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A CONQUISTA DE UM CAMINHO

Capítulo 4

PROGRAMA DOS DOZE PASSOS

E havia um programa de doze passos, com a finalidade de crescimento individual espiritual. Na sala ao lado havia um tratamento para ele e o desta sala era para mim.
Os passos começavam sugerindo que eu admitisse a minha impotência perante o alcoolista. E eu já sabia dessa impotência, mas intimamente continuava achando que eu poderia cuidar dele e fazer com que parasse de beber.
O programa entrou devagar em minha mente e atitudes. Entregar-se a um Poder Superior é só uma frase quando já se perdeu quase tudo. Mas fazer um inventário pessoal lentamente, sem pressa, e descobrir as falhas do dia, era algo acessível. Era difícil e doloroso naquele momento, mas percebi que era necessário.
Quando tirei o foco do outro e o voltei para mim, eu não gostei do que vi, daquele imenso vazio dentro de mim. Tentei fugir, adiei. Mas devagar acabei aceitando. E a medida em que me percebia, avançava mais um pouquinho. Deveria continuar fazendo o inventário pessoal e sempre que necessário fazer as devidas reparações. Era todo um programa de crescimento pessoal baseado em alterações de atitudes e aprendizados.
Em mudança de comportamento no dia a dia. Pequenas mudanças na vida diária, visando outras mais profundas em minha vida. Nada para o outro. Era um programa que estabelecia metas, sem pressa, não estipulava prazos. Apenas pedia boa vontade para começar e mais, pedia que eu tivesse paciência, especialmente comigo mesma. Pedia que eu me tratasse melhor. Com o tempo percebi que com pequenas mudanças, quase insignificantes,  começava a acontecer algo bom, melhorava o astral lá de casa. Entendi que a mudança devia ocorrer de fora para dentro. Ao contrário de todas as minhas tentativas anteriores, não precisava compreender exatamente de onde vinha a emoção, o sentimento desagradável. Antes, era preciso colocá-lo de lado, não dar tanta importância a ele e substituí-lo por outro, melhor. E ir avançando devagar, sem pressa. Trocando cada pedaço de desconfiança, mal entendido, medo, ansiedade por um pouco de confiança, esperança, coragem e serenidade. Eu tinha que recuperar a capacidade de viver boas expectativas, cortar o ciclo perverso de só esperar o pior o tempo todo.
E a cada dia um tema era colocado para estudo e ninguém aconselhava ou julgava. Apenas falava e ouvia. Sem discussões, sem compromisso. O meu compromisso era com o grupo como um todo e comigo mesma.
Ninguém exigia a minha presença em números de reuniões estabelecidos e não precisava pagar nada, apenas contribuir para a limpeza e manutenção da sala. 

LEMAS

Alguns lemas davam o tom.
Vá com calma.
Sim, eu não sabia mais o que era calma.
Primeiro as primeiras coisas.
Eu estava confusa demais para fazer as coisas com ordem, coerência, não sabia onde ficava o começo.
Pense. Eu não conseguia mais pensar. Eu só sentia e reagia.

Viva e deixe viver.
Deixar que ele vivesse a vida dele, eu viver a minha vida era uma fantasia. Estava tudo misturado. Tive que  aprender a discriminar o que era meu naquela confusão.
Só por hoje. Entender que fosse qual fosse o sentimento, o sofrimento, era só por hoje, que o outro dia seria diferente. Pensar assim em relação a tudo, a alegrias também, e assim, valorizar cada momento de descontração, de calma, que ocorresse. Entender que a vida não se repete. Viver intensamente o dia presente, o momento presente. Olhar a vida e os acontecimentos com um certo frescor, com o olhar de um recém chegado. Descobrir tudo a minha volta.
Um dia de cada vez - Viver o hoje, sem criar fantasmas de um amanhã catastrófico e nem lamentar as tristezas passadas. Que lema mágico. Que alívio quando pude perceber que era possível fazer isso.

Escute e aprenda. 
Escutar também se tornara complicado. 

