logotipofaixa

linha
                                                          
                                                                                                                                  

 CODEPENDÊNCIA E PRECONCEITO

Dra. Dirce de Assis Rudge 
 

É possível que alguns entendam a idéia deste diagnóstico como anacrônica porque tenta focar numa questão muito definida e particular, quando o movimento atual é no sentido de relacionar e compreender o todo. O tempo da especialização está passando.
Edgar Morin explicita muito bem o espírito atual de complexização.
No entanto, muitas vezes é preciso um olhar mais focado para que se possa até entender o todo.
Entender que eu tenho dor numa determinada parte do meu corpo fará com que eu busque alívio. Posso tomar um analgésico e a dor melhorará ou passará de todo. Porém, se ao invés disso eu olhar com lente de aumento o ponto doloroso e puder retirar o espinho com uma pinça, o efeito será muito melhor porque será eficiente e curativo. 
No outro caso, cessado o efeito paliativo do analgésico a dor continuará e haverá necessidade de mais analgésico até que o organismo isole o corpo estranho numa inflamação que pode ter outras conseqüências, e ele, o corpo estranho, seja expelido ou se torne um ponto de dor crônica para o resto da vida.
Entende-se por Codependência  um síndrome que acomete pessoas cuja família de origem não ofereceu condições  de desenvolvimento de vínculos afetivos estáveis e formação de uma imagem positiva de si mesmo.
A baixa auto-estima é um sintoma muito comum, talvez o mais freqüente entre esses indivíduos, apontando a dificuldade que eles apresentam em relação à compreensão do seu valor e amor próprio e a quase impossibilidade de formação de uma auto imagem positiva.
Trata-se de uma disfunção emocional que ocasiona uma espécie de “trava” emocional  no percurso, impedindo a pessoa portadora de se expressar e se desenvolver convenientemente, de acordo com o seu potencial. É comum que tenha formação de grande interesse para a sociedade, com nível universitário,  mais de um diploma de curso superior, porém não encontra o seu lugar, muitas vezes não consegue exercer a profissão para a qual se preparou, muito freqüentemente de ajuda.
Tenho acompanhado um número significativo de pessoas que se dedicaram a profissões de ajuda, que não conseguem deslanchar na profissão. Outras vezes conseguem até algum impulso e não conseguem valorizar o próprio trabalho, cobrando por ele uma quantia abaixo do mercado que impossibilita o seu sustento, ou se dedicam ao voluntariado. 
É um ser que não encontra o seu espaço. Como diz um autor americano é uma pessoa que sempre se sente “menos que”.
Muitos autores estudam a formação e as questões envolvendo vínculos e auto-estima, porém foi a partir do trabalho de M. Cork, em 1969 – The Forgotten Children – que os estudiosos  voltaram sua atenção para os filhos de pais alcoolistas e deu início aos estudos e o surgimento do termo codependência.
Nesse trabalho Cork entrevistou 116 crianças filhas de lares desestruturados por alcoolismo e as conclusões incomodaram muito. Especialmente pela elevada prevalência de alcoolismo em todo o mundo.
Na nossa impressão o incômodo foi tal que muitos profissionais rejeitaram e rejeitam até hoje a idéia, vivendo um claro e nocivo preconceito. 

Preconceito – idéia não pertinente que se tem de algum assunto e que por conta de haver uma idéia, a pessoa torna-se impedida de apropriar-se do fato. Não há busca da verdade, há uma acomodação e apego ao conhecimento anterior, bloqueando qualquer possibilidade posterior. 

