O funcionamento do Sistema Nervoso Central
Numa primeira apreciação, poderia-nos ocorrer que os 100 bilhões de neurônios que constituem o Sistema Nervoso Central (SNC), cada qual comunicando-se com outras centenas ou mesmo milhares de outros neurônios, são arrumados em departamentos autônomos, cada departamento com a sua tarefa,
como demos a entender, evitando-se dessa forma o caos na comunicação global do SNC, o qual destruiria ou prejudicaria a própria manifestação da consciência do ser, esta dependendo do permanente trabalho solidário da rede interneural.
Essa aparente super-especialização departamental com exclusividade de funções, entretanto não ocorre, pois segundo o pensamento preponderante entre os neurocientistas, o cérebro funciona no modo distribuído, e não no sistema modular. Há realmente a especialização funcional, mas dentro de contextos integrados e interdependentes. Podemos exemplificar com o atual fenômeno da globalização mundial, onde cada país, mesmo mantendo a sua própria soberania e cultura, é influenciado pelas tendências manifestadas em todo o resto do planeta, como resultado dos grandes avanços técnicos na área da comunicação.
Essa noção é importante em Dependência Química pois, como veremos adiante, a ação das drogas se faz em determinadas áreas do Sistema Nervoso Central, mas repercute em todo o Sistema Nervoso Central, o mesmo ocorrendo com as adaptações neurais necessárias à sobrevivência do indivíduo quando há um uso recorrente de drogas.
Os neurônios
O neurônio é a unidade sinalizadora do sistema nervoso e toda a sua estrutura é adaptada para as funções de transmissão e
processamento de sinais. Dessa forma essa célula possui muitas "antenas", filamentos chamados de dendritos, que contêm em sua superfície receptores adequados a receber mensagens de outros neurônios. Estes a transmitem pelos botões terminais de um prolongamento mais comprido chamado axônio. Então num neurônio, os dendritos recebem as mensagens e os axônios a transmitem.Os axônios, em geral, são protegidos por uma capa protetora chamada bainha de mielina, podendo juntar-se uns aos outros formando tratos ou circuitos de comunicação entre locais estratégicos do encéfalo, ou podem se ordenar em feixes constituindo os nervos, que transmitem as ordens do SNC para todo o organismo ou, ao contrário, levam de fora para dentro as informações obtidas pelos órgãos dos sentidos. Além de constituírem os nervos, que transmitem as ordens de comando para funcionamento de todo o organismo, os axônios representam as vias de comunicação entre as regiões do SNC constituindo a substância branca desse sistema, ao contrário dos corpos celulares que representam a sua substância cinzenta e são responsáveis por todas as outras funções da célula neural, que não as de transmissão e recepção de sinais.
A comunicação entre os neurônios
Entre os neurônios a palavra de ordem é a comunicação. Eles se comunicam uns com os outros, transmitem ordens de ação para todos os órgãos componentes do corpo ou recebem sinais sensoriais com destino ao SNC. Essa comunicação é feita através das
sinapses, onde o botão terminal do axônio pré-sinático coloca-se à frente do receptor pós-sinático deixando um espaço microscópico entre eles, que chamamos de fenda. O sangue circula por toda a superfície da membrana celular, e portanto, circula pela fenda da sinapse, local estratégico da ação das drogas no Sistema Nervoso Central.
O background da função neuronal é a eletricidade. Um neurônio conta com dois potenciais elétricos, um potencial de repouso e outro, potencial de ação, que funciona por pulsos elétricos rápidos, seqüentes, de intensidade sempre a mesma, mas podendo apresentar variações de intervalo entre um pulso e outro. A cada pulso deste potencial estabelece-se um contato químico entre um neurônio e outro, ou do neurônio ao tecido que deve receber um comando, da forma como veremos logo adiante.
E de onde vem a eletricidade? Ela é gerada na própria célula, por uma constante troca dos íons através da sua membrana, de certa forma lembrando uma bateria elétrica comum, dessas que funcionam através de íons de níquel, níquel cádmio, lítio etc., só que neste nosso caso os íons são de sódio e potássio, íons positivos, onde, em algumas circunstâncias entra o íon cloro, negativo, que vem atenuar a produção elétrica (veremos em ação do álcool, mais adiante).
Como vimos, existe uma separação física entre as células em decorrência da fenda sinática e, então, a eletricidade de cada célula não se propaga para a outra célula por simples contato. Partindo do afunilamento do corpo celular onde se origina o axônio, e seguindo por este (sempre reabastecendo-se pela troca de sódio e potássio ao longo deste percurso) até o botão terminal, já na sinapse, ela estimula a entrada de íons cálcio para esse botão, processando-se em seguida a liberação dos neurotransmissores para a fenda. Ai então os neurotransmissores tocam e estimulam os seus respectivos receptores existentes no neurônio seguinte, chamado pós-sinático, retornando à sua célula mãe onde será reciclado, pois a sua incumbência de transmissão de mensagens, normalmente, é realizada por uma única vez. Alguns neurotransmissores, como a acetilcolina, não retornam à sua célula mãe, sendo dissipados pelo plasma ou desnaturados enzimaticamente.
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