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A CONQUISTA DE UM CAMINHO

Capítulo 5

RECOMEÇO

Começamos a percorrer o caminho inverso, com a espiral para cima. A vida começou a melhorar em todos os sentidos.
Ele, de regra muito fechado, não demonstrava muita alegria pela clínica não. No dia, muitos meses depois, em que ele comprou um presente para a sua terapeuta, eu vibrei. E os dias seguiam  sempre com novidades. Ele começava a descobrir o ambiente e a buscar como preencher o seu tempo. E era muito interessante acompanhar a sua evolução. Na verdade ele sentia-se mesmo como o "belo adormecido" que despertara e a cada dia "descobria" algo de que se esquecera nos anos de intoxicação.
 Eu continuava me tratando e comemorava cada pequeno avanço seu com muita alegria.  Eu sempre dizia para os amigos, que ele, um dia, iria trabalhar com dependência de drogas, apesar de não conversarmos a respeito.
Mas era um tempo de muita dor ainda. Estávamos ambos muito magoados e por razões diferentes nos sentíamos meio traídos. Ele percebia que não havia outra alternativa para ele, percebia que com essa atitude ele tivera a chance de retornar a vida, mas, no íntimo, não me perdoava. Ele costumava dizer que era como se tivessem tirado uma cortina de sua frente, mas no dia a dia demorou para mostrar-se afável comigo.
Com toda a dor que eu carregava, era muito difícil entender que ainda teria que esperar que a mágoa dele passasse.
Entramos numa fase ruim com distanciamento e pensamos que não conseguiríamos refazer nossas vidas juntos. Pensamos em separação. E nesse ponto, fomos atrás de mais ajuda. Uma terapeuta de casal nos apoiou e superamos mais esta fase. E o interessante é que estávamos cientes de se tratar de uma fase, mas era muito difícil controlar nosso comportamento, mudar  nossas   atitudes.
A terapeuta, o AA e o Al-Anon  nos ajudaram.
Quando me contou que tinha sido convidado para trabalhar como voluntário na clínica e que tinha aceitado o convite, fiquei radiante.
Para mim, foi como um certificado do sucesso de sua recuperação.
Seus filhos deram-lhe um computador e ele começou a se interessar e estudar informática.
Um dia ele descobriu um grupo de AA na Internet. Achou bom, curioso, interessante. E passou a se comunicar com os companheiros. Fez amigos em todo o Brasil e mesmo no exterior.
Um dos companheiros que ele conheceu pela Internet era nosso vizinho e logo nos conhecemos, a ele e a sua esposa. Um dia o convidou para ir ao seu grupo, aqui perto de casa. Foi, voltou e agora não perde uma reunião. Toda semana está lá, com os seus novos amigos. Já estivemos com vários de seus novos amigos em São Paulo e em outras cidades também.
Com a sua recuperação ele acabou sendo um grande apoio para mim. Começamos a entender as nossas diferenças e a agir de um modo mais razoável e ele teve muita paciência comigo no meu percurso.

RECUPERAÇÃO

Inicialmente eu não conseguia acompanhar tudo no grupo do Alanon, por conta da minha ansiedade e dificuldade de concentração. Mas me esforçava, me obrigava mesmo a ficar. Era doloroso as vezes ficar sentada na cadeira dura por duas horas sem poder acompanhar tudo, com a mente e o peito oprimido e doloridos.
Era difícil levantar cedo, porém era ruim ficar na cama também.  Era difícil cuidar de mim mesma. Tomar banho, pentear os cabelos, alguns dias, se tornava uma tarefa muito penosa. Tudo era ruim. Tive períodos de insônia e períodos de extrema sonolência onde dormia o tempo todo que estava em casa. Não gostava de ficar em casa e nenhum passeio me agradava. Não queria ficar sozinha, mas as pessoas me irritavam e aborreciam. Estava com depressão ansiosa. Houve um agravamento da depressão quando ele começou o processo de recuperação. É freqüente que a companheira se deprima, quando perde o objeto de seus cuidados, para e verifica onde está, e como está a sua vida. Quando se dá conta do vazio, das perdas e descaminhos. Há uma depressão reativa normal. A minha foi sobreposta pela outra e agravada pelas alterações hormonais.  

