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Codependência: A Espiral Perversa Multigeracional
Margareth Cork, em 1969, chamou a atenção dos cientistas para os comprometimentos possíveis em familiares de alcoolistas, ao publicar “A Criança Esquecida”. Trabalho para o qual entrevistou 116 crianças, filhas de pais alcoolistas. Mais recentemente, Timmen Cermak chegou a apresentar critérios para diagnóstico de codependência, para o DSM II mas ainda há resistência para essa inclusão como doença primária.
Entre nós chama a atenção o fato de apesar de as famílias de pessoas comprometidas por alcoolismo apresentarem-se freqüentemente muito desorganizadas pela seqüência de problemas desencadeados e desencadeadores, há resistência na procura de serviços especializados.
Além disso, raramente as crianças são trazidas, ou mesmo citadas. Em Children of chemically Dependent Parents, Timothy M. Rivinus, diz à certa altura – “filhos de pais dependentes químicos – navio passando na noite ”. No mesmo texto há a citação de que o sofrimento intenso da família não é compartilhado e esta se isola, aumentando o sofrimento e diminuindo as chances de recuperação de seus membros.
Observamos em nossa prática diária, por outro lado, a elevada porcentagem de esposas de alcoolistas, filhas de pais alcoolistas.
É preciso entender que esta dinâmica familiar multigeracional forma uma espiral perversa com tendência a repetição levando a conseqüências dramáticas por várias gerações.
É importante lembrar que dentre as leis que regem o lar assim comprometido, três têm conseqüências muito graves: “não falar”, “não confiar” e “não sentir.” A situação doméstica de instabilidade, com extremos de insegurança, raiva, medo, ansiedade e estresse constantes; vergonha; a situação traumática repetida à exaustão tem conseqüências extremamente deletérias sobre todos os membros e especialmente nos que se encontram em formação. Notamos que há uma idéia mágica não explicitada sobre essas crianças, de que ao se tratar os pais, elas se acertam automaticamente. E esta não é a realidade. Alguns parentes e mesmo terapeutas falam do receio de expor a criança ao trauma da situação de tratamento, esquecendo-se de que ela esteve envolta na situação doentia, em muitos casos, situações prolongadas de extrema violência.
É um alento para os familiares a compreensão de que o alcoolismo é doença, de que o ente querido não deixa de beber porque não pode, e não porque não quer, que como em qualquer doença, ele precisa de ajuda para recuperar-se. A criança compartilha desse alívio no ambiente de tratamento, levando consigo esse alento, modificando o comportamento em suas relações e na escola.
O codependente apresenta tendência de controlar situações, coisas e pessoas; tendência à depressão; investimento no outro em detrimento de si próprio; traço compulsivo; tendência ao abuso de substâncias; capacidade de permanecer numa situação de abuso cronicamente; de permanecer numa relação afetiva com dependente químico por mais de 2 anos sem procurar ajuda, dentre outros sinais e sintomas. Por outro lado é preciso entender que esse tipo de comprometimento está presente em outras situações, que não envolvem abuso de substâncias, tais como a perda ou doença crônica incapacitante de um dos pais, abandono, crianças submetidas a abuso físico e sexual, dentre outras situações que geram o sentimento de desamparo na infância.