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BMJ 2007;335:671 (29 September 07), doi:10.1136/bmj.39337.431667.4E

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A Indústria do Álcool: visão crítica sobre a Saúde Pública

Michael Farrell, psiquiatra especializado em adição - Instituto de Psiquiatria do King’s College de Londres

m.farrell@iop.kcl.ac.uk 

 

A próspera indústria do álcool quer que seus produtos sejam associados com a saúde e a felicidade – e está jogando todos os seus trunfos para derrotar seus críticos.

Em todo o mundo, a indústria do álcool está crescendo cada vez mais. A produção comercial e o consumo do álcool têm aumentado em muitos paises em desenvolvimento por causa do crescimento econômico, das mudanças dos estilos de vida e do desgaste dos costumes tradicionais. A nova competição dentro da indústria teve um crescimento sem paralelo, especialmente na região Ásia-Pacífico. E essa é apenas a ponta do iceberg. Algumas organizações de marketing predizem o crescimento principalmente do conhaque, do whisky, e em outros nichos de bebidas alcoólicas enquanto os mercados chineses continuam a se expandir. A nuvem no horizonte é o setor de saúde pública. A indústria do álcool está aprendendo a evitar os erros que outras indústrias cometeram. Assim examinou com cuidado o estado atual da indústria do tabaco, o regulamento cada vez mais rígido de fumar em lugares públicos e a queda da prevalência do uso do tabaco em países desenvolvidos.

A indústria do álcool tem bastante interesse em enfatizar que o álcool não é uma droga, que ele confere benefícios e prazeres, e que se deve pensar primeiro como elemento de recreação e possivelmente como benéfico à saúde. A segunda principal mensagem da indústria é que apenas um número pequeno de pessoas infelizmente apresenta maiores problemas, mas a grande maioria não. O que a indústria teme é o controle total do consumo do álcool. Os advogados da saúde pública estão trabalhando com as estratégias orientadas à redução do consumo total do álcool, e o foco principal da indústria é promover o consumo total, embora responsavelmente.

Como parte de um sofisticado processo de relações públicas a indústria fundou o Centro Internacional para a Política do Álcool, que é apoiado pela Allied Domecq, Asahi Breweries, por Bacardi-Martini, por Brown-Forman Corporation, por Coors Brewing Company, por Diageo, por Foster’s Brewing Group, por Heineken, por Molson Breweries, e por SAB Miller. Está sediado em Washington, DC., e é dirigido por Marcus Grant, especialista em alcoolismo, que trabalhou na Organização Mundial da Saúde. A indústria está determinada a influenciar os debates em saúde pública para proteger os seus interesses. Afinal, o centro procurou parceiros em vários setores no campo da Saúde Pública que endossassem a sua posição.

Este é o alvo central indicado em um livro – onde um dos editores é Marcus Grant –argumentam que o combate aos problemas relacionados ao álcool seja inadequado considerando-se isoladamente a população. A indústria vem, por décadas, combatendo as medidas para reduzir o consumo, seja por aumento da taxação, seja por restrição de acesso ao álcool. A indústria discute que estas medidas não servem para culturas e contextos diferentes e não podem ser relevantes para aqueles indivíduos e grupos que estão na faixa de risco por terem problemas com a bebida.

O livro tem uma seção interessante em relação ao problema de destilados ilícitos que ocorrem em alguns países desenvolvidos, e faz uma boa revisão dos prejuízos específicos relacionados a tal atividade e estimativas de níveis totais de consumo onde ele existe. Entretanto, esta seção não traz nenhuma menção ao crescimento da produção comercial do álcool em alguns destes países e não cobre em particular os problemas relacionados ao álcool em tais países ou das preocupações expressadas pelos advogados da comunidade.

Freqüentemente o livro desafia a população a reduzir o consumo do álcool, e finalmente aponta especificamente o Projeto de Carga Global da Doença publicada pelo WHO’s que cita o álcool como o contribuinte principal à doença mental e física em países em desenvolvimento. Procura invalidar a extensa perspectiva da saúde pública em estimar a carga total da doença que está relacionada ao uso de álcool.

A seção final do livro tece um sofisticado argumento sobre a parceria entre a industria e o setor de saúde e faz algumas revisões, que considera útil, de alguns movimentos em andamento, para assegurar-se de que as organizações internacionais de saúde possam aproveitar de maneira construtiva os recursos do setor privado como parte das intervenções comuns da comunidade. Entretanto, em nenhum estágio explora os perigos da indústria, usando organizações não governamentais para encobrir seus interesses ocultos.

Desta forma inclue-se Associação Internacional de Redução de Danos (International Harm Reduction Association), que vem defendendo políticas liberais e controversas sobre o uso de drogas, enfatizando os direitos humanos dos usuários de drogas e promovendo as estratégias de redução de danos para ajudar a prevenir a transmissão do HIV entre os usuários de drogas injetáveis. Soa mal que aquela associação estivesse ligada ao lobby da indústria do álcool, e que seus maiores interesses se prestem infelizmente à ligação do seu diretor executivo, Gerry Stimson, com aquele referido livro. O movimento de redução de danos necessita de transparência, desobstruída e separada da indústria do álcool.

Apesar das amplas referências e considerável exploração de alguns tópicos, tais como o uso de bebidas por menores e beber e dirigir, esse livro serve principalmente às finalidades da indústria global do álcool e oferece pouco aos que desejam se informar sobre os prognósticos do crescimento irrestrito do consumo global do álcool previsto para a próxima década.

A indústria do álcool está interessada a enfatizar que o álcool não é uma droga e que só confere benefícios e prazeres.


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