, ocorre uma dessensibilização da vítima que passa a tolerar crescentes níveis de violência.
O campo de preocupação com o conflito e com a droga torna-se quase que estritamente voltado às prioridades relacionadas respectivamente à violência e às drogas em detrimento das demais preocupações, atividades e responsabilidades do dia a dia.
Acreditamos que o paralelo acima descrito possa servir como um norteador de compreensão das situações tanto de dependência química como de violência doméstica.
De acordo com R. Dahlke, os planos do corpo, da alma e da mente, dispostos verticalmente um sobre o outro, correspondem aos âmbitos da forma e do conteúdo. O corpo representa o aspecto formal, tanto quanto a alma como o espírito formam o conteúdo. Como uma obra de arte, por exemplo uma escultura de Michelangelo, é apreciado aquilo que ela expressa. Isto é, por mais importante que seja o material, ele vem depois do conteúdo. A lâmpada de alerta que se acende em um aparelho técnico nos leva a investigar as causas subjacentes. Quer se saber o que a lâmpada acesa significa. Entretanto quando o corpo expressa dolorosos sinais de alarme, muitas pessoas tentam subjuga-los com comprimidos sem aprofundar-se em buscar as causas. Por que justamente os sinais do corpo não significariam nada? Nossa saúde já estaria atendida se tratássemos o corpo de maneira tão consciente como o fazemos com qualquer máquina.
Ferreira, Tufik e Melo em seu estudo sobre neuroadaptação e atividade física, relatam que uso de substâncias psicoativas (cocaína, benzodiazepínicos e maconha, resulta em alterações nas principais vias nervosas, especialmente aquelas mediadas por catecolaminas, serotonina, GABA e acetilcolina; em áreas cerebrais como córtex, hipocampo, mesencéfalo, cerebelo, tronco cerebral, medula e nervos periféricos. Outros estudos, voltados à influência da atividade física no Sistema Nervoso, observaram que o aumento da exigência metabólica resulta na adaptação de diversas vias nervosas, destacando como os principais resultados uma taxa basal de catecolaminas, a normalização dos níveis de noradrenalina e dopamina nas áreas de atenção, memória e controle motor, aumento dos níveis de serotonina nas áreas do humor e diminuição nas áreas do controle motor e aumento de síntese e liberaçao de endorfinas.
As pessoas que procuram um posto de atendimento básico de saúde ou um atendimento especializado podem estar e geralmente estão psicologicamente incapazes de perceber que foram vítimas de violência doméstica. Outras, ao denunciar a violência, imediatamente retiram a queixa, pois temem, entre outras suposições, que o agressor torne-se mais vingativo. Outras ainda relutam em admitir a violência sofrida para não expor o agressor (seu marido, ou companheiro, ou pai de seus filhos) à situação de constrangimento e ou punição. Muitas estão emocionalmente bastante conectadas ( co-dependência ) ao agressor ou são economicamente dependentes.
Todos estes aspectos são barreiras, conforme cita Brookfoff, que não são usualmente explorados nos atendimentos especializados e/ou outros a estes casos. Por outro lado, há ainda muito preconceito em relação ao dependente químico, seja ele usuário de álcool ou outras drogas. A falta de conhecimento destas questões pode levar à frustração que muitos médicos e outros profissionais expressam acerca da não aderência ao tratamento por partes dos dependentes químicos e das vítimas de violência familiar.
Dança como terapia
A dança é uma linguagem universal desde tempos remotos.
É uma expressão da sensibilidade intensificada através de movimentos rítmicos, que fazem emergir uma percepção interna que estimula corpo e mente. Expressando esta percepção na forma de dança, as pessoas descontraem e se tornam mais receptivas aos sentimentos positivos e saudáveis, favorecendo, desta forma, a uma atitude de possibilidade de transformação da pessoa em agente de recuperação.
Um grupo de pessoas da comunidade, variando em torno dos 35 anos de idade, respondeu ao convite da ONG por um período de 08 meses aproximadamente para participar de sessões de aulas de dança de salão.
As sessões de dança compreendem uma atividade prazerosa e integrativa e vão ao encontro do recomendável como ação reparadora, na reconstrução da auto-estima e na possibilidade de aprender novos padrões de expressão e de comportamento através dos passos.
O repertório cultural brasileiro é valorizado com a escolha de forró e samba de gafieira, como motes de aprendizagem. A atividade, neste contexto, não foi designada especificamente para ser uma sessão psicoterapêutica clássica, porém há um efeito moderado em que se incluem falas psicoeducativas e reflexões sobre resolução de conflitos, à medida que afloram no âmbito individual e grupal.
Considerações finais
Sendo a doença uma corporalização problemática de um padrão disfuncional. Observando-se que tais padrões podem ter suas causas nos conflitos relacionados ao abuso de substâncias psicoativas ou relacionados às situações de violência doméstica, percebe-se a postura comportamental e corporal rígida destes indivíduos.
BARRETO, Adalberto - Terapia Comunitária, 2005
BROOKOFF, D; O´Brien, KK; Cook, CS; Thompson, TD; Williams, C.Characteristics of participants in domestic violence: assessment at the scene of domestic assault. Journal of American Medical Association, 277 (17): 1369-1373, 1997.
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