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ALCOOLISMO E MEMÓRIA

Dr. C. Eduardo Telles Rudge 

 

A memória para fatos recentes fica geralmente comprometida com o uso recorrente de bebidas alcoólicas, mas a grande queixa dos alcoolistas refere-se aos chamados  “apagamentos” ou “blackouts”. Para alguns indivíduos esses períodos de amnésia podem trazer ansiedade, pois a pessoa não se recorda do que fez enquanto intoxicada e teme ter prejudicado alguém ou ter agido de forma inadequada.
As memórias, imediata e remota permanecem preservadas, porém há um déficit específico da memória de curta duração, ou seja, o indivíduo não se recorda do que ocorreu durante um certo período da noitada anterior, por exemplo.
Trata-se de uma perda transitória da memória, ocorrendo em cerca de dois terços ou mais dos indivíduos dependentes do álcool.
São descritos dois tipos de apagamentos:
a)  Em bloco- amnésia densa e total, com pontos abruptos de recuperação, espontânea ou estimulada.
b) Fragmentário - são episódios de amnésia com fronteiras indistintas e ilhas de memória dentro dessas fronteiras.
Ambos os tipos podem ocorrer em graus variados, geralmente em estágio tardio da carreira de beber excessivo.
Tendem a recorrer e o indivíduo pode identificar a fase em que "começaram a apagar mesmo".
O uso concomitante de sedativos e hipnóticos pode aumentar a probabilidade de amnésia. Os indivíduos às vezes relatam que durante um período de amnésia eles se afastaram de casa acordando num lugar estranho, um evento descrito como um "estado de fuga" em termos psiquiátricos.
Uma conseqüência psiquiátrica grave do alcoolismo é a Síndrome de Wernicke-Korsakoff. Wernicke descreveu um estado mórbido agudo causado por alcoolismo, e que consiste em sinais oftalmológicos, ataxia ( dificuldade para andar) e confusão mental. Se não tratado com altas doses de vitamina B1 e abstinência, evolui para um estágio crônico, descrito por Korsakoff, e de difícil recuperação.
Esta síndrome é caracterizada por uma amnésia para eventos recentes e passados, podendo entretanto  desenvolver-se insidiosamente sem nenhuma história anterior de um episódio de Wernicke.
Tratam-se de lesões cerebrais orgânicas, e estudos de necrópsias sugerem que a Síndrome de Wernicke-Korsakoff ocorra em 2 ou 3% dos alcoolistas.
Quanto à medicação, após a essencial abstinência de álcool, doses elevadas de tiamina podem apresentar resultados favoráveis se instituídas a tempo, porém uma vez estabelecido, o Korsakoff costuma ser irreversível.