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Cocaína - Parte I
Marcelo Ribeiro, MSc
A cocaína é um alcalóide natural, extraído da planta Erythroxylon coca, estimulante do SNC e anestésico local. Foi isolada na virada desse século e largamente utilizada pela medicina até o início dos anos 20, quando foi proibida em vários países da Europa e nos Estados Unidos devido à dependência e aos comportamentos de abuso que causava. Ressurgiu nos anos 80 e é hoje a droga ilícita mais comumente mencionada nas admissões em prontos socorros.
Boa parte dos indivíduos faz uso de cocaína associado a depressores do SNC (álcool, benzodiazepínicos, maconha [no contexto brasileiro] e opiáceos) (1), visando a contrabalançar os efeitos simpatomiméticos da droga. Pode haver dependência de álcool associada, que produz sinais e sintomas de abstinência e/ou delirium, nos dias que seguem à admissão. A cocaína e o crack, vendidos nas ruas, por sua condição ilícita, não têm controle de qualidade, possuem toda a sorte de adulterantes e métodos de refino e alcalinização duvidosos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dos usuários.
Pode provocar sinais e sintomas físicos e psíquicos agudos importantes, tanto em usuários crônicos, eventuais ou iniciantes, instabilizar problemas clínicos de base ou ainda gerar complicações clínicas pelo uso prolongado. A intoxicação pela cocaína, devido à alta taxa de prevalência e sua capacidade geradora ou desencadeadora de complicações focais e sistêmicas, deve constar no rol dos diagnósticos diferenciais nas salas de emergência e requer avaliação psiquiátrica e clínica.

Metabolização e excreção
A cocaína é metabolizada pelas enzimas monoaminoxidase (MAO) e COMT (2). Pode ser hidrolisada e convertida em benzoilecgonina ou ecgonina-metil-éster ou desmetilada e convertida em norcocaína. Na presença do álcool a cocaína é transesterificada e convertida em cocaetileno. O metabólito é ativo e tem meia-vida de duas horas, atravessa a barreira hematoencefálica e é mais cardiotóxico que a cocaína. Todos os metabólitos citados são eliminados pelo sistema renal. A benzoylecgonina é o principal metabólito e pode ser detectada em testes de urina até 36 horas após o último uso.
Problemas específicos relacionados à via de administração escolhida
Aparelho respiratório
O acometimento pulmonar é uma complicação relacionada ao uso do crack (6). Os usuários comumente apresentam dores torácicas, tosse, hemoptise, atelectasias, pneumomediastino, pneumotórax e hemopneumotórax. Pode haver exacerbação de quadros de asma, lesões térmicas nas vias aéreas, deterioração da função pulmonar, bronqueolite obliterante, edema pulmonar não-cardiogênico e infiltrado pulmonar.
O uso da cocaína aspirada está associada ao aparecimento de rinites alérgicas ou vasomotoras, sangramento, ulceração ou perfuração do septo nasal, sinusite ou colapso nasal. Além disso, o uso pronunciado de descongestionantes nasais por esses indivíduos por longo período acaba por deixá-los dependentes do uso continuado do produto, a fim de evitar efeitos-rebote e desconforto na respiração via nasal.
Aparelho cardiovascular
Os usuários de cocaína endovenosa (2) facilitam o aparecimento complicações secundárias à ruptura da camada protetora da pele. São mais suscetíveis ao aparecimento de celulites e abscessos, vasculites e endocardites. O Staphylococcus aureus é a bactéria mais comum, mas o Streptococcus e as gram-negativas também podem estar presentes.
Sistema Nervoso Central
Acometimentos centrais(2) relacionados à cocaína encontrados na literatura são os transtornos dos movimentos (tiques, reações distônicas, coréias, encefalites fúngicas e abscessos cerebrais. As duas últimas estão relacionados ao uso intravenoso. Atrofias cerebrais não-relacionadas a infecções, AVC ou traumatismos já foram detectados em usuários crônicos.
Fígado, hepatite e HIV
O uso de cocaína intravenosa por algumas horas aumenta reversivelmente as transaminases hepáticas, o tempo de protrombina, as bilirrubinas e a fosfatase alcalina. A prevalência de infecções pelo vírus da hepatite B e C e pelo HIV é maior nessa população, devido ao compartilhamento das seringas. Os usuários de crack se expõem mais a atividades sexuais de risco, muitas vezes com o intuito de trocá-las pela substância, e por isso estão suscetíveis às mesmas infecções (6).