SAÚDE FÍSICA

A fadiga crônica em que eu vivia, me parecia que determinava uma série de sintomas. Assim, me parecia normal o cansaço diário, mesmo quando eu não fazia nada, uma certa fraqueza, um mal estar. Percebi que todo dia lá pelas quatro da tarde eu me sentia mal. Uma moleza, uma sonolência meio diferentes do que eu sempre sentia. Pensei em virose, infecção crônica. Cheguei a fazer alguns exames e depois deixei para lá. Tomava muito café numa tentativa de me reanimar.
Viajei para o interior e cheguei lá com um cansaço extraordinário. Pensei que tivesse a ver com a depressão, mas tinha algo diferente. Percebi algumas vesículas dolorosas na pele  e diagnostiquei herpes zoster. Estranhei porque a minha imunidade sempre fora muito boa. Cheguei a questionar com os meus botões, o porque daquilo agora. Os meus cabelos estavam muito ralos e eu creditava à menopausa precoce. Depois, quando trabalhava num hospital havia diagnosticado  tireoidite. A minha tireóide estava inflamada e estava se destruindo, num processo autoimune.
Há pouco mais de um ano tive uma intensa dor num dos braços. E eu não conseguia entender do que era proveniente. Notei que era uma dor diferente das que eu eventualmente tivesse por cansaço ou trauma. e depois de algum tempo me  dei conta de que não era só o braço que doía. Havia dores musculares em todo o corpo e dores articulares e a fadiga era mais constante e maior. Um discreto edema nas mãos me incomodou um pouco mais. No final do inverno passado, enquanto lavava as mãos em água fria notei que os meus dedos ficavam roxos ou brancos, sem sangue. Diagnostiquei o fenômeno de Raynod com algum incômodo, mas minha mãe também tivera esse tipo de disfunção, poderia ser genético.
Mas por fim, juntando tudo, mais alguns exames de laboratório e a médica não teve dificuldade em  diagnosticar uma colagenose. Quando se lê sobre essa doença num tratado antigo, ele fala em doença autoimune de etiologia desconhecida, que acomete mais mulheres do que homens e está com muita freqüência associada a depressão.
A princípio foi um pouco difícil aceitar, afinal a minha saúde física sempre fora boa e a idéia de carregar algo tão desagradável, quanto de evolução obscura, foi dolorosa. Comecei a procurar tudo sobre o assunto, mas encontrei pouca coisa. É uma doença rara e ninguém vai gastar muito dinheiro em pesquisa para beneficiar poucas pessoas. Não há tratamento específico, a não ser um, experimental, na Harvard. E a progressão da doença é muito variável.
De qualquer maneira, hoje estou bem. Depois eu penso no depois. E o que precisar ser feito a gente faz no momento oportuno. Eu não me sinto mais sozinha. Eu não estou mais sozinha.
O que funciona nesses casos são os tratamentos alternativos, como meditação, acupuntura, disseram. Iniciei meditação. E, a não ser quando esfria muito, ou quando preciso carregar algum peso, nem me lembro da doença. Hoje eu estou muito bem.   

SERVIÇO EM AL-ANON

Aceitei um encargo no grupo  de Alanon depois de alguns meses de freqüência. Era simples mas me soava muito complicado. Tinha que ir à cidade uma vez por mês e ia de ônibus. Levantar cedo num Sábado, ficar no ponto do ônibus por quinze minutos ou meia hora, viajar em pé, ás vezes, não era bom. Eu me sentia mal. Quando chegava na reunião, arranjava jeito de sair de vez em quando para tomar água, café, ir ao banheiro, por causa da ansiedade. Eu não podia ficar parada muito tempo. Não creio tenha feito nada útil, ou quase nada, nesse tempo, em prol do Al-Anon.  

FOCO

Voltei o foco para mim mesma. Eu não sabia o quanto  havia me perdido, vivendo a vida do outro. A dor desta mudança de direção da minha atenção foi grande. Eu havia me perdido a ponto de nem saber mais do que eu gostava. Tudo estava girando em torno do outro.  A própria constatação do vazio e da dificuldade de me encontrar, de saber dos meus desejos, era dolorosa.
Era preciso reconstruir tudo a partir de cinzas, de escombros, e encontrar no meio de tudo isso algum resquício de vida, de vontade para recomeçar. Pensava na pasta cheia de certificados de cursos como uma papelada inútil. Pensava toda a minha vida como sem sentido. Não enxergava nada positivo nela. Continuava sem saber para que eu servia. 

