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A CONQUISTA DE UM CAMINHO
Capítulo 2
COMPANHEIRO
Um dia numa
igreja, rezei com muita devoção e pedi a Deus uma companhia. Queria alguém que
fosse companheiro, amigo. Eu estava muito só. A esta altura, já sem minha mãe,
eu raramente via aos meus.
Ele apareceu. Era um belo rapaz, loiro, 1.80m, olhos claros, bem vestido e
educado. Logo no primeiro contato notei que ele ficou impressionado comigo.
Iniciamos uma relação que durou mais de três anos. Ele fumava e eu disse a ele
que não gostava. Ele deixou o cigarro. Ele tinha parado de estudar depois do
colegial, argumentei que poderíamos ter problemas por eu ser formada e ele não.
Prestou vestibular e começou a estudar. Ele sabia cozinhar e me ajudava nas
tarefas de casa. Ele me acompanhava em todas as minhas manias. Viajar muito e
acampar era uma delas. Fomos até Pernambuco em barraca de camping. Íamos quase
todo final de semana para a praia ou campo. Eu estava com ele quando meu pai e
depois o ex-marido faleceram.
Aos poucos, porém, sem entender porque, eu fui me entristecendo e me cansando
dele. Um dia disse a ele que não queria mais continuar com o compromisso e
acabamos.
Creio que só recentemente entendi o porque do desacerto. Se não estou enganada,
tem a ver com codependência.
Nesses anos, final de setenta, comecei a freqüentar a faculdade de Belas Artes e
me formei em Educação Artística. Era cansativo mas muito bom, um modo de fazer
algo prazeroso. Saía do ambulatório e do hospital onde testemunhava e
participava de todas as misérias e tristezas possíveis ao ser humano e entrava
em outro mundo. Era um mundo onde as pessoas se permitiam um pouco de liberdade,
de criatividade.
O próprio prédio onde a escola funcionava já me impressionava pela beleza. Havia
colegas muito jovens e outros mais velhos e todos se sentiam contagiados por uma
espécie de magia.
Muitas vezes ficávamos em bando, conversando, tomando uma cerveja, até tarde,
numa padaria próxima, ao lado de caminhoneiros beberrões e outros tipos menos
recomendáveis.
Bem mais velha, liguei-me a umas três meninas de vinte anos mais ou menos e
saíamos juntas, outras vezes elas passavam finais de semana em minha casa,
quando se produzia de tudo - fotos, comidas deliciosas, costuras, pinturas.
Ouvíamos muita música. De todos os estilos possíveis. Elas pediam permissão para
os pais e eu tinha que telefonar dizendo que elas estavam comigo. Foi um tempo
especialmente bom.
O ambiente era gostoso. Eu me lembro que todos ficavam muito à vontade. Um rapaz
que era homossexual, o que ninguém imaginaria em seu ambiente de trabalho ou em
sua casa, lá na escola, soltava gritinhos, mostrava a foto do namorado, sem
constrangimento.
Uma vez estava sentada na escada e uma dupla começou a dançar um rock n"roll
anos sessenta, muito bem marcado. Dançaram por uns dez minutos. Em silêncio, não
havia música.
TRATAMENTOS - NEUROSE
Eu jamais
ignorei a minha neurose, a minha dificuldade de relacionamento comigo mesma e
com o mundo e desde a universidade procurei tratamento. Colecionei terapias. Fiz
quase todas as conhecidas. Nenhuma delas me pareceu suficiente para mobilizar
alguma coisa importante dentro de mim. Cada uma delas acrescentava muito pouco.
Parecia que tirava uma poeirinha de uma montanha de escombros. Era como eu me
sentia, depois de alguns anos - uma montanha de escombros. Freqüentava
terapeutas conhecidos no meio médico pela eficiência e isto me deixava pior.
Parecia que eu não tinha jeito mesmo.
O fato de não obter melhora com esses tratamentos era uma questão que me
incomodava muito. Num desses tratamentos, terapia analítica, fiquei três anos
com duas sessões semanais, gastando muito do meu magro ordenado de servidora
pública. E sinceramente não percebi melhora.
UM ALCOOLISTA EM MINHA VIDA
Um dia
reparei num colega de trabalho. Era um homem interessante, muito educado e
triste. Era mais velho do que eu e tinha uma vida familiar meio complicada.
Ele percebeu o meu interesse e ficou por perto. Eu levava fotos dos colegas da
escola de arte, das viagens e ele se interessava por tudo. Depois de algum tempo
começou a me cortejar, iniciamos um relacionamento e acabamos morando juntos.