ABORDAGEM AMBULATORIAL
Síndrome de abstinência e manutenção da abstinência
A síndrome de abstinência é atualmente definida pelo CID-10 (OMS,1992) como "um conjunto de sintomas, de agrupamento e gravidade variáveis, ocorrendo em abstinência absoluta ou relativa de uma substância, após uso repetido e usualmente prolongado e/ou uso de altas doses daquela substância. O início e curso do estado de abstinência são limitados no tempo e relacionados ao tipo de substância e a dose que vinha sendo utilizada imediatamente antes da abstinência. O estado de abstinência pode ser complicado por convulsões (7).
Mecanismo de ação (8)
O locus coeruleus (Quadro 4) e o sistema noradrenérgico são os protagonistas da síndrome de abstinência da cocaína. A interrupção do uso crônico libera os receptores e leva o locus coeruleus a um estado de hiperexcitabilidade. A descarga adrenérgica ocasiona os principais sinais e sintomas físicos da síndrome de abstinência. Acredita-se haver uma diminuição dos níveis de dopamina na abstinência, mas também existem estudos demonstrando níveis normais.
Síndrome de abstinência: Quadro Clínico (8)
Em 1986, Gawin e Kleber, após observarem seqüencialmente 30 pacientes ambulatoriais, propuseram o primeiro modelo de apresentação e evolução clínica da síndrome de abstinência da cocaína. Dividiram-na em três fases:
1. Primeira fase: "crash"
Referindo-se ao estado de humor do usuário, o crash instala-se logo após a interrupção do uso e pode se prolongar por cerca de 4 dias. O humor é caracterizado por disforia e/ou depressão, associado à ansiedade importante. Há diminuição global da energia, na forma de lentificação e fadiga. O craving é intenso e diminui ao longo de 4 horas. Segue uma necessidade de sono (hipersonia) que dura vários dias, normalizando-se então o estado de humor.
2. Segunda fase: "abstinência"
A fase de abstinência propriamente dita pode durar até 10 semanas. A anedonia é um sintoma marcante durante esse período, em contraste com memórias da euforia provocada pelo uso da cocaína. A presença de fatores e situações desencadeadores de craving normalmente suplantam o desejo da abstinência e recaídas são comuns nessa fase. Memórias dos efeitos obtidos, pessoas, situações e locais relacionados ao uso, dinheiro, talco, espelhos, lâminas, seringas e cachimbos são alguns exemplos. A ansiedade também está presente nesse período. Outros sintomas são a hiper/hiposonia, hiperfagia, alterações psicomotoras, tais como tremores, dores musculares e movimentos involuntários.
3. Terceira fase: "extinção"
Há resolução completa dos sinais e sintomas físicos. O craving é o sintoma residual, que aparece eventualmente, condicionado a lembranças do uso e seus efeitos psíquicos. Seu desaparecimento é gradual: pode durar meses e até anos. Reforçar a capacidade do paciente experimentar o fenômeno sem recair é fundamental.
O modelo proposto por Gawin e Kleber foi verificado em diversos estudos. Em usuários crônicos internados, porém, o quadro clínico e sua evolução mostraram-se diferentes: em ambiente recluso, os sintomas físicos e psíquicos são mais brandos e caminham linear e inexoravelmente para a resolução. O craving é leve e não altera a evolução dos outros sintomas. A ausência de estímulos ambientais cotidianos é o fator mais valorizado para explicar a alteração do modelo de abstinência proposto.
Craving e a recaída
Durante a abstinência do uso crônico da cocaína, os efeitos físicos são brandos e os psíquicos mais pronunciados, principalmente os relacionados ao estado do humor. O fenômeno mais peculiar detectado no uso crônico de estimulantes é o craving, um desejo súbito e intenso de utilizar uma substância, a memória de uma euforia estimulante, em contraste com o desprazer presente.
O craving pode estar presente em qualquer momento da abstinência: desde o término dos efeitos decorrentes do último uso até anos subseqüentes de abstinência. Nos períodos iniciais da abstinência, aparece em meio a sinais e sintomas físicos e psíquicos. Os mesmos desaparecem ao longo de semanas e o craving permanece como sintoma residual. Sua freqüência e intensidade, porém, decrescem. É subitamente desencadeado e resolvido em algumas horas. O estado de humor e os estímulos ambientais são capazes de influenciá-lo.