O Cérebro e as Drogas - Introdução

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O Cérebro e as Drogas 1

Dr. Eduardo Rudge

Introdução

Em virtude da sua grande afinidade pela água, logo após ter sido absorvido, o álcool difunde-se rapidamente por todo o organismo afetando o funcionamento de todos os sistemas orgânicos, mas o seu efeito sobre o Sistema Nervoso Central é o que lhe confere a característica de Droga Psicoativa da mesma forma com que são chamadas as outras drogas lícitas como os tranqüilizantes, anfetaminas e o tabaco, ou ilícitas como a cocaína, a heroína, e a maconha, sejam elas de uso terapêutico ou de uso recreacional.
Como a dependência por estas drogas já constava da Classificação Internacional de Doenças em sua sexta revisão de 1.948 sob o título de Toxicomanias e o alcoolismo era considerado apenas por sua participação na etiologia de outras doenças, podia-se esperar uma distinção de valores entre essas morbidades, de todo inconveniente sob os pontos de vista político, social, técnico-científico e médico. Tal situação levou o Comitê de Expertos em Higiene Mental da Organização Mundial de Saúde a criar um Subcomitê de Alcoolismo em 1.950, para estudar e resolver o assunto.
Nessa oportunidade foi convidado o Prof. E. M. Jellinek como consultor de alcoolismo, então uma pessoa bem relacionada com Alcoólicos Anônimos (em 1.945 publicara um livro sobre alcoolismo contendo um depoimento de Bill W., co-fundador do AA), que desde seus primórdios adotara o modelo-doença para essa patologia.
O resultado inicial desse trabalho foi divulgado pela Série de Informes Técnicos - No. 42 da Organização Mundial de Saúde e publicado pela Oficina Sanitária Panamericana (Publicações Científicas No1, Julho, 1.953). A Conferência Internacional para a Sétima Revisão da Classificação Internacional de Doenças foi realizada em Paris sob os auspícios da OMS em Fevereiro de 1.955 mas, de acôrdo com uma recomendação da própria OMS, sugerida pela Comissão de Peritos sobre Estatísticas de Saúde, esta revisão foi limitada às mudanças essenciais e de erros e alterações inconsistentes. Enfim, foi o alcoolismo classificado como doença pela Oitava Conferência de Revisão, convocada pela OMS, reunida em Genebra, de 06 a 12 de Julho de 1.965, a qual teve por critério de classificação de doenças, sempre que possível, a etiologia, ao envés de uma manifestação particular. (veja Alcoolismo Doença)
Em 1.977, por sugestão de Griffith Edwards (WHO offset publication n.32), o alcoolismo foi relacionado como uma Síndrome, ao lado das outras drogas causadoras de dependências químicas. Efetivamente, os transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de drogas possuem características comuns que permitem a sua reunião em um só título. Dessa forma, a Classificação Internacional de Doenças em sua décima revisão, de 1.994, apresenta critérios para diagnóstico de abuso e dependência comuns a todas as drogas, apenas diferenciando-as em sua categoria, assim:

F10-álcool. F11-opiáceos. F12-canabinóides. F13-sedativos e hipnóticos. F14-cocaina.
F15-estimulantes. F16-alucinógenos. F17-tabaco. F18-solventes voláteis. F19-múltiplas drogas.

Por se tratarem de patologias que se desenvolvem no Sistema Nervoso Central (SNC) cumpre-nos fornecer algumas informações técnicas que possam permitir um melhor entendimento do assunto pelo leitor, não apenas para acompanhar os informes apresentados na seqüência desta apresentação, mas também para atualizar-se com propriedade das novidades divulgadas pela mídia.
Omitiremos as informações relacionadas aos campos que recentemente adquiriram merecido destaque nas pesquisas, que são os campos da Engenharia Genética e da Biologia Molecular, e isto porque a sua complexidade extrapola as limitações deste trabalho. Diremos, entretanto, que foi a engenharia genética que proporcionou o desenvolvimento das variedades de roedores que, uma vez treinados para isso, dão preferência ao álcool em sua dieta, possibilitando eliminar o inconveniente viés metodológico da administração forçada de álcool, e a biologia molecular que possibilitou um melhor entendimento quanto aos aspectos químicos da transmissão nervosa.
Essas especialidades ganharam extraordinário impulso com o desenvolvimento de novas técnicas de pesquisa, permitindo o esclarecimento de detalhes sobre as modificações químico-estruturais ocorridas durante os processos de adaptação inerentes às dependências químicas, ao mesmo tempo em que puderam propiciar uma visão mais objetiva sobre essas ocorrências clínicas.

 

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