Ele bebia, mas no começo não me pareceu haver nada errado com o seu modo de
beber. Eu sempre arrumava desculpas pelos seus excessos, que com o correr dos
anos foi se amiudando.
A minha vida profissional continuava complicada e eu sentia dificuldade em
adaptar-me ao sistema. Mas o processo de derrocada porque passava a saúde fazia
com que eu projetasse o meu sofrimento fora de mim. E havia muitos motivos para
frustração.
Continuei colocando a minha energia no que eu gosto de fazer - estudar. Fiz
muitos cursos de especialização e fui me cansando, exaurindo. A vida numa cidade
grande como São Paulo é muito desgastante e eu encontrava motivos de sobra para
minha fadiga contínua. Era o trânsito, a distância de casa ao trabalho, a
indignação com os casos de pacientes que morriam desassistidos dentro do sistema
de saúde, o cansaço. Ao mesmo tempo a qualidade de nossa vida foi se
degenerando. E ele bebia sempre um pouco mais. Depois do jantar estava sempre
embriagado.
E eu cansada e só.
DESCONTROLE
Fiz tudo que
imaginei pudesse evitar o seu uso de álcool, ou diminuir o consumo. Escondi
bebida, joguei na pia bebidas caras na idéia ingênua de que ele assim beberia
menos, briguei, exigi, adulei, prometi, enraiveci, bebi junto, ameacei. De nada
adiantou. Mais tarde pude perceber que as esposas de alcoólicos fazem tudo isso
e às vezes mais. Conheci uma que chegou ao refinamento de colocar água na
garrafa de uísque para diminuir o teor alcoólico. Mas ela descobriu que ele
então, bebia muito mais. Muitas bebem junto uma vez ou outra. Para que sobre
menos para ele beber ou para que ele perceba como é desagradável ficar com uma
pessoa embriagada. Muitas, como eu, fazem marcas no nível da garrafa para saber
quanto ele bebeu. De nada adianta.
E o pior é que eu fazia tudo isso e não compartilhava com ninguém. Eu não
conseguia falar sobre isso. Era um peso grande demais. Eu me sentia culpada. Eu
não sabia que eu não era responsável pelo seu modo de beber.
Ele devia estar bebendo porque eu não estava correspondendo às suas
expectativas, porque havia me encontrado e operado uma grande mudança em sua
vida e tinha saudades de outros tempos, era infeliz comigo. Alguns amigos seus e
até parentes haviam desaprovado a nossa união e então ele perdeu amigos por
minha causa, pensava.
Ou talvez fosse porque eu estava sempre tão cansada, tão aborrecida. Um dia ao
telefone um de seus filhos me disse "eu pensei que o papai tinha ido para aí,
para estar bem, viver feliz, mas ele está mal, bebendo sempre”.Como foi duro
ouvir isso, e foi duro porque eu também pensava assim. Ele nem imaginava tudo o
que eu fazia para que seu pai não bebesse. Ele não sabia do meu esforço e nem do
meu sentimento de culpa.
Eu sentia muita raiva também. Daquele homem ali, estacionado meio sem vida.
Daquele jeito de se entregar.
Algumas atitudes dele me davam conta de um sinal incômodo de busca de um canto
para esperar a morte. Esta idéia marcava e aborrecia. Eu queria viver.
Cobrei dele vida, passeios, atitudes positivas. Mas ele não as tinha. Eu me
senti traída.
O FOCO NO OUTRO
Era doloroso
demais ver esse homem que eu tanto amava, dia a dia mais distante, mais
ausente, sabendo que o final era a morte. Eu não podia compactuar com o seu
suicídio. Mas eu não sabia o que fazer. Tudo o que eu tentava não resultava em
nada positivo, ao contrário, ele bebia mais. A sua reação a qualquer estímulo
era o copo.
Era insano, não tinha lógica. Eu que sempre gostei de entender as coisas de
maneira clara, analisando item por item, me vi frente a um problema que não
tinha lado, não tinha por onde pegar ou começar. E eu não tinha mais ninguém. Os
meus estavam cada vez mais distantes e eu não podia me aproximar naquelas
condições. Eu evitava falar dele para os meus irmãos, para os amigos. Guardava
tudo comigo.