CONTROLE

Aprendi no Al-Anon que tinha que viver a minha vida e um dia de cada vez. Um dos lemas diz - viva e deixe viver - descobri que eu tinha que deixar o outro viver, que a minha atenção controladora prejudicava o seu tratamento, a sua recuperação. Aos poucos eu fui saindo do meu papel de controladora de sua vida. Devolvi a responsabilidade a ele e fui me ajeitando nos meus outros papéis.
Hoje sei o alívio que eu senti quando descobri que não precisava  controlar.  Na verdade eu não parei de controlar, apenas entendi que eu nunca controlei, apenas tentei e gastei muita energia numa coisa que agora tenho certeza que não existe. Ninguém controla ninguém, ninguém controla nada. Só nos desgastamos e sofremos com a fantasia desse poder.
Uma vez alguém disse que uma criança muito pequena pode se recusar a abrir a boca para beber algo, para comer. Mas a minha experiência foi com a tia velhinha. Ela passava até dois dias sem engolir nada, na fase final, quando na sua demência dizia que tinha veneno ou simplesmente que não queria comer, não queria beber, não queria os remédios. Não havia o que fazer. Só quando ela ficava agitada demais, aplicavamos-lhe uma injeção. Fora disso não havia como obrigar o que quer que fosse. Essa foi uma lição preciosa. 

APRENDIZADO

Comecei a me interessar pelas reuniões científicas sobre alcoolismo. Fui a congressos e cursos ainda deprimida.
E foi muito importante para mim, compreender que a recuperação do alcoólico e do familiar é um processo e que os vários modelos de tratamentos existentes podem e devem ser tentados. Não se deve excluir nenhum porque até agora ninguém tem a fórmula mágica. Cada paciente é um enigma e penso que é isto que me fascina nessa patologia. E é por conta dessa percepção que me incomodam os profissionais xenófobos, donos da verdade, com os quais tenho comprado algumas brigas. Nessas idas e vindas, descobri que eu estava usando tranqüilizantes por um tempo longo demais. A dose era baixa, mas quase diária, havia muito tempo. Penso que o meu problema de memória talvez esteja mais relacionado com este uso. Resolvi deixar e foi um sofrimento a mais, passei algumas noites em claro. Tive que reaprender a dormir sem tranqüilizantes. Tive que aprender a viver com as minhas emoções ao vivo, sem o modulador químico e foi  complicado. Não sabia mais como eram as minhas emoções normais.
As vezes fico incomodada porque sei pela minha prática clínica que os tranqüilizantes são receitados muito mais freqüentemente do que seria prudente, e mais, os pacientes não tomam conhecimento do seu potencial para gerar dependência química. 

MEMÓRIA

A minha memória foi muito prejudicada por todos os acontecimentos, pelas alterações hormonais e principalmente por esses medicamentos. Iniciei o uso de tranqüilizantes ainda na faculdade, receitado por um professor  por conta de uma gastrite nervosa.  Não tomava sempre, mas tinha sempre a mão.   Àquela época, ninguém sabia que o seu uso por mais de seis semanas, mesmo em doses baixas, já  pode desenvolver dependência.
Os diazepínicos surgiram na década de 60, e era o medicamento da moda, da mesma maneira que os antidepressivos são hoje. Como estudante e depois médica, eu mesma prescrevia.
Tenho observado que muitos familiares de dependentes, infelizmente, usam diazepínicos por um tempo longo demais. E como diz um professor, este é um péssimo modo de se lidar com ansiedade.
Precisei de antidepressivos por algum tempo, receitado por um psiquiatra que cuidava do meu companheiro e atendia as esposas num  tratamento de grupo.
Aprendi a respeitar, a ter muito cuidado com  medicamentos  psicoativos.  

MELHORA

A ansiedade começou a baixar, a fraqueza e mal estar foram se tornando mais esporádicos.
Um dia me propus a reiniciar uma atividade que no passado me dava muito prazer. Comecei a receber aulas de pintura, também para ter um pouco de atividade disciplinada.
No começo chegava na aula sempre muito cansada e não tinha vontade de fazer nada. Irritava-me com tudo. Ficava em frente da tela em branco muito tempo, não sabia por onde começar. Quando começava, as cores saiam sem graça e apagadas e muitas vezes tinha vontade de jogar tudo no lixo e ir embora. Continuei por disciplina.
Continuei por alguns anos. Fiz amizades muito boas, o que  ajudou sobremaneira na minha recuperação.
Todos os cursos e congressos sobre dependência química que havia eu participava. Conheci profissionais extraordinários, dedicadíssimos e tive o privilégio de colaborar e aprender com vários deles. Comecei por  trabalhar com familiares de dependentes.  Fiz estágios em clínicas de recuperação tendo ficado numa delas por dois anos. Nunca soube onde terminou o estágio, que para mim funcionava como tratamento, e onde comecei a atuar profissionalmente.  Notei que era útil na clínica quando os dois psicólogos encarregados do tratamento de família tiraram férias e os substitui.
Iniciei formação em terapia familiar  e freqüentei o curso por um ano, mas estava ainda bastante comprometida  e resolvi dar um tempo, antes de continuar os outros três anos.
Um dia percebi que aquela dor, aquele aperto no peito estava menos incômodo e finalmente, que havia  desaparecido. O medo, meu companheiro de sempre, também  foi diminuindo até sumir.
Um dia destes quando estávamos saindo para um passeio, na estrada comecei a sentir falta de alguma coisa e foi até divertido perceber que o que faltava era aquele aperto no peito, aquela ansiedade.
Houve um momento em que me senti livre. Eu me senti renascer não das cinzas, mas de escombros. E era muito bom.  