Rhivinus fala em navio passando na noite, referindo-se aos filhos de pais alcoolistas. Normalmente essas crianças são esquecidas e deixadas de lado no processo de recuperação dos pais. E é fundamental a compreensão de que a criança acompanha toda a derrocada do casal. Sofre os abusos e outras violências que muito freqüentemente acompanham esse tipo de vivência e quando do tratamento dos pais são deixadas para trás.
Alguns pacientes dependentes não conseguem perceber, e isto faz parte do quadro de sua doença, o quanto o seu comportamento foi destrutivo e atingiu os seus familiares. Falam que não foram violentos, sem se darem conta de que a omissão em relação à crianças pequenas é uma violência muito grande.
A criança que se sente desprotegida, está sofrendo um tipo de violência, a criança que não tem um provedor, que vive a instabilidade de um lar desorganizado, que sofre ameaças de rupturas, é violentada.
Há casos onde a criança torna-se a maior vítima recebendo maus tratos dos dois lados. Do pai dependente e da mãe desorganizada e doente. Muitas são abandonadas à própria sorte, e outras ainda são forçadas a assumirem um papel parental de arrimo por conta da desorganização familiar. Ouvi de uma delas que era obrigada a cozinhar quando ainda não conseguia alcançar as bocas do fogão. Era ela quem ia buscar a mãe e o pai caídos na rua, nos bares. Era ela quem entrava no meio dos dois quando brigavam e apanhava e se feria por conta disso.
Muitas vivem abandonadas à própria sorte e se não encontram nenhuma figura de apêgo no seu ambiente pode acabar vítima  de pessoas sem escrúpulos. Ninguém as protege, ninguém as defende e nem lhe dá a idéia, necessária, de que é valiosa, merecedora de amor.
Caminha no sentido de perpetuar o ciclo  de desestruturação tendo ela mesma algum comportamento inaceitável, usando drogas, delinqüindo e dando inicio através da procriação e descuido com a prole, a novo ciclo destrutivo.
Ninguém se dá conta de sua fragilidade e desproteção.
Muitas vezes a família “desperta” quando esse filho transgride, muitas vezes tornando-se ele mesmo usuário de drogas. A esta altura a dificuldade para o tratamento já é muito grande porque se trata de uma dependência química num indivíduo fragilizado.
Há um pensamento fantasioso de que se tratando os pais a criança automaticamente ficará boa.
Tenho observado ainda que muitas mães se recusam a levar o filho ao tratamento por não querer que ele seja exposto às questões que serão ventiladas nas sessões. É interessante observar este movimento porque a mãe quer proteger o filho da dor do tratamento, e se esquece de que ele acompanhou cada momento de destruição que antecedeu o tratamento e que entenderá e se sentirá aliviado, tal qual o adulto, ao descobrir que há esperança, que há saída para ele e os seus.
Num tratamento de grupo de que participei ainda estagiária, uma criança de 9 anos que acompanhava a mãe porque não tinha com quem ficar e ficava o tempo todo rabiscando um pedaço de papel foi quem mais aproveitou o programa, tendo melhorado o comportamento e o aproveitamento escolar ao fim de dois meses de duração do tratamento.
É absurda a idéia de que a criança não fez parte do processo de desorganização familiar.
Posteriormente verificou-se que  o mesmo tipo de acometimento ocorria em pessoas oriundas de outros tipos de lares com variados tipos de desorganização e o termo codependência acabou incluindo pessoas oriundas de lares desestruturados por outras questões que não o alcoolismo e a drogadição.
A população atingida por essa síndrome é variada e há comorbidades também variadas. Porém a existência dessa disfunção agrava outros tipos de psicopatologias além de gerar a plêiade de sintomas próprios, dos quais falaremos adiante.
Como em qualquer doença ou patologia, há graus variados de comprometimento, sendo a idéia de verdadeiros milagres, possível, quando de um ambiente absurdamente desorganizado emerge uma figura absolutamente especial e bem dotada de qualidades.
O mais importante, porém, em relação a essa disfunção é a constatação de que o tratamento específico e a freqüência a grupos de ajuda mútua são eficientes e há regressão do quadro com interrupção do ciclo perverso.
A pessoa submetida a esse tipo de tratamento, “explode” quando se vê livre das “amarras” emocionais. Sobe como um rojão, como um foguete. No período de poucos meses nota-se uma desenvoltura e uma apropriação do que é seu de modo especialmente interessante. O processo pode ser muito rápido e uma pessoa passar de uma condição de baixa auto estima e desvalia para uma outra situação absolutamente diferente, com um brilho especial.