E eu fui ficando cada vez mais estressada, aborrecida e isolada. Aos poucos o
meu objetivo passou a ser o controle de sua vida. Ele era uma obsessão. Pensava
nele e no seu modo de beber, 24 h por dia. Telefonava do trabalho para ele,
queria saber onde e como ele estava a cada minuto do dia. Não saía, para não
deixá-lo sozinho, porque senão, por estar só, ele beberia mais, fazia tudo com
pressa para chegar logo em casa e ficar com ele. E quando eu ficava com ele, ele
bebia e bebia. Eu pedia, eu implorava e de nada adiantava.
Nessa situação eu não percebia o quanto isto me prejudicava, o quanto fui
deixando as minhas necessidades, as minhas atividades, a minha vida, para viver
a vida dele.
ISOLAMENTO
Ao mesmo
tempo nos isolávamos cada vez mais. Perdi o contato com os amigos e a família.
Freqüentávamos muito raramente uns dois ou três amigos dele. As viagens que
sempre fizeram parte de minha vida foram se espaçando. As que conseguimos
realizar aconteciam depois de um processo extremamente desgastante de
convencimento e manipulações mútuas. Nem ao cinema, que tanto gostávamos, íamos
mais. Fiquei anos sem visitar o MASP. A algumas festas que ousávamos comparecer,
o final trazia um resultado constrangedor. Eu permanecia o tempo todo tensa,
observando, tentando controlar o seu modo de beber. Não conseguia me divertir
nem um pouquinho. Ao contrário, festas eram sinônimo de mais sofrimento.
Ele invariavelmente terminava embriagado e eu envergonhada, procurando
justificá-lo. Inventava explicações, cheguei a dizer que ele sofria de tonturas,
que devia ser labirintite. Eu justificava tanto que acabava acreditando em
minhas próprias desculpas. Se acaso fôssemos ao cinema depois do almoço ou
jantar, ele dormia. Se ele se queixasse do filme que eu havia escolhido, e era
eu quem escolhia sempre, eu morria de culpa, por ter escolhido aquele filme. No
cinema, ficava o tempo todo observando para ver se ele estava gostando do filme.
No fim eu nem sabia se eu mesma tinha gostado ou não.
Fui assumindo os encargos dele. Comprava suas roupas e depois de algum tempo,
até sapato. E isto é um absurdo. A coisa mais difícil de comprar que eu conheço,
são sapatos. Sem experimentar é impossível acertar. Descobri depois que muitas
esposas de alcoólicos fazem isso.
Fui assumindo tudo, os cuidados com a casa, com os carros. Lembrava os
aniversários dos filhos, das festas, todos os compromissos.
Cheguei a comprar outro carro para ele quando o dele ficou muito ruim. Eu, que
até hoje tenho enorme dificuldade de escolher um para mim mesma.
O AGRAVAMENTO DOS SINTOMAS
Aos poucos
fui me tornando controladora, autoritária e intolerante. E me sentia mal por
perceber-me assim. Sentia-me culpada e rejeitada e entendia o porque da rejeição
por conta do meu mau humor, um mau humor que eu não conseguia controlar. Acima
de tudo não me sentia amada. Se ele me amasse da forma que dizia, ele pararia de
beber, eu pensava. A cena invariável que encontrava em casa fazia com que
tivesse vontade de sumir. Mas eu não tinha o direito de sumir, eu precisava
cuidar dele.
A visão invariável, anos a fio, dele sentado no sofá com o copo na mão à minha
chegada, era dolorosa.
Não só ele, mas muitos alcoólicos têm dificuldade de ver o quanto é doloroso
para o familiar acompanhar esse comportamento. Muitos dizem que não são
agressivos, não espancam, não fazem mal. E não é verdade. Assistir alguém, um
ser querido, nessas condições é extremamente pesado e eu diria mesmo, violento.
Quando éramos convidados para uma festa ou comemoração qualquer, eu preparava
com antecipação a hora e o modo de lhe dizer. Estava sempre preparada para cada
tipo de resposta que ele pudesse dar, no sentido de conseguir acertar a nossa
saída, ou não. Isto porque ele não tinha a menor disposição para sair, nunca, e
eu não o deixaria só. Aprendi a fazer o jogo, a manipular. Era sempre uma
batalha, um duelo cansativo e irritante. Com o tempo entreguei os pontos e não
saia mais. Não tinha energia suficiente.