PROGRESSO

Aos poucos comecei a perceber a melhora, e tenho avançado na compreensão do  verdadeiro  significado de tudo isso. E as minhas atitudes começaram a mudar. E continuam mudando até hoje, vão continuar mudando pelo resto de minha vida, já que sei de antemão que não vou atingir a perfeição.
Os outros passos falavam em abrir mão e deixar que o Poder Superior assumisse as rédeas. Apontavam a minha onipotência, exacerbada pela profissão e pelos inúmeros diplomas. Mostravam-me a minha pequenez e apontavam um caminho de revisão de minha vida, de tratamento de meus relacionamentos inadequados, de busca espiritual, através de atos práticos e simples, possíveis de realizar no dia a dia. Não era uma panacéia inócua. Era consistente e lógico. Entendi o mecanismo e não paro de me maravilhar com a sabedoria dele. 
É um caminho de revisão, de melhora como ser humano, acessível a qualquer pessoa, sem qualquer tipo de crítica ou julgamento moral.
O alívio foi imediato.
Freqüentamos religiosamente todas as reuniões. Havia duas reuniões do Alanon por semana em nosso bairro e aos sábados havia uma palestra sobre alcoolismo no AA. Essa palestra era ministrada por um membro de AA, profissional da saúde ou não. E começamos a aprender alguma coisa sobre alcoolismo e seu  tratamento pela visão do AA e no modelo Minnesota.
 

A MINHA DOENÇA

Soube que muito do que eu sentia eram os sintomas da doença do familiar. Soube que essa doença se chama codependência. Essa idéia em si já me aliviou muito. Me mostrou que muito do que eu sentia tinha a ver com o meu relacionamento complicado comigo mesma e com o outro, e que havia uma esperança para mim.
Descobri que o que eu sofria devia ter nascido do relacionamento com meu pai abusador de álcool, com a minha família disfuncional, e se agravado na convivência com um dependente. Entendi porque não me ajustei ao compromisso com um  rapaz normal e precisei de um dependente em minha vida.
Aprendi  gradualmente que  ninguém tem culpa ou é  responsável pelo  modo de beber de uma outra pessoa, que alcoolismo é doença e mais, tratável.
Isto de ser tratável era uma novidade. Apesar de ter convivido e tratado por muitos anos de alcoolistas, no hospital, eu não aprendera sobre o tratamento específico. E a grande dificuldade era vê-los saírem de uma longa internação para tratamento de graves complicações relacionadas com o seu alcoolismo e mal chegando à rua, voltarem a beber.
Eles morriam e morriam muito jovens, na casa dos trinta e até dos vinte anos, com pancreatites ou cirroses. Era um despropósito.
Nos grupos, vi outra realidade, conheci vários alcoolistas de ótima aparência e bem postos na vida que um dia estiveram pelas ruas sem jeito ou até nas sarjetas. Que reconstruíram suas vidas depois de terem perdido tudo. Família, dinheiro, saúde, amigos, dignidade. Pessoas que continuavam abstinentes por cinco, dez, vinte e até trinta anos.
Descobri que a partir dos grupos de mútua ajuda nascera nos EUA um modelo de tratamento integrado, que trabalhava articulado com os grupos. E que este modelo de tratamento salvava muita gente.
O meu companheiro teve outra chance. Iniciou tratamento com um psiquiatra indicado por um amigo do AA. Ficou abstinente algum tempo, recaiu, depois submeteu-se a um outro tratamento, parou mais uma vez e está abstinente até hoje.
Vi um mundo que eu não conhecia e que entendo ser desconhecido por muitos profissionais da saúde, e pelo meio acadêmico. Pelo menos, que eu saiba, a maioria dos profissionais desconhecem a ação desses grupos. Como eu, conhecem por ouvir dizer.
Ao contrário, notei que muitos dos que freqüentam os grupos se atualizam sempre. Participam de congressos médicos, lêem revistas, livros, muitos livros sobre o tema. Mesmo não sendo da área. Recentemente, soube de um novo medicamento para o alcoolismo através de uma companheira do Al-Anon, e só depois na universidade. Essas pessoas lêem muito, além da literatura específica dos grupos, há um número grande de publicações relacionadas à saúde mental, espiritualidade que permeia os grupos, sem ser recomendada diretamente. Uma das tradições recomenda o uso nas reuniões somente da literatura aprovada pela Central.
Essas pessoas estão quase sempre ligadas às novas possibilidades e descobertas da ciência.
Elas também buscam tratamento em todas as propostas disponíveis.
Há um número muito grande que faz terapia e outros tratamentos além de freqüentar as reuniões. 