SOBRIEDADE

Conviver com o companheiro sóbrio a princípio não foi fácil. Havia muitas mágoas e ressentimentos de ambas as partes. Eu havia invadido muitas de suas atribuições por conta de sua retração. Se por um lado, assumi-las  foi bom para nos manter, e inquestionável necessidade, era agora hora de as devolver e isso implicava em mudanças, em alterações nada fáceis de se fazer. Não sabíamos repartir as tarefas. As regras do jogo tiveram que mudar e só com muita paciência de ambos os lados, fomos nos acertando.
O dia em que fomos juntos escolher tecido para forrar um sofá e cortinas para um quarto, celebramos como  uma verdadeira vitória.
Há um outro ângulo a ser observado, é que na verdade, eu não sabia como era o meu companheiro sem o aditivo, sem o álcool.  Eu o conheci sob o efeito do álcool, que continuou pelos anos afora. Agora teria que recomeçar tudo e começar a entendê-lo e como ele era, de verdade. Depois de muitos anos.
Buscamos em várias fontes o que precisávamos. Continuo fazendo terapia individual, que tem me ajudado muito e continuo a freqüentar o Al-Anon. 
Penso que agora posso entender uma certa resistência de alguns colegas com os grupos de mútua ajuda, e penso que ambos são tratamentos, terapias, que agem em  diferentes níveis e são complementares. Os profissionais em nosso meio conhecem pouco dessas irmandades. Com o tempo aprenderão a sua utilidade.
O meu companheiro tem se revelado uma base sólida em minha vida  tão cheia de altos e baixos. Ele consegue se adaptar as minhas variações. Não dá a mínima bola para as minhas rabugices. Segura as pontas quando tenho alguma recaída e não poderia desejar mais para mim. 
Mesmo sabendo que há muita coisa a ser feita ainda, a melhora que sinto é extraordinária. As vezes, quando lembro de meu passado tenho a impressão de que este tratamento me permitiu passar a minha vida a limpo. Estou entendendo quase tudo que aconteceu. Posso olhar para trás com outros olhos, com mais leveza, com  muito menos sofrimento. Já não me sinto vítima do destino. Ao contrário, posso agora entender o quanto fui privilegiada pela vida.
De vez em quando ainda tenho recaídas. Fico mau humorada, ansiosa por algum acontecimento. As minhas atitudes tornam-se bruscas e me incomodo pelo meu comportamento desagradável. 
A diferença é que percebo logo, e dura pouco. Ás vezes dois dias, um dia, ou horas. As vezes minutos. 

SINAIS DE CRESCIMENTO 

Com o correr do tempo notei que as minhas pinturas começaram a ficar mais coloridas, mais bonitas, e despertar a admiração dos meus colegas  ou de outras pessoas para quem eu as  mostrasse,  o que ajudou muito na melhora de minha autoestima. Quem mais me incentivava era a tia.
No serviço público ocorreram algumas mudanças e eu tive que começar a fazer alguma coisa como médica. Então fui para uma repartição de organização de serviços. Fiquei na saúde mental e pude colaborar um pouco para a questão das drogas. Só me incomodava o fato de não estar ainda em condições de manter argumentações muito firmes, no sentido de tentar vencer a resistência que encontrei entre os profissionais para aceitar os grupos de mútua ajuda como valiosos no campo das dependências de drogas. Percebi que há muito preconceito que impede a busca legítima de soluções e me propus a lutar por essa causa. Buscar a integração dos recursos para agilizar o processo na direção de  soluções para essa questão tão complexa quanto pouco conhecida.

A integração dos diferentes modelos de atenção me parece indispensável, mesmo porque se não nos articulamos com trocas de experiência, nos articulamos por intermédio dos pacientes. Aos que buscam tratamento pouco importam o nome da modalidade. Eles buscam resultados. Onde encontrar consistência no atendimento ele ficará. E em pouco tempo percebi que muitos pacientes circulam de um modelo para outro até encontrar aquele que lhe dê o que ele procura. Consolidar-se em sua proposição de abstinência ou recuperação ou, ao contrário, até encontrar alguém que compactue com a sua ambivalência, perpetuando o uso. E penso que cada sessão, em cada tipo de tratamento, no final, contribuiu um pouco para o resultado obtido.

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