MUDAR ALGUMA COISA
Tudo que
tentei para acertar a nossa vida não deu certo. Quis mudar para o interior e
não deu certo. Depois de um processo muito complicado, cheio de mal entendidos e
mágoas, mudamos de casa. Tentei engravidar e não consegui. Tomei hormônios para
estimular a ovulação, pois já estava com mais de 35 anos e nada. Quando parei de
menstruar não era gravidez, ao contrário, era menopausa precoce, antes dos 40
anos de idade. Acabei deprimida e amarga. Sofri um climatério extremamente
sintomático, com ganho ponderal, insônia, ondas de calor, sudorese profusa,
irritabilidade, depressão, taquicardia, prisão de ventre e queda de cabelo.
Perda de cabelo em situações normais de vida pode ser desagradável, em
circunstâncias mais complicadas pode se tornar uma pequena tragédia.
Eu não tinha energia e nem disposição sequer para procurar tratamento adequado e
a crise foi se aprofundando. Éramos duas pessoas extremamente doentes que não
tinham capacidade de se perceber. Muito menos se ajudar.
TIA
Ele tinha uma
tia de quem eu gostava muito. Era já muito idosa, porém muito ativa e agradável.
Nos visitava sempre e íamos à sua casa no interior. Na verdade éramos os
sobrinhos mais próximos dela. Um dia, perto dos 90 anos ela me falou de medo do
futuro, do fim. Eu disse que ela poderia ficar conosco, quando quisesse.
Ela morou sozinha até os 92 anos de idade. Fazia o serviço de casa, suas compras
no mercado, crochê e bordado. Tinha uma vida tranqüila. Aos domingos fazia pães.
Um dia quebrou o braço e perdeu sua autonomia.
Nós a trouxemos para casa, ela ficou conosco até quase os 98 anos de idade,
quando morreu. Era uma pessoa especial, muito querida. Mas precisava de cuidados
especiais. Aí a nossa vida ficou muito mais complicada. Era um entra e sai de
enfermeiras, um leva e traz para fisioterapia, ortopedia. O seu braço nunca
ficou bom e ela foi se tornando cada vez mais dependente. Contratamos moças para
cuidar dela e essa invasão foi uma complicação a mais em nosso mundo já tão
cheio de aborrecimentos. Mas tinha um lado bom. Enquanto cuidava dela escapava
um pouco do meu problema e eu exercitava o meu sintomático lado "tomador de
conta". Ela nem tomou conhecimento do que se passava. Apenas uma vez me disse
que ele bebia muito. Eu fiz o máximo que pude por ela e ainda assim me sentia
culpada, em falta. Porque nem sempre tinha condições de ficar com ela, conversar
do jeito que ela esperava. Porque eu sempre me senti culpada por tudo.
Eu vivia muito cansada mas tínhamos os nossos momentos de descontração. Ela só
aceitava que eu cortasse as suas unhas, e aí nos sentávamos na varanda e ela me
contava coisas dos anos dez, vinte ou trinta, como se fosse ontem. Pintou
algumas vezes comigo e quando eu trazia um novo quadro para casa ela se
maravilhava e dizia "esplêndido", "você ainda vai fazer nome".
A nossa casa era quieta demais com a tia calma e tranqüila, o companheiro também
silencioso. Um dia trouxe um filhote de cocker para casa. Ainda me lembro da
felicidade da tia, quando coloquei em seu colo, aquela bolinha de pêlos claros.
Ensinei a empregada a deixar que a cachorrinha a despertasse pela manhã. Ela
ficava feliz acordando com as lambidas em seu rosto. Beijos, ela dizia. Quando
ela entrou em demência senil, dois meses antes de morrer, achei que teríamos que
interná-la. Mas levamos até o fim. Se ela morresse longe de nós, nenhum dos dois
suportaria a culpa, entre outras coisas.
A empregada cuidava dela com muito carinho e paciência.
Ela morreu em casa, sem ter sido hospitalizada. Acho que foi bom, fez bem para
os dois lados.
Não me queixo, mas olhando agora vejo aí os traços de meu comprometimento, de
minha necessidade de cuidar de pessoas.
PREJUÍZOS
Com tudo isso
eu continuava cuidando de casa, trabalhando e tentando exercer a atividade mais
importante de minha vida naquele momento - controlar o modo de beber do meu
companheiro.
É óbvio que nada deu certo e o resultado ruim ainda agravava a minha depressão e
ansiedade. E o estado dele também foi piorando.
No trabalho, por mais que eu me esforçasse para ter uma atitude normal, acabava
agindo de modo a comprometer as minhas atuações. Jamais vou saber se prejudiquei
muitos pacientes. Sei que me esforçava para atendê-los da melhor maneira, e foi
o que fiz.