Uma paciente que acompanhei, depois de poucos meses mudou o estilo de vida, pode aceitar um presente caro e útil que lhe era oferecido havia anos, prestou exame e foi aprovada no vestibular para a faculdade que desejava e livrou-se de um relacionamento incômodo com um usuário  de cocaína que já se arrastava por mais de dois anos.
É comum que o próprio paciente sinta-se perplexo por não conseguir evoluir com os tratamentos comuns. Sente-se uma pessoa diferente, uma pessoal especial no sentido pejorativo do termo.
É um tratamento especialmente gratificante para o terapeuta e para o paciente, tornando-se este, muito reconhecido e grato ao terapeuta.
Sem o tratamento e essa interrupção, há formação de  uma espiral para baixo com a história familiar sendo repetida e agravada por várias gerações.
Temos acompanhado casos de situações absurdas com famílias inteiras aprisionadas e limitadas, em meio a ameaças e abusos de todo tipo, incapacitadas de perceber os próprios recursos. Impossibilitadas de enxergar outras possibilidades, outros modos de viver. É como se estivessem vivendo uma reclusão auto imposta, como se não tivessem pernas para caminhar alguns metros, mesmo elas sendo perfeitas.
O mais assustador foi encontrar nesse meio um grande número de crianças pequenas, sendo criadas por essas pessoas.
Recebendo delas a mesma mensagem de desesperança e menos valia.
No atendimento de pessoas com dependência química notamos a enorme proporção de esposas de alcoolistas que são filhas de alcoolistas. Isto pode ser explicado por outras teorias – Whitaker diz que a escolha do parceiro é extremamente precisa e fala de escolha de “inconsciente para inconsciente”. Fala-se ainda em resgate da figura do pai, em escolha  que faz sentido para a pessoa, naquilo que preenche o vazio existencial.
O que vemos é que  pessoas assim atingidas e com auto-estima muito baixa casam-se com alcoolistas,  drogadependentes, doentes mentais e pessoas portadoras de outras patologias crônicas, e possuem uma capacidade quase infinita de tolerância a vários tipos de abusos,  carregando por muitos anos, às vezes várias dezenas de anos, uma espécie de cruz que não tem um fim definido. Não há um Monte do Calvário libertador  à sua frente.
Verificamos em grupos de tratamento, que algumas pacientes puderam perceber que não aceitaram casar-se com homens que demonstravam amor verdadeiro  e as tratava bem, optando por outro com característica oposta, incapazes de amar.
A pessoa pode tornar-se um amontoado de sensações desagradáveis e  ficar completamente inerte, não reagindo de maneira adequada mesmo frente a situações absolutamente claras e óbvias.
A pessoa que desenvolve codependência perde a capacidade de agir, apenas reage emocionalmente e quase sempre de maneira inadequada.
Uma das características é que essas pessoas vivem
a maior parte do tempo  com raiva, medo, insegurança ou ansiedade. Ou todos esses sentimentos juntos. É comum que relatem e usem a expressão ódio ao familiar comprometido.
Em decorrência dessa disfunção o paciente dependente químico pode manter-se no percurso de sua doença por muitos anos e acabar sendo consumido totalmente por sua doença, porquanto o seu parceiro que poderia mobilizá-lo para buscar o auxílio necessário encontra-se imobilizado em seu quadro de disfunções próprias. E os filhos desse par repetem o quadro e repassam a disfunção para seus filhos.
Há estudos que relacionam o Mito de Narciso e Eco ao casal com alcoolismo, que leva sempre a um final trágico por conta da impossibilidade de um ver o outro e do outro de agir.
Explicando melhor : Narciso, apaixonado por si mesmo não consegue ver mais nada à sua volta e Eco foi condenada a falar e ouvir somente o eco do que fala. Assim funciona o casal com alcoolismo onde o alcoolista não consegue ver nada à sua volta e a esposa não consegue fazer nada a não ser reagir. Forma-se um círculo perverso, onde nenhum dos dois encontra meios de sair dessa “prisão”.
Os sentimentos que perturbam esse tipo de paciente podem tornar sua vida insuportável ou podem ser usados a seu favor, no exercício de uma profissão – os tomadores de conta dão excelentes médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. Isto quando bem elaborados, senão poderão se tornar médicos, psicólogos, enfermeiros queixosos porque nunca conseguirão atingir a perfeição desejada. 