CODEPENDÊNCIA

O alívio que senti foi muito grande. Isto porque a vida toda eu procurara tratamento e de alguns anos para cá começava a duvidar de minha sanidade mental, tal o tamanho do desequilíbrio e sofrimento. Parecia que neurose era pouco para explicar o que eu sentia.
Eu não entendia como, usando tudo o que eu conhecia dentro da medicina, freqüentando os melhores especialistas, eu não melhorava. E piorava dia após dia. Até chegar a uma depressão muito grave.
No Al-Anon entendi.
O meu percurso dentro do tratamento no grupo de mútua ajuda foi diferente do de meu companheiro. Desde o primeiro dia comecei a melhorar e a percorrer o caminho da recuperação. Às vezes tinha uma recaída, fazia um ziguezague, mas logo voltava a meu percurso longo e lento, porém firme. Não faltava a uma reunião sequer. Íamos mesmo embaixo de chuva, com frio intenso, em qualquer condição. Ele me acompanhou por alguns anos. Depois se afastou, ficou uns tempos sem freqüentar e voltou novamente para os grupos há algum tempo, já.
Uma certa ocasião, no começo, por cerca de três meses eu fiz o que eu chamo de verdadeiro tratamento intensivo. Freqüentava algum tipo de tratamento de Segunda a Sábado. E não era por fanatismo, não, eu estava muito doente, eu me sentia muito mal e queria melhorar.
Na verdade dos grupos que eu participava, um deles, duas vezes por semana, era um grupo de orientação para familiares e eu estava fazendo um estágio. Mas funcionava como tratamento para mim.
Aprendi a cuidar de mim e deixar que ele se cuidasse. Por isso nunca o aborreci nos vários meses em que não participou de grupos. No começo não era fácil, porque estava muito habituada a controlar. Mas aos poucos fui deixando o comando da vida dele por sua própria conta. 

RECAÍDA

Ele fazia tratamento com o psiquiatra indicado pelo seu colega de AA quando viajei para um congresso e fiquei 4 dias fora. Eu o  deixei abstinente havia alguns meses já. Quando cheguei e abri a porta ele estava sentado no sofá e a sua frente o  copo de bebida. Foi como se eu tivesse levado uma pancada. Por estar freqüentando os grupos, não briguei. Passei direto e fui desarrumar as malas. Lembrei os lemas do Alanon - vá com calma - primeiro as primeiras coisas - pense - e me lembrei do que diziam os companheiros.
Não falei nada aquele dia. No dia seguinte conversei com ele, com calma e disse que eu não tinha condição de conviver mais com alcoolismo.
Disse mais, que não queria que ele bebesse em casa. Não queria ver aquela cena que me maltratava. Na verdade esta minha fala também era porque eu imaginava que ele pudesse querer parar de beber por causa de mais esse empecilho. Ele sempre bebera em casa. Talvez parasse. Nunca havia imaginado que ele pudesse beber em bares.
É um homem muito digno, de boa educação e de muita classe.
De uma família com uma história interessante e cheia de orgulho. Eu não sabia o quanto essa doença é destrutiva.
A partir desse dia ele começou a beber no bar ou na padaria da esquina.
 

INTERVENÇÃO

E eu continuei procurando meio de uma abordagem para que ele fosse mobilizado.  Falei com todos os colegas que conhecia e lia tudo que via a respeito. Eu ainda não estava bem, mas bem melhor.
Um companheiro de AA fez várias palestras e assistimos pelo menos duas vezes, sobre Intervenção Orientada. Uma abordagem para romper com a resistência do dependente para o tratamento, nascida nos EUA, Instituto Johnson, há mais de 20 anos e que lá era feita com muita freqüência com êxito muito grande.
Às vezes passava pela minha cabeça que seria uma solução, porém era uma última instância e eu continuava buscando alternativas.
Esse amigo me dizia que no nosso caso, se eu tivesse coragem de deixá-lo, com a condição de só retornar se ele se tratasse, ele procuraria tratamento. Eu não tive coragem.
Mas com o tempo percebi que havia agravantes. Ele corria sérios riscos, pois tinha que atravessar uma rua movimentada, na sua volta do bar para casa e continuava dirigindo o seu automóvel.
Falei com os seus filhos que mais uma vez se reuniram com ele para pedir que se cuidasse. Falei com seu amigo mais fiel e assertivo e este também tentou mais uma vez. Nada.
Juntamente com seus filhos, com o apoio de alguns poucos parentes e amigos, tomei a iniciativa da abordagem  proposta pelo nosso amigo. Partimos para a Intervenção Orientada.
Pensávamos que talvez não funcionasse porque ele conhecia o método, havia assistido palestras e lido um livro sobre o assunto, e era médico.  Mas funcionou. 