As dificuldades normais que foram se tornando mais complicadas com o agravamento
da crise do setor saúde seguiram em paralelo com a minha crise pessoal. Eu não
me conformava com o que acontecia e como era obrigada a tratar os meus
pacientes. Eu não me conformava com o descuido, a falta de profissionalismo com
que era administrado o hospital, com as chefias que fingiam não ver os maiores
absurdos. Alguns itens, que provocavam prejuízo imediato aos pacientes, me
pareciam inaceitáveis. Eu me queixava para a chefia, para o diretor do
hospital, e iniciava inúmeros processos que acabavam engavetados e isso me
deixava mais irritada e deprimida.
Cada paciente sem dinheiro para o medicamento, para a condução, que aparecia no
consultório, me remetia à infância e as inúmeras vezes em que junto com minha
mãe, atravessava a cidade a pé, sob o sol do meio do dia para a consulta com o
único médico que não cobrava dos pobres e esperava pela salvadora amostra
grátis.
Lá, na distante cidadezinha do interior, ninguém voltava para casa sem
atendimento. Aqui, era impossível, os pobres eram incontáveis. Muitos retornavam
desassistidos.
Quando pedi afastamento por uma ano para fazer um curso, a chefia encontrou a
chance de se desfazer daquela funcionária tão encrenqueira. Quando retornei do
curso, passei por vários departamentos e por fim, no auge da ansiedade e
depressão, com o marido doente, com um câncer no intestino, acabei tendo que
aceitar algo para o que eu nunca estive preparada, além de não gostar e nem
querer. Tive que atender em pronto-socorro.
Era um hospital de periferia e protagonizava cenas de filmes de terror. Foi a
época em que os médicos romperam com a tradição e começaram a faltar aos
plantões. E eles faltavam, sendo que raramente a equipe trabalhava completa, num
movimento capaz de tirar a serenidade até do mais plácido monge tibetano.
Além do excesso de pacientes, que com freqüência tinham que ser acomodados em
corredores, em macas, ou no chão mesmo, tinha que lutar com as falhas do sistema
que iam desde falta de outros profissionais relacionados, de medicamentos
básicos, gaze, aparelho para medir pressão arterial, vaga para internar os
graves e dificuldades para transferir pacientes para outros serviços.
Não é difícil imaginar como eu me senti então e como isso deve ter contribuído
para o agravamento de minha doença.
Percebi que o meu caminho ali, naquele PS era a completa insanidade. Uma vez, às
vésperas da internação do meu companheiro, eu o deixei muito mal em casa,
desidratado, com vômitos e saí para as minhas vinte e quatro horas de mais
sofrimento. A minha vontade era levá-lo comigo e o medicar lá, enquanto eu
trabalhava. Mas não consegui convencê-lo. Ele ficou sozinho em casa.
Era véspera de Natal e ao chegar ao PS, já em cima da hora, senti um arrepio,
nenhum dos médicos escalados para aquele plantão havia assinado o livro de
ponto. Fui à sala de repouso procurar por algum colega. Se estivesse sozinha,
não ficaria, faltaria como os outros. Era absolutamente impossível e até
perigoso permanecer só num plantão naquelas condições em dia de festa. Isto
porque os pacientes ficam agitados, nervosos e só tem a equipe para demonstrar o
seu descontentamento. Vários médicos e outros funcionários já foram agredidos em
situações parecidas.
Por fim, depois de andar pelos corredores, encontrei um filho de Deus, um dos
médicos que não costumavam faltar e dividimos este plantão, que para mim,
acabou sendo o pior Natal de minha vida.
Nós dois cobrimos os habituais seis plantonistas da equipe.
Alguns dias depois meu companheiro foi internado de urgência e acabou sofrendo
uma cirurgia para retirada de uma parte do intestino, tendo permanecido
internado por quase um mês.
No terceiro mês, sem condições de continuar, apelei para a diretora de recursos
humanos, uma pessoa muito especial que me ouviu, entendeu e ajeitou a minha
vida, me designando para um atendimento mais leve, numa função que eu podia
exercer em outro local. Foi como sair de um pesadelo.
Desse trabalho, que tinha prazo para terminar, acabei indo parar numa função
administrativa, que se por um lado não me agradava, por outro, era como uma
benção, porque eu não estava em condições de fazer quase nada e lá eu poderia
ficar e até não fazer nada, se não conseguisse. Foi o que fiz por uns tempos.
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