RAIVA 

A raiva é um sentimento protetor. Ela provoca a nossa reação quando sofremos qualquer tipo de abuso. Quando alguma coisa ultrapassa o limite saudável à nossa volta, ficamos com raiva e reagimos para proteger nossa integridade.
 É, talvez, o sentimento mais freqüente entre esses pacientes.
Não é um sentimento de raiva coerente, ao contrário, é um estado de raiva contínua que torna toda atividade muito complicada e difícil, expressando-se muitas vezes por uma depressão prolongada.
A dificuldade e muitas vezes impossibilidade mesmo, de expressar a raiva causada pelos abusos consecutivos sofridos, dos pais e companheiros, interditados que são culturalmente. Desde cedo se aprende que não se pode sentir raiva dos pais. Que ficar “bravo” é feio, não é educado, não é um comportamento aceitável. Esse sentimento é “engolido” e vai contaminar todo sentimento e expressão do indivíduo.
Alguns pacientes desenvolvem um tipo de comprometimento tão intenso que se mostram incapazes de demonstrar ou sentir raiva. 

INSEGURANÇA 

Alguns pacientes falam da enorme insegurança que sentem. Mesmo sendo absolutamente donos da situação, encontram meios de se sentirem inseguros, e tem uma sensação de que algo vai dar errado, que não se desenvolveram a contento, mesmo quando tenham se esforçado e conduzido tudo da melhor maneira possível.
Podem se tornar perfeccionistas, exibindo talentos especiais, pois não se contentam em fazer, eles precisam fazer com perfeição.
Alguns desses pacientes expressam o seu sentimento de mulher maravilha e super homem. Muitas vezes oscilando entre esse sentimento e a impotência absoluta. 

MEDO 

O medo é outro sentimento protetor que nos impede de nos expormos a perigos reais de graus elevados de risco.
O medo do codependente pode se expressar de maneira violenta, chegando a fobias, ou se tornar crônico e contínuo, uma sensação que está ali presente o tempo todo, uma sensação de que algo ruim vai acontecer. Uma expectativa de mal, um medo muitas vezes absolutamente indefinido e infundado. 

ANSIEDADE 

A ansiedade é o sentimento de expectativa que nos prepara para a ação.
É útil porque deixa o nosso organismo pronto para a ação que irá suceder. Isto quando precede algum evento.
O problema da ansiedade nesses pacientes é que não  precede nenhuma ação. É um sentimento difuso e sem sentido.
Muitos pacientes vivem em estado de ansiedade o tempo todo. 

Pessoas cheias de raiva, insegurança, ansiedade e medo vivem um estresse constante no correr do dia e do tempo. Acabam esgotadas e muito freqüentemente somatizam. Organizam esses sintomas ao nível de uma disfunção num dos sistemas do corpo.  

        
AS LEIS 


Não falar

O familiar de um dependente químico dificilmente fala sobre o seu problema. Chega a não falar com as pessoas mais próximas – pais, irmãos. Essa atitude leva a maior incompreensão dos circundantes quando acontece uma crise e há separação do casal, por exemplo.
Muitos dos que viviam muito próximos nada sabiam a respeito. Ou muito pouco. Apenas o que viu e ouviu. 

Não confiar 

A pessoa que procura sobreviver a uma situação tão carregada de sentimentos destrutivos assimila esta lei que muitas vezes dificulta ainda mais a busca e o encontro de saídas. Ela não confia em nada e em ninguém. 

Não sentir 

Alguns pacientes chegam a um extremo de apatia  recusando-se a admitir que tenham algum sentimento de raiva ou qualquer outro, negativo.  

COMPORTAMENTO COMPULSIVO 

É muito freqüente. Pode ser relacionado ao uso de drogas ou a outro tipo de compulsão. Por limpeza, jogo, compras. 

DIAGNÓSTICO

Timmen Cermak apresentou proposta de critérios ao DSM II para diagnóstico de codependência. Estes critérios, apesar de não terem sido aceitos, nos são muito úteis do ponto de vista prático porque possibilitam uma melhor compreensão desse comprometimento, de maneira sistematizada. Seriam eles:

1. Investimento contínuo da auto-estima, na habilidade para influenciar/controlar sentimentos e   comportamentos;
2. Assumir responsabilidade pelas necessidades dos outros mais do que as suas próprias;
3. Ansiedade e distorção nos limites da intimidade e separação;
4. Envolvimento em relações com pessoas com distúrbios de personalidade ou dependência química;
5. Tendência à negação;
6. Depressão;
7. Hipervigilância;
8. Compulsões;
9. Aprisionamento de emoções que resultam em explosões dramáticas;
10. Ansiedade;
11. Abuso de substâncias;
12. Vítima recorrente de abuso físico ou sexual;
13.Estresse relacionado com doença física;
14. Permanência na relação com abusador de substâncias por pelo menos dois anos sem procurar ajuda.

Para que o paciente tivesse o diagnóstico firmado teria que apresentar três dos sintomas referidos num período de 12 meses.

A importância desta classificação de critérios se deve ao fato de apontar que acontece algo especial com as pessoas nessas condições, o que exige uma atenção também especial por parte dos terapeutas e agentes de saúde. Em 1969, Margareth Cork foi a primeira a chamar a atenção para esse contingente.
 

linha