O MÉTODO

Consiste em  um preparo das pessoas mais significativas emocionalmente, do dependente, através de três ou quatro sessões, para que de uma só vez, num dia combinado, com muita técnica e cuidados especiais, falem a ele do seu amor por ele e da sua preocupação com o seu estado e cada um pede que ele se trate. Quando dessa reunião, já deve estar preparado um leito em uma clínica para os casos que requeiram internação e o paciente, via de regra vai direto dessa reunião para a clínica.
É um ato amoroso em conjunto e todos ficam emocionados. Quase todos choram e isso contribui para o clima. E funciona.
Meu companheiro ao se deparar com o grupo e com o companheiro de AA, percebeu logo na entrada do que se tratava. Ouviu o que tínhamos a lhe dizer e ao final perguntou pela mala e qual a clínica em que ficaria. 

MEUS MEDOS E FANTASIAS

Durante esse processo o meu sofrimento foi muito intenso. Eu tinha inúmeros temores. Um deles, era sobre a pressão que ele sofreria,  sobre a sua saúde física. Ele tinha um coração muito trabalhado, que vivia  sob um regime de hipertensão arterial havia muitos anos, arritmias cardíacas tratadas com medicamentos.
Vários exames feitos davam conta de um provável infarto anterior, apesar de ele relatar um episódio de dor incaracterístico em que não buscou tratamento.
Eu me sentia responsável pelo que lhe acontecesse nessa internação. Como sempre, eu me responsabilizava por tudo. Imaginava que ele poderia sair e romper comigo, por raiva, por sentir-se traído ou sei lá mais o que. Pensava que a internação era idéia minha e se ele tivesse alguma complicação, se ele morresse, eu teria que prestar contas a seus filhos. Eu nunca tive tanto medo em minha vida.
Mas, no fundo eu sabia que ele sabia. E ele sabia.
De tudo. Do meu amor, da necessidade de tratar-se, da sua dificuldade em fazê-lo sem ajuda. Eu confiava e ele sabia.
Por mais que negue, a autoestima do alcoolista está muito baixa e mesmo que se sinta coagido, ele sente que o ato é amoroso e isto lhe dá ânimo para tentar enfrentar o que ele tanto teme. Sim, porque a decisão de parar de beber é muito estressante. Na verdade, numa fase mais evoluída da doença ele não se sente amado e nem os familiares tem condição de explicitar o amor que sentem, muitas vezes. Além de avivar esse amor meio adormecido, muitas vezes, trata-se de um confronto programado, de uma coerção construtiva. 

TRATAMENTO

Tive muitas dúvidas durante o seu período de internação. A culpa, o medo e a ansiedade eram grandes demais para que eu sossegasse. E mais, na clínica, longe dos meus olhos, eu não podia controlar nada. Nos primeiros dias senti um grande alívio, mas aos poucos surgiram as dúvidas. Pensava que a clínica podia não ser boa, que podia ser que houvesse outra saída. Que eu poderia ter  sido muito radical.
O grupo do Al-Anon me deu o apoio amoroso de que eu precisava e o diretor e os terapeutas da clínica, várias vezes me ouviram e conseguiram com sua serenidade, me tranqüilizar.
Quando teve alta continuou freqüentando os retornos normais da clínica e o ambulatório por algum tempo e não voltou logo ao AA.
Quando saía para o meu grupo de Al-Anon, às vezes perguntava se queria ir comigo. Dizia que não. Eu ficava incomodada, mas tinha aprendido que não tinha nenhuma possibilidade de demovê-lo se ele não quisesse. Então muitas vezes nem perguntava se queria ir, só avisava que estava indo para o meu grupo.

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